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Petrobras compra solar da BP. E agora, vai virar o jogo — ou só trocar o figurino?

Escrito por Neo Mondo | 23 de dezembro de 2025

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A Petrobras entrou, enfim, no jogo da energia solar ao comprar participação no Complexo Solar Milagres, no Ceará - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

A estatal entra no Complexo Solar Milagres, no Ceará, em parceria com a LightSource bp. O movimento é simbólico, tardio e cheio de perguntas incômodas sobre o ritmo real da transição energética no Brasil

Durante anos, sempre que alguém perguntava à Petrobras quando ela pisaria de verdade no território das energias renováveis, a resposta vinha em forma de discurso: compromisso com a transição, estudos em andamento, projetos-piloto, futuro estratégico. O futuro, aliás, nunca chegava.

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Agora chegou — mas chegou devagar. Quase de mansinho. E, claro, levantando a sobrancelha de quem acompanha o tema há tempo.

A Petrobras anunciou a compra de 49,99% da subsidiária brasileira da LightSource, braço de renováveis da BP, passando a deter quase metade do Complexo Solar Milagres, em operação em Abaiara, no Ceará. Capacidade instalada: 212 megawatts-pico (MWp). Valor do negócio: segredo de Estado. Literalmente.

A pergunta que ecoa não é se é bom — é. A pergunta é: isso muda alguma coisa de verdade?

Um passo solar depois de um freio verde

O timing chama atenção. Pouco antes do anúncio, a Petrobras havia cortado em 20% sua previsão de investimentos em transição energética até 2030. A tesoura passou justo onde o discurso costumava ser mais ambicioso.

E então, quase como um plot twist corporativo, surge a joint venture com a LightSource bp, empresa que desenvolve, financia e opera projetos solares em mais de uma dúzia de países — e que já olha com carinho para o armazenamento em baterias em larga escala.

No Brasil, além de Milagres, a LightSource tem projetos em desenvolvimento que somam entre 1 e 1,5 gigawatts-pico (GWp). No papel, é energia limpa suficiente para animar qualquer apresentação de PowerPoint. Na prática, ainda é promessa.

A conta que não fecha (ou fecha mal)

Vamos aos números — porque eles sempre contam histórias mais sinceras do que os comunicados oficiais.

Somando:

  • a participação da Petrobras no Complexo Solar Milagres,
  • os projetos da LightSource bp que talvez saiam do papel,
  • e as plantas solares previstas para refinarias até 2027,

a estatal chegaria a aproximadamente 910 MWp de capacidade renovável instalada.

Agora, respira fundo:
isso representa menos de 20% do parque gerador atual da Petrobras, hoje com 5.300 MW, majoritariamente movidos a combustíveis fósseis.

Ou seja: o sol entrou pela janela, mas o petróleo ainda ocupa a sala inteira.

Greenwashing ou green timing?

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, já havia avisado que faria, até o fim do ano, um anúncio que “não seria greenwashing”. Tecnicamente, ela tem razão. Comprar uma usina solar em operação, com geração real, não é maquiagem.

Mas também não é revolução.

O Complexo Solar Milagres é considerado pequeno pelos padrões do mercado. Não inaugura uma nova escala, não altera estruturalmente o portfólio da empresa, não cria um sinal claro de que o centro de gravidade da Petrobras está, de fato, mudando.

É mais um gesto político-energético do que um reposicionamento estratégico profundo.

A ironia do nome: Milagres não fazem transição

Existe algo quase poético — ou cruel — no nome Milagres. Porque, sejamos honestos: milagre nenhum vai resolver a transição energética brasileira se ela continuar sendo feita em ritmo de piloto automático.

A Petrobras sabe operar em escala. Sabe investir pesado. Sabe liderar cadeias produtivas inteiras. Quando quer, faz história. Foi assim com o pré-sal. Poderia ser assim com renováveis.

Mas, por enquanto, o que se vê é uma estatal que:

  • ainda depende fortemente do caixa do petróleo,
  • ainda investe mais em exploração fóssil do que em futuro limpo,
  • e ainda trata renováveis como apêndice — não como eixo.
O ângulo que incomoda (e precisa ser dito)

Talvez o ponto mais desconfortável dessa história seja este:
não falta dinheiro, tecnologia nem sol ao Brasil. Falta decisão.

A Petrobras tem condições únicas de liderar uma transição energética tropical, justa, integrada e em escala continental. Mas, ao optar por passos tímidos, corre o risco de virar seguidora num jogo que poderia comandar.

Enquanto isso, outras petroleiras globais testam modelos híbridos, aceleram investimentos em baterias, hidrogênio verde e redes inteligentes — errando, aprendendo, mas se movendo.

Aqui, seguimos comemorando cada 200 MWp como se fosse uma virada histórica.

foto de plataforma de petróleo da petrobras
Foto: Ilustrativa/Freepik
No fim das contas…

A entrada da Petrobras no Complexo Solar Milagres é boa notícia. Melhor do que nada. Melhor do que discurso vazio. Melhor do que promessas eternas.

Mas também é um lembrete incômodo:
a transição energética não acontece por anúncios pontuais, e sim por estratégia contínua, escala e coragem política.

O sol do Ceará brilha forte. A pergunta é se a Petrobras vai deixar que ele ilumine o caminho — ou apenas aqueça o marketing.

E você, leitor, o que acha:
estamos vendo o início de uma virada real ou só mais um capítulo de espera bem ensolarada?

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