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Escrito por Neo Mondo | 13 de janeiro de 2026
A disputa pelo petróleo venezuelano expõe o choque entre geopolítica fóssil e o futuro climático - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
Por - Oscar Lopes*, publisher de Neo Mondo
Quando o passado fóssil dita a geopolítica do presente — e sequestra o futuro climático
Há algo de profundamente simbólico — e inquietante — na forma como o petróleo venezuelano voltou ao centro do tabuleiro geopolítico. Não se trata apenas de barris, refinarias ou contratos. Trata-se de um choque entre dois tempos históricos: o mundo que insiste em girar em torno dos combustíveis fósseis e o mundo que tenta, ainda com dificuldade, sair deles.
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Na retórica recente de Donald Trump, a Venezuela não aparece como nação soberana, mas como um “ativo perdido”. Segundo ele, o país teria “roubado” dos Estados Unidos uma indústria que, em sua visão, foi construída por empresas americanas como ExxonMobil e ConocoPhillips, expropriadas durante o governo Hugo Chávez. Democracia, direitos humanos ou estabilidade regional ficam em segundo plano. O centro da conversa é velho conhecido: petróleo, petróleo, petróleo.
Aqui entra um detalhe técnico que ajuda a explicar o interesse quase obsessivo de Washington: apesar de serem grandes produtores de petróleo, os Estados Unidos não extraem, em volume suficiente, o petróleo pesado e viscoso que muitas de suas refinarias — sobretudo no Golfo do México — foram projetadas para processar. Esse tipo de óleo vem, historicamente, da Venezuela, dona das maiores reservas globais de petróleo pesado.
O problema é que essa dependência técnica virou dependência política. Em vez de acelerar a adaptação das refinarias ou investir de forma consistente em alternativas limpas, parte da política externa americana prefere dobrar a aposta no passado.
Para Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia Group, essa escolha tem custo alto. Ao preterir a transição energética, os EUA acabam adotando uma política externa mais unilateral, menos coordenada com aliados e guiada por impulsos de curto prazo. Não à toa, o relatório de riscos globais da Eurasia para 2026 coloca o próprio comportamento americano como uma das maiores ameaças à ordem internacional.
É um paradoxo difícil de ignorar: o país que ajudou a liderar a agenda climática em outras fases agora trata a transição energética como ativismo “woke”, enquanto mobiliza sanções, pressão diplomática e até força militar para garantir acesso a combustíveis fósseis.
Do outro lado do tabuleiro, a China parece jogar uma partida diferente — e mais alinhada com o futuro. O país lidera a expansão global de energia solar e eólica, avança rapidamente na eletrificação do transporte e já dá sinais claros de que pode estar próximo do pico de consumo de petróleo.
Em 2025, mais da metade dos veículos elétricos vendidos no mundo foi comprada na China. No mesmo período, o país acelerou a instalação de centenas de gigawatts em energias renováveis. O resultado é simples e desconcertante: Pequim não precisa do petróleo venezuelano tanto quanto Washington — mas a economia da Venezuela ainda precisa da China.
Exigir que Caracas rompa laços com chineses, russos, iranianos ou cubanos e venda seu petróleo exclusivamente aos EUA soa menos como diplomacia e mais como tentativa de congelar o mundo em 2005.
No fim das contas, esse embate não é abstrato. Ele tem rosto, território e consequências concretas. Perde o povo venezuelano, preso a uma economia hiperdependente de fósseis, vulnerável às oscilações de preços internacionais, à concentração de renda e aos impactos das mudanças climáticas. Perde também a sociedade americana, que vê o desmonte de políticas climáticas, o enfraquecimento do multilateralismo e o isolamento em fóruns globais justamente quando cooperação é mais necessária.
E perde o planeta. Cada novo investimento em petróleo e cada conflito associado a ele empurra para mais longe agendas essenciais, como o mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis e a meta — já tão frágil — de limitar o aquecimento global a 1,5°C.
Talvez o ponto mais incômodo dessa história seja perceber que o petróleo venezuelano virou uma espécie de âncora moral e estratégica. Ele puxa a política internacional para trás no momento exato em que o mundo precisaria acelerar. Não é apenas uma disputa por energia; é uma disputa sobre qual século queremos habitar.
A transição energética não fracassa por falta de tecnologia. Ela tropeça quando o poder insiste em proteger ativos do passado, mesmo sabendo que eles não cabem mais no futuro. E, nesse jogo, insistir em controlar o petróleo da Venezuela pode até render ganhos táticos no curto prazo — mas cobra um preço alto demais no longo.
Talvez seja hora de admitir: não há segurança energética possível em um mundo climaticamente instável. E não há liderança global legítima quando o retrovisor pesa mais que o horizonte.
*Com informações do Climainfo.
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