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Escrito por Neo Mondo | 23 de maio de 2026
A síndrome que ameaça as florestas não começa com a queda das árvores, mas com o desaparecimento da vida que as sustenta - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
ARTIGO
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Por - Frineia Rezende, especial para Neo Mondo
A biodiversidade como fronteira para a sobrevivência humana
Terminologias como Floresta em Pé e Floresta Viva ganharam espaço e até viraram nome de projetos e fundos, principalmente na última década. No entanto, os dados sobre perda da biodiversidade são basicamente… desesperadores.
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No início deste ano, a Science publicou uma matéria intitulada “Melodias que se desvanecem - As florestas tropicais intactas estão registando um misterioso declínio na população de aves. Estarão se preparando para outra «primavera silenciosa»?” Nessa matéria, o autor traz diversos exemplos de pesquisadores que afirmam que espécies, que sempre foram frequentes na mata, não são mais ouvidas na mesma frequência - muito menos visualizadas.
Para termos uma visão mais ampla sobre a perda da biodiversidade: um estudo de longo prazo, que se estendeu de 1977 a 2020, realizado no Panamá, e publicado na PNAS em 2022, indicou que cerca de 70% das espécies de aves de sub-bosque declinaram (!!!). Pior, muitas dessas espécies tiveram suas populações reduzidas pela metade, mesmo que a floresta tenha se mantido relativamente intacta.
- Ops… péra. Você disse que a floresta estava intacta?
Relativamente. Mas ainda assim…sim.
Outro estudo de longo prazo, publicado na Science Advances no ano passado, indicou que as mudanças climáticas foram o fator mais relevante no impacto sobre a aparente sobrevivência em 24 de 29 espécies de aves amazónicas estudadas, graças aos efeitos de estações secas mais severas.
E aqui estamos falando de aves e mamíferos - que são mais fáceis de serem visualizados ou capturados por armadilhas fotográficas.
Um estudo de 2016, publicado na Nature, revelou que as bacias hidrográficas estudadas (que ainda mantinham de 69 a 80% de cobertura florestal) perderam mais valor de conservação devido à perturbação do que à perda florestal em si. Por exemplo, uma perda de 20% de floresta primária - o nível máximo de desmatamento permitido em propriedades amazônicas de acordo com o Código Florestal - resultou em uma perda de 39 a 54% do valor de conservação, 96 a 171% a mais do que o esperado sem considerar os efeitos da própria perturbação.
Outro estudo, publicado na Nature Communication em 2019, utilizou meta-análise demonstrando que a defaunação (clara diminuição da fauna) causada por caça e fragmentação, reduz a regeneração florestal, sobretudo por afetar dispersão de sementes.
- Então, se conseguirmos proteger aves, macacos e outros bichinhos fofos, tá tudo certo!
Não somente bichinhos que a maioria acha fofinho. Morcegos, são importantíssimos na dispersão de sementes também.
- Credo! Morcego é tudo vampiro!
Não, não são. São importantes indicadores ambientais, aliás. Oficialmente, existem 1.511 espécies de morcegos no mundo. Cerca de 1000 são insetívoras; ou seja, ajudam a controlar as populações de diversas espécies de mosquitos, e outros insetos. Tem até espécies polinizadoras.
Cerca de 350 são frugívoras e 67 são nectarívoras, dispersam e polinizam diversas espécies. Os famosos baobas africanos, por exemplo, são dependentes de morcegos para sua polinização. A sumaúma e algumas espécies d angico, que são árvores lenhosas presentes nas florestas brasileiras, também. Só três (3) espécies de morcego - isso mesmo, três - são hematófagas (se alimentam de sangue). Mas as outras 1.508 espécies levam a mesma fama de mau.
Ainda segundo o estudo de meta-análise “… 41% das populações de espécies de vertebrados das florestas tropicais monitorizadas (n = 369) diminuíram entre 1970 e 2012. Esta «defaunação» dos vertebrados afeta particularmente as espécies de maior porte, uma vez que estas são facilmente alvo de caça para fins alimentares e são vulneráveis tanto do ponto de vista ecológico como demográfico. Como resultado, existem agora muitas «florestas vazias» em todo o mundo, que estão essencialmente desprovidas de mamíferos de grande e médio porte.”
