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Por que não conseguimos ter um projeto para o Brasil?

Escrito por Neo Mondo | 30 de junho de 2025

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Brasil: as contradições de uma sociedade que naturalizou o abismo social - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

ARTIGO

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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo

“Esse é um país que vai pra frente”, dizia o slogan do regime militar, propagandeando o crescimento do PIB enquanto os agentes da repressão amassavam os críticos nos porões das delegacias e dos quartéis. A vitória da seleção canarinho em 1970 ajudou a embalar a ideia de que, se abandonássemos nossas diferenças e abraçássemos o projeto de Brasil Potência, todos iríamos nos beneficiar. “Primeiro, fazemos o bolo crescer; depois, repartimos o bolo”, dizia o czar da economia da época, o ministro Delfim Netto.

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O fato é que, com a crise do petróleo e a miopia do governo Geisel — que insistiu em uma política de investimentos em grandes e caríssimas obras, quando já não havia mais recursos fáceis à disposição — o bolo embatumou, e o que herdamos dos governos militares foi a “década perdida”, como os anos oitenta ficaram conhecidos. Quem ganhou, ganhou. E muita gente ganhou. Quem perdeu, ficou chupando o dedo, com a inflação corroendo seus salários, ao mesmo tempo que engordava os ganhos dos que juntaram os pedaços que sobraram do bolo prometido e os aplicaram em lucrativas aplicações bancárias.

A parte do país que só esperava percebeu que teria de se virar por conta própria para ver alguma sombra do bolo, e então vieram os movimentos sindicais e a organização partidária dos trabalhadores. O país agora tinha duas faces: uma galera empobrecida em busca de reparação, e outra parte preocupada porque sabia que aquilo que a primeira reivindicava estava guardado em suas contas bancárias.

No meio desse cabo de guerra, havia uma classe média que se beneficiou com os créditos baratos do início dos anos 70 e com a oferta de empregos da indústria para profissionais qualificados, mas que agora começava a sofrer com o aumento dos impostos e com a inflação de um governo à deriva, sem plano B, após o fracasso da sua política econômica. Essa classe média teve então que escolher um lado na disputa entre pobres e ricos e decidir qual projeto de país mais se parecia com seu modo de viver: o de um país de bem-estar, com forte tributação sobre os ganhos e políticas de distribuição de renda; ou o país da “meritocracia”, onde quem não chora não mama e quem pode, se estabelece — quem não pode, busca outro lugar. Preferiu o segundo modelo de país. Resolveu que os “responsáveis” pela crise eram justamente as vítimas da concentração de renda.

O primeiro embate desses dois projetos de país ocorreu nas eleições de 1990. De um lado, o metalúrgico radical que prometia rever as políticas geradoras de concentração de renda de um lado, e de miséria e pobreza do outro; do outro, o flautista de Hamelin, que acusava a corrupção e os salários dos funcionários públicos — os marajás — como responsáveis pela queda da qualidade de vida da classe média. Ou seja: um projeto prometia a reestruturação da divisão de riquezas do país para diminuir as brutais desigualdades que sempre marcaram nossa história. A classe média — como já lembrava Étienne de La Boétie no século XVI —, que servia aos poderosos na esperança de um dia receber algum privilégio deles, achou esse projeto muito perigoso, radical. Preferiu o outro, que parecia mais palatável, pois identificava um “inimigo" com o qual ela não aceitava se parecer e que, portanto, podia ser eliminado. Ganhou o projeto do caçador de marajás. Em dois anos, revelou-se que ele próprio era um corrupto — mas aí é outra história, sem importância.

Hoje, vivemos uma situação que é o desfecho inevitável dessa trajetória: a classe média acredita que foi prejudicada nos últimos 20 anos por causa das políticas de distribuição de renda que buscaram resgatar um naco das dívidas históricas com as populações exploradas do país. Não são os super-ricos os culpados de nada. Pelo contrário, são cada vez mais admirados — a ponto de não buscarem ser mais discretos, mas sim debocharem da pobreza, que, em sua visão, travestiu-se de incompetência pessoal. O comediante da moda, inclusive, é especialista em encher plateias para rir dos desvalidos — como se não bastasse a condição deles no mundo real. Agora, no mundo simbólico, eles também devem servir para a catarse cômica da classe média.

Mas o mais curioso não é apenas o fato de a classe média se sentir a grande vítima dos últimos vinte anos, mas de acreditar que os benefícios alcançados nesse período não foram merecidos, porque os pobres “não fizeram nada para conquistá-los”. Daí a defesa de políticas que diminuam esses direitos, que eliminem essas diretrizes. É emblemático quando um ex-presidente declara, orgulhoso, ter eliminado as taxas de importação para a compra de jetskis — enquanto as tentativas de aumentar o IOF para garantir a continuidade das políticas sociais do atual governo são barradas no Congresso.

O que inviabiliza um projeto para o Brasil é o ressentimento dos que ganham muito — e dos que ganham um pouco — em relação aos que ganham pouco ou quase nada. Numa inversão paradoxal, os primeiros sentem-se as vítimas, e os segundos, os “privilegiados”. E essa “desigualdade" precisa acabar, afirmam eles. Como lembrou recentemente um grande empresário: “O brasileiro está viciado no Bolsa Família, por isso é difícil contratar no Brasil”. A fortuna estimada do empresário é de mais de 150 bilhões de reais. O valor individual máximo pago pelo Bolsa Família não passa dos 600 reais. O salário mínimo no Brasil é de pouco mais de 1.200 reais.

É realmente muito injusto tudo isso.

*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo Por que não conseguimos ter um projeto para o Brasil?
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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