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Mesmo olfato, humor mais baixo: o que 98 mulheres revelam sobre a pílula anticoncepcional

Escrito por Neo Mondo | 2 de julho de 2026

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Olfato em foco: a ciência investiga como hormônios, percepção sensorial e bem-estar se conectam no organismo feminino - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Noventa e oito mulheres passaram por uma nasofibroscopia antes de cheirar qualquer coisa. O procedimento, que descarta alterações morfológicas capazes de mascarar resultados, foi o primeiro filtro de um estudo que levou três anos para nascer e que agora chega à revista Frontiers in Human Neuroscience com uma conclusão que soa, à primeira vista, anticlimática: o uso de anticoncepcional oral não altera, de forma ampla, a acuidade olfativa feminina. Mas é justamente na letra miúda dessa não diferença que o trabalho se torna relevante.

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A pesquisa nasceu de um edital lançado em 2023 pelo Centro de Pesquisa do Olfato do Grupo Boticário, criado em 2021, em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein. Selecionou-se então uma neurocientista formada pela USP, Patrícia Gonçalves, para conduzir doze meses de trabalho de campo na Eretz.bio, o hub de startups do Einstein. O resultado publicado agora — assinado por Gonçalves ao lado de Bruna Cestari de Azevedo e Camila Hernandes Pinheiro, entre outras autoras — é o primeiro fruto acadêmico dessa aposta, e chega em um momento em que o Boticário já ampliou a estrutura original: em 2025, no SXSW, o grupo anunciou um Centro de Pesquisa da Mulher com destinação de R$ 13 milhões anuais para investigar como ciclos hormonais afetam pele, cabelo, sono e humor.

O desenho do estudo é o que dá densidade ao achado central. Noventa e oito participantes de 18 a 40 anos, sem tabagismo nem histórico neurológico ou endócrino relevante, foram divididas em dois grupos e avaliadas em dois momentos hormonais opostos: fase pré-ovulatória e luteal para quem tem ciclo natural, período ativo e pausa para quem usa pílula. O instrumento foi o Sniffin' Sticks Test, referência internacional que mede limiar, discriminação e identificação de odores. A ele somaram-se a Escala de Felicidade Subjetiva e o Índice de Satisfação com a Vida — a aposta metodológica de tratar o olfato não como sentido isolado, mas como variável psicológica.

É nessa camada que a história para de ser sobre química e passa a ser sobre nuance. Usuárias de anticoncepcional pontuaram, em média, um pouco mais baixo na escala de felicidade subjetiva do que as não usuárias — sem que isso alterasse o índice de satisfação com a vida, o que sugere que a pílula pode tocar o humor cotidiano sem mexer na forma como a mulher avalia sua trajetória. Dentro do próprio grupo de usuárias, o tipo de hormônio sintético importou: valerato de estradiol associou-se a um limiar olfativo mais sensível do que etinilestradiol em dosagem de 0,03 mg, embora a amostra desse recorte seja pequena e os autores tratem o dado como preliminar. Regimes contínuos, sem pausa hormonal, produziram desempenho pior em discriminação do que os regimes cíclicos, e quanto mais longo o tempo de uso, menor a sensibilidade de limiar — uma correlação, não uma causalidade estabelecida, mas o tipo de sinal que justifica ampliar a amostra.

O fio que atravessa todo o experimento, independentemente do uso de contraceptivo, é a associação entre desempenho olfativo e bem-estar subjetivo. Em não usuárias, essa relação passou pelos subtestes de identificação; em usuárias, pelo limiar. São vias diferentes convergindo para o mesmo ponto: nariz e humor conversam, e a fisiologia hormonal parece ser um dos idiomas dessa conversa.

Há um ponto de tensão implícito aqui que a publicação evita nomear diretamente: os dados carregam o interesse comercial de quem financiou a pesquisa. O Centro de Pesquisa do Olfato pertence a uma companhia de cosméticos, e o estudo caminha em paralelo ao desenvolvimento de produtos sensíveis às fases hormonais da consumidora — algo que a própria diretoria da empresa verbaliza sem rodeios ao falar em transformar rigor científico em tecnologias de cuidado. Isso não invalida o achado, publicado em revista com revisão por pares e sem conflito declarado que comprometa a metodologia. Mas contextualiza por que uma pergunta aparentemente íntima — o que a pílula faz com o nariz de uma mulher — recebeu recursos privados que a ciência pública brasileira raramente destina a temas de saúde feminina.

Por décadas, a pesquisa biomédica tratou o corpo masculino como padrão e devolveu à mulher um conhecimento incompleto sobre a própria fisiologia. Noventa e oito narizes testados duas vezes cada um não fecham essa lacuna. Mas indicam, com precisão de laboratório, que ela existe — e que fechá-la exige instrumentos tão sensíveis quanto os que hoje medem o menor traço de um odor no ar.

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