Para além da dispersão de sementes feita for aves, mamíferos de médio e grande porte, esses animais são tão relevantes quanto em se tratando de sementes de frutas de árvores lenhosas. Aqui no Brasil, por exemplo, a depender da localidade, duas espécies possuem o “apelido” de jardineiro da floresta: anta e muriqui. Mas todas as espécies vertebradas herbívoras e onívoras merecem esse apelido em maior ou menor grau.
Temos ainda os invertebrados. Entre esses, os insetos.
- Ah não… não vai me dizer que barata é importante…
Pior é que são. Mas não podemos considerar aqui as baratas em ambientes urbanos - isso é puro desequilíbrio. Borboletas, moscas, abelhas, vespas, besouros, formigas…. Só para mencionar os básicos, todos esses insetos podem ter função polinizadora e garantir, por exemplo, que flores, com as do açai, sejam polinizadas.
- Mosca? Fala sério!
Você só come chocolate porque moscas polinizam a flor do cacau! A Forcipomyia spp, por exemplo, é o gênero do principal grupo polinizador do cacau. Além disso, macacos; como os bugios, e roedores; como as cutias e ratos silvestres, são responsáveis pela dispersão das sementes e garantem que novos pés de cacau cresçam naturalmente na floresta.
Ou seja, a fauna contribui para todas as funções ecológicas promovidas pelas florestas, e por consequência para algo bem importante, para além da floresta em si: a segurança alimentar, tanto dos povos da floresta quanto das populações urbanas.
A floresta vazia, sem fauna, é uma floresta prestes a morrer.
- Nossa! Mas que dramático…. Eu, heim.
Vamos lá. O que está em jogo é que mesmo que se mantenha a floresta em pé, se não houver fauna, a flora por si não sobrevive no longo prazo. Em 1992, o biólogo Kent Redford cunhou o termo «Síndrome da Floresta Vazia», para descrever como áreas verdes podem se tornar "fantasmas ecológicos”. E é justamente o que estamos vendo, com intensidade maior a cada ano.
O monitoramento de perda de cobertura florestal é importante e, de fato, traz dados relevantes sobre a perda da paisagem, mas nem sempre isso se reflete de fato em entender a perda da biodiversidade com profundidade. Não à toa, há tantos exemplos de estudos evidenciando que florestas, mesmo “intactas”, estão perdendo biodiversidade faunística.
Programas de conservação e de restauração são relevantes - até projetos de carbono atrelados à agrofloresta são contribuintes desde que desenhados levando questões ecológicas em conta de maneira séria - e não apenas cálculos de sequestro de carbono e adicionalidades superficiais.
Além disso, é preciso divulgar mais, e melhor (de maneira que o público comum entenda) os dados relativos a perdas significativas da fauna - que diretamente colabora para à saude das florestas - de todo ecossistema natural, na verdade.
É importante lembrar que biodiversidade não é apenas lista de espécies e que a função da fauna é insubstituível.
Portanto, a garantia de recurso financeiro focado na proteção e na recuperação da fauna nas florestas, mesmo que elas “pareçam” intactas, é urgente. Só assim as funções ecológicas das florestas continuarão a existir de fato.
Já é amplamente sabido que as florestas são responsáveis por diversos serviços ecossistêmicos, como regulação hídrica e climática, sequestro de carbono e fonte de alimento - incluindo aquele açaí geladinho. Aliás, as aves estão entre as principais espécies dispersoras de sementes de açaí - como Sabiá-barranco, Araçari-de-bico-branco, Jandaia-verdadeira e inúmeras outras. Ou seja, sem fauna… sem açaí, que é uma das principais cadeias da sociobiodiversidade amazônica.
