Destaques Economia e Negócios Emergência Climática FINANÇAS Meio Ambiente Política Saúde Segurança Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 3 de março de 2026
Estados Unidos no centro da fratura: quando a maior economia do planeta pisa fora do acordo climático, o sistema inteiro racha junto - Foto: Divulgação
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Os Estados Unidos retiraram mais de 7 bilhões de dólares por ano do financiamento climático global. A Europa recuou. E o mundo tenta fechar uma conta que ninguém quer pagar
Há um exercício que diplomatas climáticos fazem com alguma regularidade, especialmente nos meses que se seguem a uma grande conferência: somam o que foi prometido e subtraem o que está sendo efetivamente entregue. Em março de 2026, esse cálculo ficou mais difícil — e o resultado, mais sombrio. Os Estados Unidos saíram. Parte da Europa recuou. E o mundo está tentando descobrir como fechar uma conta de 300 bilhões de dólares por ano com um buraco de geometria crescente onde costumava ficar o maior financiador do planeta.
Leia também: A água entrou na zona de risco — e o mercado ainda subestima
Leia também: Minerais críticos redesenham o mapa de poder da transição energética
A saída americana do financiamento climático global não aconteceu de uma vez. Foi um desmonte em camadas, executado ao longo de 2025 com uma velocidade que surpreendeu até os analistas mais pessimistas. No primeiro dia do segundo mandato de Donald Trump, um decreto executivo congelou toda a ajuda externa norte-americana. A USAID — agência que durante décadas foi o maior doador bilateral do mundo, presente em 130 países — recebeu ordens de parar tudo. Contratos foram cancelados. Sites foram tirados do ar. Funcionários foram bloqueados de seus e-mails. Elon Musk, à frente do chamado Departamento de Eficiência Governamental, declarou que a agência era "uma organização criminosa" e que era hora de matá-la.
Para o clima, o impacto foi imediato. A USAID respondia por cerca de um terço do financiamento climático americano, tendo chegado a quase 3 bilhões de dólares em 2023 — parte integrante do compromisso de 11,3 bilhões anuais assumido pela gestão Biden. Além disso, o governo Trump cancelou os 4 bilhões de dólares que os Estados Unidos deviam ao Fundo Verde para o Clima, mecanismo da ONU destinado a ajudar países em desenvolvimento a reduzir emissões e se adaptar aos impactos climáticos. O total retirado de circulação, apenas em compromisos formais, ultrapassa 7 bilhões de dólares por ano.
Os Estados Unidos eram, até o fim de 2024, o quarto maior provedor de financiamento climático internacional do mundo — mas também a maior economia do planeta e o país histórica e cumulativamente mais responsável pelas emissões de gases de efeito estufa. A combinação desses dois fatos faz da retirada americana algo qualitativamente diferente de qualquer corte anterior: não é só o dinheiro que some. É a legitimidade moral de um acordo que sempre dependeu, em última instância, da disposição das nações ricas em compensar aquelas que menos causaram o problema e mais sofrem suas consequências.
O buraco que os americanos deixaram caiu num momento particularmente delicado: o de implementar a meta acordada em Baku, no Azerbaijão, durante a COP29, em novembro de 2024. Ali, os países ricos prometeram mobilizar pelo menos 300 bilhões de dólares por ano até 2035 para os países em desenvolvimento enfrentarem a crise climática. A meta foi imediatamente criticada pelos países mais vulneráveis, que a chamaram de insuficiente — especialistas calculavam que a necessidade real estava mais próxima de 1,3 trilhão de dólares anuais. Mas mesmo os 300 bilhões prometidos em Baku nunca chegaram a estar integralmente financiados. Com a saída americana, o que já era um compromisso frágil tornou-se, na prática, uma promessa sem lastro.
