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Escrito por Neo Mondo | 25 de julho de 2025
"Um bom produto, sozinho, não transforma. Mas um ecossistema de apoio, sim" - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR – CAROLINA DA COSTA
Vivemos um momento de inflexão. As tecnologias que moldam o presente — da inteligência artificial à análise de dados em tempo real — estão transformando radicalmente os modos de produzir, consumir e se relacionar com o trabalho. Mas, em vez de temer essa transformação, acredito que estamos diante de uma enorme oportunidade: usar a tecnologia para construir um futuro mais inclusivo, com novos mercados que integrem mais pessoas à economia e melhorem a vida nas comunidades.
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Esse cenário é um chamado à ação para empresas, governos, investidores e todos que lideram organizações com visão de futuro. O primeiro passo é começar com um entendimento sistêmico dos problemas a resolver: a tecnologia nos provê dados e modelagens para compreender as complexidades e especificidades de variáveis e contextos. Dessa forma, a inovação tem mais chance de gerar soluções assertivas e conectadas às pessoas que pretende servir. Com dados bem estruturados, conseguimos mapear os vazios de oportunidade, reduzir as assimetrias de informação e criar soluções sob medida — de maneira mais rápida, escalável e com menor custo social.
Ao longo da minha trajetória, tenho aprendido que a tecnologia só é inclusiva quando se aproxima da realidade das comunidades. Isso significa compreender sistemicamente os desafios enfrentados por empreendedores periféricos, jovens em busca do primeiro emprego, mulheres chefes de família que conciliam trabalho informal com cuidado doméstico. O ponto de partida é sempre ouvir, mapear, entender. E só então criar (em conjunto).
O Brasil tem hoje mais de 14 milhões de microempreendedores individuais e cerca de 40 milhões de pessoas na informalidade, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Mas ainda faltam capital, informação, capacitação e redes de apoio para quem decide empreender. E é aqui que as empresas com propósito podem fazer a diferença: atuando como facilitadoras do acesso a ferramentas, educação e crédito. Um bom produto, sozinho, não transforma. Mas um ecossistema de apoio, sim — e impacta a economia da comunidade onde está inserido, por meio da geração de empregos e negócios.
Para construir soluções sustentáveis com impacto real, também é necessário método. Isso significa começar em pequena escala, testar hipóteses com base em dados, aprender com agilidade, ajustar rapidamente com base nos aprendizados e escalar o que funciona. A tecnologia entra como aliada nesse processo, viabilizando plataformas, redes e modelagens indutivas a partir de uma base ampla de dados (ex.: machine learning genérico), reduzindo assimetrias de informação e custos de implementação e processamento. Esse movimento viabiliza inovações que atendem a problemas relacionados à geração de renda na base da pirâmide, empregabilidade para jovens, educação financeira em territórios de baixa renda, ou ainda à estruturação de cadeias produtivas que valorizem fornecedores locais.
A tecnologia pode — e deve — ajudar a construir e fortalecer esses elos, tornando a colaboração mais fácil, os custos mais baixos e o acesso mais democrático. O agronegócio brasileiro, por exemplo, mostra como o acesso a crédito e assistência técnica gerou crescimento sustentável em comunidades que passaram a se beneficiar de mais conhecimento e tecnologia, criando um ciclo virtuoso. Essa lógica pode ser aplicada a diversos setores, com foco em novos serviços e na economia criativa, desde que a inclusão seja um pilar estratégico.
Quando bem aplicada, a tecnologia tem o poder de criar pontes. Mas é nossa responsabilidade garantir que elas levem mais pessoas ao centro da economia, do conhecimento e do desenvolvimento. Esse é o nosso desafio coletivo — e também a nossa chance de fazer diferente.

Chief Impact Officer da Stone Co, liderando as frentes de inclusão produtiva na base da pirâmide (microcrédito, blended finance com veículo filantrópico e educação financeira) e integração ESG financeira e institucional. Foi originadora e captadora de fundos para Maua Capital no tema sustentabilidade no agro. Presidente do Comitê ESG do Grupo Boticário. Prêmio profissional do ano em Inovação em Sustentabilidade pela ANEFAC (2021). Conselheira LATAM Solidaridad Network. Conselheira de Desenvolvimento da PUC Rio. Foi diretora de inovação, saúde digital, pesquisa e ensino do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, onde permanece como conselheira estratégica. Ex-VP de Graduação do Insper, atualmente Conselheira do Hub de Inovação e do Comitê de Ensino e Pesquisa e também professora de educação executiva nos temas pensamento crítico e sistêmico.
Administradora pública, M.S. pela EAESP-FGV e University of Texas at Austin, e PhD em Educação e Cognição pela Rutgers University.
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