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Escrito por Neo Mondo | 9 de dezembro de 2025
Petróleo dará "adeus" ao próprio petróleo? Foto: Divulgação
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Lula dá 60 dias para criação do “Mapa do Caminho” da transição energética e anuncia fundo que usará receitas do petróleo para financiar o adeus ao próprio petróleo
O Brasil decidiu enfim fazer aquilo que o presidente Lula cobrou do mundo na COP30: olhar no espelho e construir, com as próprias mãos, o roteiro da sua saída dos combustíveis fósseis. Não apenas um discurso bonito no plenário de Belém, mas um plano real, concreto, com prazo e consequências. Um despacho presidencial, publicado no Diário Oficial, deu 60 dias para quatro ministérios elaborarem o esboço do Mapa do Caminho para uma transição energética justa, planejada e gradativa.
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Parece óbvio, necessário, urgente. E é.
Mas também carrega um paradoxo irresistível — digno de manchete global: o Brasil quer financiar o fim da era fóssil com os recursos que vêm justamente das reservas que sustentam essa era.
Um gesto pragmático? Ou um dilema ético? Talvez um pouco dos dois.
Se em Belém o presidente exigiu que o mundo desse o primeiro passo para abandonar petróleo, gás e carvão, nada mais coerente que começar por aqui. Lula sabe disso — e a sociedade civil também.
“Ter a iniciativa é ótimo, mas o resultado precisa ser bom”, provocou Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.
Ele reforça uma preocupação legítima: usar a transição como desculpa para extrair petróleo “até a última gota” seria trair o propósito.
Por outro lado, fingir que a economia brasileira não depende da cadeia do petróleo — e de seus bilhões em arrecadação — seria negar a realidade.
O Brasil está pisando num terreno movediço, onde urgência climática e política econômica travam uma batalha silenciosa.
A proposta do governo inclui:
É como se o país dissesse: “Vamos usar o lucro do passado para construir o futuro”. Um raciocínio que países emergentes vêm defendendo há anos, sem tanto respaldo dos grandes poluidores históricos.
A secretária de Mudança do Clima e CEO da COP30, Ana Toni, resumiu com precisão:
“O despacho representa um passo concreto e consolida uma estratégia para resolver uma das tensões que travaram o debate: como financiar a saída dos fósseis?”
Ao tornar o assunto prioridade do Conselho Nacional de Política Energética, o governo envia uma mensagem clara: o relógio está correndo.
Marina Silva foi direta:
“É um ato de liderança e responsabilidade histórica... É escolher adensamento tecnológico, oportunidades, respeito ao clima e redução das desigualdades.”
Há nessa fala uma ambição que vai além da transição energética. Trata-se de uma escolha civilizatória:
continuar sendo exportador de matéria-prima ou liderar a economia de baixo carbono?
gerar empregos verdes no país ou importar tecnologias de outros?
proteger florestas ou perpetuar o ciclo extrativo?
O Brasil precisa responder a tudo isso ao mesmo tempo em que financia a resposta.
Mais de 80 países já apoiaram o conceito brasileiro de um roteiro científico para o fim dos fósseis. Mas se o Brasil falhar em sua própria promessa, a contradição será inevitável — e globalmente exposta.
O país que exige coragem climática do mundo precisa demonstrar coragem primeiro em casa.
Afinal, como dizia um certo ex-operário que virou presidente:
“Não basta falar bonito. É preciso fazer.”
E agora não tem mais como fugir: 60 dias já estão passando.

O Brasil será lembrado como:
A nação que usou o petróleo para financiar sua independência do petróleo?
ou
A nação que descobriu o pré-sal, mas demorou demais para descobrir o futuro?
A resposta está sendo escrita agora — com prazo, orçamento e uma dose necessária de coragem política.
Neo Mondo seguirá acompanhando cada passo desse mapa que pode, finalmente, redesenhar o destino energético do país — e o do planeta.
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