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O gás que sobe do adubo e aquece 273 vezes mais que o CO₂

Escrito por Neo Mondo | 31 de julho de 2026

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Gás que não se vê: sob as mãos que inspecionam a soja, o solo adubado libera óxido nitroso, que aquece 273 vezes mais que o CO₂ - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO

Terceiro maior gás de efeito estufa do planeta, o óxido nitroso nasce sobretudo da lavoura, dura mais de um século no ar e mal aparece no debate climático brasileiro

Cada quilo de adubo nitrogenado espalhado numa lavoura brasileira devolve ao ar uma fração de um gás que ninguém vê e que quase ninguém nomeia. Chama-se óxido nitroso, N₂O na fórmula, e uma tonelada dele aquece o planeta tanto quanto 273 toneladas de gás carbônico. É o terceiro gás de efeito estufa mais poderoso depois do CO₂ e do metano, e o menos comentado dos três.

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A força vem de dois traços somados. A molécula retém calor com eficiência muito maior que a do CO₂ e permanece na atmosfera por volta de 110 anos, até que a química da estratosfera a desmonte. O gás emitido sobre a soja de hoje ainda estará segurando calor quando os netos do produtor colherem. Há um segundo estrago, em outra frente: lá no alto, o óxido nitroso corrói a camada de ozônio, e já é a principal substância em atividade a fazer isso, agora que os antigos CFCs saíram de cena.

No Brasil, a origem é sobretudo rural, e nasce de um insumo que ninguém propõe abandonar. Foi o adubo nitrogenado que multiplicou a produção agrícola do país nas últimas décadas. O mesmo adubo, porém, cobra um preço climático: a agropecuária responde de longe pela maior parte do N₂O nacional, e os solos manejados, sozinhos, lançaram no ar o equivalente a 188 milhões de toneladas de CO₂ em 2023, quase tudo na forma desse gás, segundo o Observatório do Clima. Só os fertilizantes sintéticos somaram 37,6 milhões de toneladas, número próximo das emissões anuais de um país inteiro. Milho, cana, algodão e café puxam a conta, porque são as culturas que mais pedem nitrogênio.

O caminho do adubo até o gás passa por baixo da terra, e começa com desperdício. A planta aproveita menos da metade do nitrogênio que recebe, explica Bruno Alves, pesquisador da Embrapa. Na média, aplica-se o dobro do necessário, e o excedente fica no solo ou se perde para o ar. Parte dele vira óxido nitroso quando os micro-organismos do solo, em processos chamados nitrificação e desnitrificação, quebram o nitrogênio que sobra. Não há fumaça nem cheiro. A saída que Alves aponta é simples de dizer e difícil de fazer: "aplicar menos fertilizante nitrogenado nas lavouras", sem que a colheita encolha.

O gás nasce em dois lugares, e a diferença entre eles decide o que é possível fazer. A maior parte vem do uso, do adubo já espalhado e do dejeto do gado no pasto. Uma parcela menor vem antes, da fábrica: para produzir o adubo nitrogenado, a indústria fabrica ácido nítrico, etapa que libera N₂O em quantidade tal que o gás chega a responder por cerca de metade das emissões de efeito estufa daquela produção. A emissão do campo é difusa e escorre por toda parte. A da fábrica sai por uma chaminé, e chaminé se controla.

Foi nessa parcela industrial que a norueguesa Yara, uma das maiores fabricantes de fertilizante nitrogenado do mundo, agiu cedo. Numa planta em Herøya, na Noruega, que já foi uma de suas maiores fontes do gás, a empresa desenvolveu um catalisador que decompõe o óxido nitroso ainda dentro do reator de ácido nítrico. O dispositivo entrou em operação em 2002 e corta mais de 90% do gás naquela etapa. A Yara atribui a ele boa parte da queda de 45% nas próprias emissões desde 2005 e, ao licenciar a tecnologia a concorrentes mundo afora, calcula que a solução evita hoje cerca de 30 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano. Trine Kopperud, que dirige clima e energia na companhia, descreve a decisão de abrir a tecnologia ao setor como um modo de acelerar a redução para além dos próprios muros.

A chaminé, porém, é a parte simples. O gás que sobe de milhões de hectares de solo adubado não passa por reator nenhum, e é justamente essa fração, a maior, que a fala de Alves mira. Atacá-la depende de acertar a dose no campo, e é aí que a indústria de fertilizante disputa outro terreno. A própria Yara vende no Brasil ferramentas de agricultura de precisão, o aplicativo Atfarm e o índice N-Sensor, que leem a lavoura por satélite e calculam quanto nitrogênio cada trecho do talhão precisa, para cortar o excesso antes que ele vire gás. Cerca de 20 mil produtores no país já usam o sistema. É a mesma lógica da Embrapa, agora oferecida como serviço: adubar na medida.

O tamanho do problema, esse, segue preso à conta do solo. Cerca de 1% de todo o nitrogênio que se aplica numa lavoura volta ao ar como óxido nitroso, fração que aumenta quanto mais adubo sobra sem ser absorvido, e que se soma a cada safra recorde do agronegócio brasileiro.

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