A COP30, realizada em Belém em novembro de 2025, tentou remediar essa equação. O resultado foi uma mistura de avanços pontuais e promessas adiadas. No lado positivo: os países reafirmaram o compromisso de triplicar o financiamento para adaptação climática até 2035, chegando a 120 bilhões de dólares anuais — embora cinco anos depois do prazo original de 2030. A Facilidade Tropical Forever, mecanismo para remunerar países por conservar florestas tropicais, recebeu 6,5 bilhões em pledges de sete governos, incluindo Noruega, Alemanha, Holanda e o próprio Brasil. No lado negativo: o Roadmap de Baku a Belém, documento que deveria traçar o caminho dos 300 bilhões aos 1,3 trilhão, foi apenas "notado" nos textos finais — uma linguagem diplomática que, na prática, significa que foi deixado de lado. E sem os EUA na sala, a pressão sobre China e petroestados para assumirem mais responsabilidade simplesmente não existiu.
A Europa, que deveria ser a âncora do financiamento climático após a saída americana, não ofereceu o contra-peso esperado. A Alemanha, historicamente o maior doador europeu, enfrenta uma crise orçamentária que impôs cortes em programas de ajuda externa. O Reino Unido, que em Baku havia assinado a meta de 300 bilhões, começou 2026 revisando seus compromissos de financiamento climático internacional, com um porta-voz do governo descrevendo a estratégia como uma busca por "maior impacto" a cada libra investida — linguagem que, para diplomatas experientes, é sinal claro de redução de recursos. A queda global da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento registrou recuo de 17% em 2024. Nunca, desde a criação dos compromissos climáticos internacionais, tantos doadores tradicionais recuaram ao mesmo tempo.
A conferência de Sevilha, em julho de 2025 — a 4ª Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, a FfD4 —, produziu o que ficou conhecido como o Compromisso de Sevilha. Cento e trinta iniciativas, mesas redondas, declarações de boa vontade. Para a América Latina e o Caribe, o diagnóstico que emergiu dos corredores foi preocupante: a região navega numa convergência de choques climáticos, pressão da dívida, desigualdade persistente e queda acentuada da ajuda externa. A UNDP documentou que os países da região precisarão, cada vez mais, mobilizar recursos domésticos e buscar instrumentos de financiamento inovadores — títulos temáticos, blended finance, plataformas de investimento — para compensar a retração dos doadores tradicionais.
Para o Brasil, a questão tem dimensões específicas e contraditórias. Como anfitrião da COP30 e autoproclamado guardião da floresta, o país assume um papel de liderança moral que não vem acompanhado de capacidade de substituir, sequer parcialmente, o financiamento que os Estados Unidos retiraram. O Brasil pode apresentar a Amazônia como ativo climático global — e de fato tem feito isso com habilidade diplomática — mas não tem o balanço fiscal para se tornar um doador relevante. O que o país pode fazer, e tem tentado, é pressionar para que os bancos multilaterais de desenvolvimento expandam suas janelas concessionais, que o Banco Mundial e o BID reformem seus modelos de gestão de risco para aceitar projetos em países emergentes e que as taxas de solidariedade internacionais — sobre combustíveis de aviação, transações financeiras, extração de combustíveis fósseis — saiam do papel.
Há uma tensão estrutural que o momento torna visível. O sistema internacional de financiamento climático foi construído sobre uma premissa: os países que se industrializaram à custa do carbono pagariam para que os países que chegaram depois ao desenvolvimento não precisassem percorrer o mesmo caminho sujo. Essa premissa sempre foi mais frágil do que parecia. A saída americana não criou o problema — ela tornou impossível fingir que o problema não existe. O que o mundo está descobrindo agora, nos meses que seguem a COP30, é que o seguro climático coletivo que a humanidade tentou construir ao longo de trinta anos de negociações só funciona quando os prêmios são pagos. E cada vez menos gente está pagando.
Mulheres que curam: ciência, pele e liderança sustentável
O Brasil quer liderar a bioeconomia global. Mas ainda não sabe o que ela é
Mudanças climáticas encurtam o período de floração e frutificação de espécies do Cerrado