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O oceano está pedindo socorro — e os peixes estão desaparecendo antes que a gente perceba

Escrito por Neo Mondo | 25 de fevereiro de 2026

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Oceano em alerta: aquecimento crônico dos mares ameaça a existência dos cardumes tropicais e a biomassa marinha cai quase 20% ao ano - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

O aquecimento crônico do oceano reduziu quase 20% da biomassa de peixes no hemisfério norte em menos de três décadas, segundo novo estudo publicado na Nature Ecology & Evolution — e o problema é mais silencioso e mais grave do que qualquer onda de calor isolada

Existe uma diferença crucial entre uma crise que aparece de repente e uma que vai se instalando devagar, quase sem avisar. A segunda costuma ser muito mais perigosa — porque quando todo mundo finalmente percebe o tamanho do estrago, já é tarde demais para evitar o pior. É exatamente isso que está acontecendo com o oceano do planeta, e um estudo publicado esta semana na revista científica Nature Ecology & Evolution colocou números assustadores nesse processo silencioso.

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A pesquisa, conduzida por pesquisadores do Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha e da Universidade Nacional da Colômbia, analisou mais de 700 mil estimativas de variação de biomassa de quase 34 mil populações de peixes registradas entre 1993 e 2021 nas águas do Mediterrâneo, do Atlântico Norte e do Pacífico Nordeste. A conclusão é dura: o aquecimento constante do oceano está provocando uma queda anual de quase 20% na biomassa de peixes no hemisfério norte. Biomassa, para quem não é familiar com o termo, é basicamente a quantidade total de peixes em um determinado ambiente multiplicada pelo peso médio desses animais — ou seja, é uma medida concreta de quanto peixe existe, de verdade, nos oceanos.

O que torna esse estudo particularmente relevante é o cuidado metodológico de separar dois fenômenos que costumam ser confundidos no debate público: as ondas de calor marinhas, que são eventos pontuais e de curta duração, e o aquecimento crônico dos oceanos, que é contínuo, persistente e muito mais devastador no longo prazo. "Quando removemos o ruído de eventos climáticos extremos de curto prazo, os dados mostram que esse aquecimento está associado a um declínio anual sustentado de até 19,8% na biomassa", explica o pesquisador Shahar Chaikin. Essa distinção importa porque as ondas de calor, paradoxalmente, podem gerar aumentos temporários de biomassa em regiões mais frias — criando uma ilusão de abundância que mascara a tendência geral de colapso.

E é justamente aí que mora um dos paradoxos mais perigosos dessa crise. Enquanto algumas populações de peixes podem perder integrantes com o aumento repentino da temperatura, outras passam a se reproduzir numa velocidade muito acima do normal — tudo depende da faixa ideal de temperatura na qual cada espécie cresce e se desenvolve melhor. "Quando uma onda de calor empurra peixes de águas já quentes para além dessa zona de conforto térmico, a biomassa pode despencar até 43,4%. Em contraste, populações em áreas mais frias tendem a prosperar temporariamente com a elevação das temperaturas, aumentando sua biomassa em até 176%", descreve o estudo. Esse crescimento momentâneo em regiões frias, no entanto, é uma armadilha. Chaikin é enfático ao alertar que o aumento da captura nesses períodos pode levar ao colapso das populações quando as temperaturas voltarem ao normal — ou seja, o setor pesqueiro pode estar colhendo mais justamente quando deveria estar poupando.

Juan David González Trujillo, pesquisador da Universidade Nacional da Colômbia, reforça o ponto central do estudo: "Diferentemente das flutuações climáticas extremas de curto prazo, que podem variar drasticamente, esse aquecimento crônico exerce uma pressão negativa constante sobre as populações de peixes." É uma pressão silenciosa, sem o drama visual de uma enchente ou de um incêndio florestal, mas igualmente — e talvez mais — destrutiva.

Os recordes históricos de emissões e aquecimento dos últimos anos têm feito com que a temperatura dos oceanos também atinja patamares nunca antes observados, e as consequências desse processo podem ser irreversíveis. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, os impactos para os oceanos podem durar milênios — porque projeções climáticas indicam que o aquecimento dos mares continuará por pelo menos o resto do século XXI, mesmo em cenários de baixas emissões de carbono. Em 2024, ano mais quente já registrado, as temperaturas das superfícies dos mares também bateram recordes, e cerca de 10% da superfície marítima global foi afetada por ondas de calor.

Os efeitos do aquecimento não param nos peixes. O terceiro evento global de branqueamento de corais já atingiu 80% dos recifes do planeta de forma moderada ou severa — um número que, dito em voz alta, deveria paralisar qualquer conversa. O branqueamento acontece quando o aumento da temperatura do mar rompe a relação entre os corais e as microalgas que vivem em seus tecidos e fornecem energia. Sem essas microalgas, os corais ficam brancos, enfraquecem e morrem. E sem os corais, colapsa um dos ecossistemas mais ricos e produtivos do planeta, do qual dependem milhares de espécies marinhas — e milhões de pessoas.

foto de peixes e coral no oceano
Oceano vivo: recifes de coral ainda abrigam uma das maiores biodiversidades do planeta, mas 80% deles já sofrem branqueamento moderado ou severo — Foto: Ilustrativa/Freepik

O impacto de tudo isso vai muito além da ecologia. Há comunidades inteiras no planeta que dependem do peixe como principal fonte de proteína. Há economias nacionais estruturadas em torno da pesca. Há culturas milenares que têm no mar sua identidade mais profunda. Quando a biomassa de peixes cai quase 20% ao ano, nada disso fica intocado. E o Brasil, que sediou a COP30 em novembro, em Belém, carrega uma responsabilidade enorme nesse debate — com um litoral de mais de 8 mil quilômetros, uma zona econômica exclusiva imensa e uma dependência histórica dos recursos marinhos em várias regiões costeiras, o país tem muito a perder com a continuidade do aquecimento do oceano e muito a ganhar se assumir de verdade um papel de liderança na agenda de proteção dos ecossistemas aquáticos.

O estudo publicado na Nature Ecology & Evolution não é o primeiro a soar o alarme sobre o colapso silencioso da vida marinha. Mas é, até agora, um dos mais abrangentes e metodologicamente rigorosos a quantificar o efeito específico do aquecimento crônico sobre as populações de peixes. E a mensagem que ele traz é clara: o problema não está chegando. Ele já chegou. E vai piorar enquanto o mundo continuar adiando as decisões mais difíceis sobre emissões, combustíveis fósseis e proteção do oceano. Os peixes não têm voz para pedir socorro. Mas os números falam por eles — alto e em bom som.

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