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O curativo que some em 48 horas: dois estudantes de Gravataí contra os 2,2 bilhões de bandagens plásticas descartadas em um ano

Escrito por Neo Mondo | 18 de agosto de 2026

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Curativo feito de babosa e camomila: protótipo do HADA em teste, projetado para se decompor no solo em até 48 horas - Foto: Bernardo Renner e Isis Valentim / divulgação / Xataka

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Bernardo Renner e Ísis Valentin têm 17 anos, estudam no Colégio Sinodal Prado, em Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre, e foram anunciados em 17 de maio como vencedores da América Central e do Sul no The Earth Prize 2026. O projeto premiado se chama HADA, "pele" em japonês: um curativo feito de babosa e camomila que se decompõe no solo em até 48 horas. A dupla recebeu 12,5 mil dólares para desenvolver a tecnologia.A ideia nasceu na quadra de vôlei. Jogadores frequentes, os dois tratavam cortes e escoriações com bandagens comuns, que cobriam o ferimento e pouco mais.

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Quando ampliaram a pergunta, encontraram o número que dá dimensão ao problema. Estima-se que 2,2 bilhões de curativos plásticos tenham sido descartados apenas em 2023, segundo levantamento citado pela Earth Foundation. Cada um serve por dois ou três dias. O polímero permanece por décadas, fragmentando-se em partículas cada vez menores.

A escolha das plantas não é aleatória, e tampouco é nova. A babosa concentra acemanana, polissacarídeo associado à retenção de umidade e à proliferação celular durante a cicatrização. A camomila alemã, Matricaria recutita, carrega alfa-bisabolol, camazuleno e apigenina, compostos com ação anti-inflamatória e antimicrobiana descrita em literatura farmacológica desde os anos 1970. Nada disso é folclore de quintal.

O que a literatura ainda não oferece é prova clínica robusta. Uma revisão Cochrane conduzida por Anthony Dat e colegas em 2012 examinou os ensaios randomizados disponíveis sobre babosa em feridas agudas e crônicas e concluiu pela ausência de evidência de alta qualidade. Em um dos estudos analisados, feridas cirúrgicas tratadas com o material levaram, em média, trinta dias a mais para fechar. Os autores classificaram os ensaios incluídos como metodologicamente frágeis e de alto risco de viés. Revisões dedicadas a queimaduras de primeiro e segundo graus chegaram a resultado mais favorável, com tempo de cicatrização em média 8,79 dias menor no grupo tratado, mas com amostras pequenas e protocolos heterogêneos. Tradição de uso e comprovação clínica são coisas diferentes, e a distância entre as duas é o terreno que o HADA precisa atravessar.

Os protótipos existem e funcionam. Em testes iniciais, o material apresentou aderência, flexibilidade e ação antimicrobiana. A dupla produziu quatro artigos de pesquisa e trabalha com o Instituto Caldeira, um dos maiores centros de inovação do Sul do país, com a Prado Tech, em Gravataí, e com o empresário Carlos Johannpeter. As professoras Bruna Grings e Bruna Vasconcellos de Oliveira Urtassum acompanharam o trabalho na escola. O que os estudantes declararam buscar agora é estrutura laboratorial robusta e avanço no caminho regulatório.

A segunda parte da frase é a mais pesada. Um curativo não é cosmético. No Brasil, é dispositivo médico, regido pela RDC 751/2022 da Anvisa. Produtos enquadrados nas classes de risco I e II passam por notificação; os de classe III e IV exigem registro, com dossiê técnico, ensaios de biocompatibilidade e certificado de boas práticas de fabricação. Um material que reivindica ação antimicrobiana e promoção de reparo tecidual dificilmente se acomoda no degrau mais baixo dessa escada. Doze mil e quinhentos dólares cobrem reagentes, protótipos e algumas rodadas de teste. Não cobrem um estudo clínico.

Aí está o que interessa para além do episódio. O Brasil tem a matéria-prima e tem o repertório. Babosa e camomila são plantas domésticas, baratas e culturalmente próximas, e a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares reconhece a fitoterapia no SUS desde 2006. O que falta é a passagem. Iniciação científica estável na educação básica, apoio jurídico ao depósito de patentes por inventores menores de idade, compras públicas que abram espaço para materiais de baixa persistência ambiental e aproximação regular entre escola e indústria são instrumentos conhecidos, testados e disponíveis. Nenhum deles depende de descoberta nova.

Ísis Valentin e Bernardo Renner, ambos de 17 anos, criadores do curativo biodegradável HADA, no laboratório do Colégio Sinodal Prado, em Gravataí - Foto:Divulgação

Em 29 de maio, cerca de 23 mil pessoas votaram para escolher o vencedor global entre os sete regionais. O título ficou com o Plas-Stick, pó magnético de semente de tamarindo criado por três estudantes indianos de 16 anos, primeiro time da Índia a receber o prêmio. O HADA manteve os 12,5 mil dólares e a rota que os autores traçaram: validar a tecnologia, ampliar a produção e levar o biocurativo a escolas, centros esportivos e serviços de saúde. Nas palavras dos dois, o alvo é "um problema exponencial: a dependência humana do plástico".

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