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Escrito por Neo Mondo | 25 de agosto de 2026
Pergunta que antes buscava apenas uma resposta agora também pode abrir espaço para uma disputa comercial pela atenção do consumidor dentro da inteligência artificial - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
O Grupo Boticário começou em agosto a exibir anúncios dentro do ChatGPT no Brasil. A Make B., marca de maquiagem da companhia, abriu o piloto, revelado com exclusividade à Fast Company Brasil em 21 de agosto. O teste veio poucas semanas depois de a OpenAI ligar sua própria operação comercial no país.
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A empresa americana iniciou o piloto brasileiro em 4 de agosto. Os anúncios atingem usuários maiores de 18 anos dos planos Free e Go, aparecem abaixo das respostas, com identificação, e não interferem no conteúdo gerado pelo modelo. Assinantes de Plus, Pro, Business, Enterprise e Education continuam sem publicidade. A escolha do país não foi casual: o Brasil está entre os três maiores mercados do ChatGPT em usuários ativos semanais, ao lado de Estados Unidos e Índia, e o piloto nasceu com adesão de BETC Havas, Monks, Omnicom, Publicis e WPP. A plataforma de autoatendimento, que permite a qualquer anunciante criar, medir e otimizar campanhas sem passar por agência, foi anunciada para os dias seguintes.
O Boticário chegou a esse leilão com um histórico de presença orgânica. Levantamento da Ranqia, deeptech brasileira especializada em otimização para mecanismos generativos, apontou que Embraer, WEG, Petrobras e Grupo Boticário foram citados em 98% das respostas do ChatGPT sobre inovação ao longo de junho de 2026. Logo atrás apareceu o iFood, com 96%. O próprio estudo traz uma ressalva: o índice não mede quem é mais inovador. Mede quem a máquina lembra.
Essa distinção define o terreno. Em outro recorte da mesma deeptech, o YouTube apareceu entre as fontes recuperadas pelo modelo em 79,60% das respostas, mas foi exibido como citação explícita em apenas 0,71%. A Wikipédia em português esteve na camada de fontes de 62,30% das respostas e recebeu citação visível em 38,60%. A distância entre exposição e citação indica que parte da influência sobre a resposta acontece antes do texto final, numa camada que o usuário não vê. A publicidade paga entra agora sobre essa arquitetura já opaca, com rótulo próprio e separação visual, mas dentro do mesmo ambiente em que a recomendação e a menção orgânica se confundem para quem lê.
Há uma razão contábil para o formato existir. A OpenAI atingiu cerca de US$ 25 bilhões em receita anualizada e projeta prejuízo bilionário em 2026, com estimativas internas vazadas à imprensa americana que vão de US$ 14 bilhões a mais de US$ 30 bilhões. Das mais de 900 milhões de pessoas que usam o ChatGPT toda semana, menos de 3% pagam assinatura. A publicidade é a quinta fonte de receita da companhia, com meta de US$ 2,5 bilhões neste ano e ambição de US$ 100 bilhões até 2030. Cada real de mídia conversacional financia a expansão da infraestrutura que sustenta o modelo.
Essa infraestrutura tem endereço físico e conta de água. A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo elétrico global de data centers salte de 415 TWh em 2024 para 945 TWh por ano até 2030, com a IA como principal motor. Relatório da Universidade das Nações Unidas divulgado em junho de 2026 estima que o consumo anual de água desses centros pode chegar a 9,3 trilhões de litros até 2030, com as emissões passando de 189 milhões para 399 milhões de toneladas de CO2 no mesmo intervalo. O documento também mapeia trocas ocultas entre as três pegadas: substituir carvão por bioenergia reduz a pegada de carbono da eletricidade em cerca de 70%, mas multiplica o consumo de água por mais de trinta e a exigência de terreno por cem. Matrizes dominadas por hidrelétricas ou bioenergia emitem pouco carbono e podem consumir até quatro vezes mais água que a média global. A matriz brasileira, argumento central para atrair projetos ao país, está exatamente nesse quadrante.
Pesquisadores ouvidos pelo Jornal da Unesp lembram que a OpenAI não divulga dados de consumo de água do ChatGPT desde a versão 3, lançada em 2020. O anunciante que compra impressão nesse ambiente não tem como calcular o custo hídrico e energético de cada entrega. Nenhum tem.
A questão pesa mais para uma companhia que construiu identidade pública na conservação. A estratégia ESG do Grupo Boticário é guiada pelos Compromissos para o Futuro, lançados em 2021 e distribuídos em sete temáticas, entre elas Mudanças Climáticas, Resíduos, Água e Biodiversidade. A Fundação Grupo Boticário mantém áreas protegidas em biomas brasileiros e financia manejo de fogo no Cerrado. Testar mídia numa plataforma cuja unidade de entrega é uma inferência, e não uma página estática, coloca a área de marketing e a área de sustentabilidade diante da mesma planilha, pela primeira vez, sem métrica comum.
O consumidor já está lá. Estudo do Boston Consulting Group com 9 mil pessoas em nove países, incluindo o Brasil, registrou salto de 35% no uso de chats de IA para pesquisar produtos e receber indicações entre fevereiro e novembro do ano passado, o que tornou essa a terceira aplicação mais popular da tecnologia. A regulação, não. Sergio Pompilio, do Conar, afirma que ainda não há definição sobre se a otimização para mecanismos generativos é publicidade ou não. O conselho analisou cerca de 37 mil materiais publicitários em 2025 com apoio de sistemas de IA, e em torno de 4,6 mil geraram algum acionamento. O Código de Defesa do Consumidor e a LGPD continuam aplicáveis; o Marco Legal da Inteligência Artificial segue em discussão no Congresso.
"Estamos acompanhando de perto como a inteligência artificial está transformando não apenas a tecnologia, mas também a maneira como as pessoas pesquisam, descobrem produtos e tomam decisões", diz Natália Calixto, diretora executiva de Gestão e Valor do Consumidor do Grupo Boticário. O formato, segundo a companhia, conecta descoberta e e-commerce oficial, com medição de tráfego qualificado, taxa de cliques e conversão.
Do outro lado do leilão, a leitura é a mesma, com outra ênfase. "As marcas passam a disputar relevância não apenas em momentos de descoberta, mas também durante o processo de raciocínio que antecede uma decisão", afirmou Dave Dugan, head de soluções globais de anúncios da OpenAI, ao anunciar a chegada do piloto ao Brasil.
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