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Núcleo Vitro: a biotech gaúcha que tirou da Europa os testes de pele da indústria brasileira

Escrito por Neo Mondo | 24 de julho de 2026

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Núcleo Vitro reconstrói tecidos humanos em laboratório e transforma ciência nacional em infraestrutura estratégica para a indústria farmacêutica e de cosméticos, reduzindo a dependência de testes realizados no exterior - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Fundada em 2019 para preencher um vazio de infraestrutura no país, a empresa reconstrói tecidos humanos em laboratório e diz crescer 60% ao ano vendendo evidência científica para farmacêuticas e fabricantes de cosméticos

Até poucos anos atrás, uma fabricante brasileira de cosméticos que precisasse provar a segurança de um creme sem recorrer a animais tinha basicamente um caminho: embalar amostras, despachá-las para um laboratório europeu, pagar em euro e esperar. O prazo era longo, o custo era cambial e o dado científico voltava com semanas de atraso — tempo suficiente para um concorrente lançar antes.

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Foi nesse gargalo que a Núcleo Vitro se instalou. Fundada em 2019 pela cientista Bibiana Matte, a biotech reconstrói tecidos humanos em laboratório — peles equivalentes em 3D, tecidos envelhecidos, modelos de intestino, sistemas organ-on-a-chip — para que indústrias testem a segurança e a eficácia de seus produtos sem usar animais nem pessoas. Segundo a empresa, o faturamento cresceu 60% ao ano entre 2024 e 2025.

"Quando as metodologias tradicionais começaram a esbarrar na necessidade de maior agilidade no Brasil, ficou evidente que o país tinha um gargalo de infraestrutura", afirma Bibiana Matte. "Havia demanda da indústria por inovação, avanço regulatório e pressão do consumidor por produtos de alta performance, mas quase não existiam empresas nacionais capazes de entregar essas soluções com tecnologia própria."

A brecha que a empresa ocupou tem tamanho mensurável. O setor brasileiro de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos movimenta cerca de US$ 26,9 bilhões por ano, segundo a ABIHPEC, o que coloca o país entre os maiores mercados consumidores do mundo. Em 2025, as exportações do setor cruzaram pela primeira vez a marca de US$ 1 bilhão, alcançando US$ 1,061 bilhão distribuídos por quase 200 países. O varejo farmacêutico seguiu trajetória parecida: fechou 2025 em R$ 246,1 bilhões, alta de 11,3% sobre o ano anterior, conforme levantamento da IQVIA encomendado pela Abafarma. São dois setores em expansão simultânea, ambos obrigados por regulação a comprovar cientificamente o que vendem, e ambos até então dependentes de laboratório estrangeiro para fazê-lo.

A mudança regulatória internacional ampliou a janela. A abertura do FDA norte-americano para aprovar medicamentos desenvolvidos com metodologias alternativas ao teste animal deslocou a validação in vitro da margem para o centro do processo de pesquisa e desenvolvimento. O que era alternativa ética virou requisito de mercado.

Para sustentar o ritmo, a Núcleo Vitro saiu do território da beleza. Passou a mimetizar tecidos para suplementos alimentares e para produtos veterinários, duas verticais que aceleraram junto com a virada do consumidor brasileiro em direção à saúde preventiva — o volume de vitaminas e suplementos vendidos no país cresceu 37% entre março de 2024 e fevereiro de 2025, segundo a Interplayers, com o faturamento subindo 29% no mesmo intervalo.

A aposta de maior valor, contudo, está nos sistemas mais complexos: modelos inflamatórios e de absorção intestinal, que oferecem previsibilidade científica superior à dos ensaios convencionais. A indústria farmacêutica brasileira se aproxima do vencimento de cerca de 1.500 patentes e busca nacionalizar a produção de insumos — um contexto em que descobrir cedo que uma molécula não funciona vale tanto quanto descobrir que ela funciona. Errar barato nos estágios iniciais de P&D economiza milhões de dólares antes que o dinheiro entre em fase clínica.

Há um detalhe de modelo de negócio que explica a margem. A Núcleo Vitro não vende apenas o ensaio. Vende propriedade intelectual própria, desenvolvida em território nacional, o que retira da equação o custo cambial e a logística internacional de tecidos biológicos. Cada semana economizada no calendário de lançamento de um cliente é um dado científico que virou eficiência financeira.

O que a empresa construiu se aproxima menos de um laboratório de ensaios e mais de uma plataforma de P&D terceirizada — o tipo de infraestrutura que, no Brasil, historicamente ficou concentrada dentro das multinacionais ou fora do país. Uma biotech fundada há sete anos por uma cientista brasileira agora responde por parte dela.

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