Mas temos um problema. Segundo o relatório da UNEP “State of Finance for Forests 2025” (Situação Financeira das Florestas 2025), menos de 1 em cada 10 dólares destinados às florestas provém de investidores privados - o restante provém , obviamente, de fontes públicas. O relatório ainda aponta que, em 2023, 31 países com florestas tropicais destinaram um total de US$ 12,9 bilhões às florestas, o que representa apenas 17% do total dos gastos públicos nacionais globais com florestas (US$ 75 bilhões) - e esse valores não necessariamente está atrelado à biodiversidade em si.
- Afe! S…
Mas antes que reclame… 22 desses 31 países gastaram, em média, 36 vezes mais do que o apoio externo que receberam, o que destaca um desequilíbrio estrutural e o papel fundamental das finanças públicas nacionais nos países ricos em florestas. A preocupação existe. O recurso existe, mas não na medida necessária e, aparentemente, não direcionada ou distribuída da melhor maneira.
Enquanto isso, as receitas públicas provenientes da precificação do carbono ficaram na casa dos US$ 104 bilhões, em 2023 e US$ 107 bilhões, em 2025. Ou seja, já ultrapassaram a ordem de grandeza do financiamento florestal global … mas nem sempre são destinadas à natureza.
O Brasil recebeu/internacionalizou cerca de US$ 1,7 bilhão equivalente em financiamento REDD+* rastreável nos últimos 15 anos, considerando Fundo Amazônia, GCF e REM** Acre e Mato Grosso.
- O que? 1.7 bi em REDD em 15 anos versus US$ 107 bilhões, em 2025, para carbono, que não necessariamente são revertidos para proteger a natureza?
Exato.
Em 2025, um artigo publicado na PNAS, afirma que a maioria das espécies ameaçadas continua sem receber apoio. O artigo é resultado de uma análise de mais de 14 mil projetos de conservação baseados em espécies ao longo de 25 anos. “Tanto os governos quanto as partes interessadas não-governamentais precisam urgentemente de novas abordagens para ajudar a enfrentar a crise da biodiversidade, incluindo o realinhamento das prioridades de financiamento para garantir um financiamento representativo entre os táxons***, voltado para espécies vulneráveis e atualmente negligenciadas.”
Para esses 14.566 projetos, o financiamento total foi de US$ 1,963 bilhão.
- Oi? 25 anos e menos de 2 bi com foco em fauna?
Pois é. Infelizmente, comparando todos esses dados, é importante reforçar que mesmo que a floresta esteja em pé, sem fauna ela se torna menos resiliente. Se as ações para proteção da fauna (e não só a fofofauna) não forem eficientes, em breve só haverá floresta vazia, silenciosa, quase morta.
Se quisermos nossas florestas em pé realmente vivas, Biodiversidade precisa se tornar prioridade, não só no marketing, ou com recursos escassos no âmbito público, mas permeando estratégias - incluindo as privadas - e com financiamento de longo prazo para combater a perda da biodiversidade.
A síndrome da floresta morta não existe, ainda. Vamos mudar os rumos no financiamento direcionado para a biodiversidade ou aguardaremos esse termo ser cunhado por algum gringo famoso dizendo que a «Síndrome da Floresta Vazia» precisa de update?

Bióloga, mestre em ecologia e recursos naturais, é especialista reconhecida em conservação da natureza e desenvolvimento sustentável, com vasta experiência na promoção de práticas de proteção aos ecossistemas marinhos e florestais. Com uma sólida carreira internacional, Frineia tem liderado programas estratégicos que integram comunidades locais e governamentais, bem como organizações privadas e não-governamentais, para a proteção e manejo de recursos naturais. Seu trabalho se destaca pelo compromisso com a proteção da biodiversidade e combate às mudanças climáticas e seus impactos sobre pessoas e ecossistemas, além da habilidade em promover parcerias colaborativas em prol de, não só um futuro, mas essencialmente, um presente sustentável. Frineia, além de executiva da área da conservação, é Advisor da Bio Bureau Biotecoologia.
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