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O que 2026 espera

Escrito por Daniel Medeiros | 26 de janeiro de 2026

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2026 para o lugar certo — não como promessa mágica, mas como espelho - Foto: Divulgação

POR - DANIEL MEDEIROS

Os ciclos de tempo só existem porque o universo é indiferente a tudo. Somos um nada diante da vastidão imensurável das coisas. Por isso vamos riscando o tempo que passa por nós, o período do calor e do frio, dos dias e das noites, dos meses que se juntam em anos e décadas para que nossa vida possa ter algum sentido e valia. Ao final de cada um desses ciclos, fazemos um balanço e, sérios, circunspectos, afirmamos ter dado uma contribuição ao mundo. Ou não.

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Tudo isso é teatro. De qualquer forma, representamos nossos papeis com tanto afinco que acabamos por acreditar no cenário, nas luzes, nos comandos do diretor, nos textos de nossos colegas de palco. É o que acontece com as festas de fim de ano, esse dia com um ciclo de 24 horas igual a qualquer outro, quando o planeta faz um giro completo em torno do seu eixo. Fossemos venusianos, isso levaria 243 dias nossos. Mas estamos aqui, esse é nosso ponto de força gravitacional, que nos mantém agarrados a essa superfície enquanto o centro da Terra nos deseja junto a ele e o Sol também, e a Lua, e vamos nos equilibrando em um precário mas eficiente jogo de forças invisíveis. Sem que percebamos. Tanto que acreditamos que estamos aqui porque queremos estar.

E as festas de fim de ano parecem, de alguma maneira, ter o poder de reverter algumas dessas certezas geofísicas, por isso apostamos tanto em um ano novo sempre “diferente”. Nunca estamos satisfeitos. Poucos são os que apenas agradecem. Sempre há um pedido a ser feito. O planeta , se ouvisse, ficaria tonto com tantas solicitações. Somos insaciáveis em nossa carência e em nossa vontade de plenitude. E concentramos boa parte dessas esperanças nesse giro específico do planeta. Daí passa o dia, o outro inicia, indiferente a qualquer coisa que não às forças que o movem, e lá vamos nós de novo, nessa ladeira sem corrimão que é a vida contemporânea. Mas a esperança de que algo será diferente não arrefece.

Agora, imaginemos por um minuto a seguinte questão: e o que 2026 esperaria de nós? Vamos dar corpo e mente ao ano que começa, vamos dar uma alma provisória a ele, um sentido de passado/presente/futuro, uma consciência de envelhecimento, um pacote neurológico para que sinta receio pela manutenção de sua existência, além de memória de amigos, parentes, afetos. Será que 2026 estaria se sentindo bem em relação ao que vai acontecer ao longo dos seus dias cercado de gente como nós? Somos confiáveis para que 2026 possa ter segurança de que terminará íntegro, próspero, saudável, repleto de boas experiências? Ou o ano corre o risco de ser terrível porque não somos bons companheiros em nossa sanha de olhar pro nosso próprio umbigo, como se ali estivesse depositado toda a força gravitacional em torno da qual o mundo e todos os outros seres devem girar? Será que é confiável para o ano de 2026 ir assim se desdobrando em meses, como pétalas de uma flor madura, em meio ao campo minado que cultivamos com nossa avidez, ambição, egoísmo e falta de empatia?

Os ciclos de tempo só existem porque o universo é indiferente a tudo. Por isso 2026 é só uma ficção para nos dar uma referência da passagem do nosso tempo por aqui, para saber se deixamos a adolescência, se já é hora de ter filhos, se estamos ou não atrasados em relação aos nossos planos de sucesso e fortuna. Mas não era para sermos indiferentes ao mundo, já que é o lugar que nos mantém com a cabeça para a cima e o sangue circulando constantemente. Não era para sermos indiferentes ao ar, aos rios, às montanhas, aos outros animais, ao nosso alimento, nossa água, nosso clima. Mas somos.

O universo não vai perceber se, algum dia, nesse minúsculo planeta perdido nesse sistema, em meio a uma galáxia entre bilhões de outras galáxias, ninguém mais contar o tempo e não houver mais festa para comemorar 2050, 2070, sei lá. A gravidade não deixara de atrair tudo para o seu centro, nem o sol deixará de atrair a terra e a lua e a lua atrair a terra e a terra atrair a lua e etcetera. Nada mudará. Os anos não terão mais serventia e sumirão na enormidade do tempo do universo, pois não haverá mais ninguém para inventa-los e torcer para que eles sejam perfeitos.

Talvez seja a consciência disso que 2026 espera de nós.

Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo O que 2026 espera
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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