COLUNISTAS Destaques Saúde Segurança Sustentabilidade

Uma reflexão natalina

Escrito por Daniel Medeiros | 22 de dezembro de 2025

Compartilhe:

Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - DANIEL MEDEIROS

Está em Mateus ( e em Lucas também e acho que até em Marcos) a famosa passagem na qual Jesus dá um puxão de orelhas nos discípulos que tentavam impedir que crianças levadas pelos pais se aproximassem do Mestre para serem abençoadas: "Deixem vir a mim as criancinhas e não as impeçam, pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas".

Leia também: Tentativa de golpe

Leia também: Desculpem-me, mas escolho não odiar

Percebe-se nesta frase que, como tudo o que Jesus falou, há sempre uma margem de interpretação. Isto é, não podemos nos prender ao significado das coisas ditas, mas perseguir o seu sentido. Afinal, o que é ser "semelhante" a uma criança para poder pertencer ao Reino dos Céus?

Uma primeira possibilidade é a inocência, um coração puro de pecados. Possível. Confortável. Palpável. Afinal, sempre associamos as crianças a este estado desprovido de ambições e veleidades, a um mundo verdadeiro, onde não há mentira ou futricas para enredar os outros ou querer obter vantagens escusas. Mas será assim o mundo das crianças?  E se não for isso ou somente isso a que se referia Jesus?

Uma outra leitura possível é pensar essa "semelhança" associada à capacidade das crianças de aceitar o destino sem grandes questionamentos. Ou, como dirá, muitos séculos depois, o filósofo alemão ( e anticristão) Nietzsche, a capacidade de aprender a dizer sim à vida, como ele se refere, por exemplo, em seu livro Crepúsculo dos Ídolos: "o dizer sim à vida, até mesmo em seus problemas mais estranhos e mais difíceis, a vontade de vida que se regozija em sua própria inesgotabilidade" . Assim, somente quem aprende a aceitar a vida e seus desafios de coração aberto e sem ódios ou ressentimentos pode merecer o Reino dos Céus. Parece bom, não? Mas, terá sido isso o que quis dizer Jesus na famosa passagem bíblica?

Há uma outra possibilidade de interpretação, e ele mesmo dá uma pista, em Marco, quando os discípulos discutiam sobre quem deveria ser o “maior”. Jesus então pega uma criança, coloca-a no meio do grupo e diz:  "Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos”. Ou seja, para Jesus, o Reino dos Céus está aberto para os frágeis e para aqueles que cuidam deles, para aqueles que se preocupam com os que não têm proteção. Para esses, os frágeis, e os que acolhem e protegem, está franqueada a Salvação.

As crianças , como uma etapa de nossa existência, têm em si a marca da incompletude e, portanto, da fragilidade diante das intempéries da existência. A mensagem de Jesus era para os adultos, para seus discípulos, que batiam cabeça para entender seus desígnios e Ele insistia em não ser totalmente claro para que fosse possível a cada um de seus seguidores poder incorporar à mensagem sua própria assinatura. Ou seja, Jesus deixava marcas no caminho mas sem revelar claramente para onde ia. Cabia a quem o ouvisse e o entendesse pegar a vereda certa. Ou não. Por isso, hoje, é possível testemunharmos inúmeros cristãos que odeiam, que discriminam, que repudiam, que negam ajuda, como , por exemplo, dar comida aos necessitados das ruas das cidades. Mesmo assim vão às igrejas e oram e elevam as mãos aos Céus, rogando pela benevolência do Senhor para aceitá-los ao seu lado. Caminho certo?

A mensagem, penso eu ( que nem sou cristão, portanto não sou elegível na disputa dessa pulseirinha), parece clara: o Reino dos Céus pertence a quem é semelhante às crianças, no seu espírito de inocência dos males, mas também da aceitação de seu destino - amor fati - e, principalmente, no seu desamparo, que exige a mão amiga e acolhedora para superar sua fragilidade, sem questionar as razões de sua miséria, mas buscando, incessantemente, amparar e proteger, fazê-los estar entre, como irmãos.

Acho que o Céu é uma grande confraria. Imagino Jesus na entrada, sorrindo e dizendo: então, decifras-te a senha, heim?

Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo Uma reflexão natalina
Daniel Medeiros, autor do artigo ""Tentativa de golpe""Uma reflexão natalina" - Foto: Divulgação

Compartilhe:


Artigos anteriores:

Mulheres que curam: ciência, pele e liderança sustentável

A beleza que cabe numa mão

A insuficiência das palavras


Artigos relacionados