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Escrito por Neo Mondo | 30 de junho de 2026
Desmatamento e queimada próxima à Floresta Nacional Bom Futuro, em Porto Velho, Rondônia, em outubro de 2023 - Foto: Marizilda Cruppe / Greenpeace
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Há uma ironia que os números, por si só, não conseguem capturar: no mesmo mês em que o Brasil anunciou a maior redução percentual de desmatamento já registrada na história da Amazônia — 61,4% em maio, na comparação com o ano anterior —, o governo dos Estados Unidos reabriu uma investigação comercial que usa exatamente o desmatamento como argumento para taxar produtos brasileiros em mais 25%. A floresta encolheu menos. A tarifa cresceu mais. E o elo entre essas duas curvas, que deveriam caminhar em direções opostas, revela algo mais perturbador do que uma simples disputa comercial: a transformação da pauta ambiental em instrumento de barganha geopolítica, indiferente aos próprios dados que ela alega defender.
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O movimento começou no dia 1º de junho, quando o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos concluiu uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — o mesmo dispositivo que Washington já usara antes contra a China — e propôs uma nova tarifa de 25% sobre importações brasileiras. O documento lista quatro frentes de acusação: desmatamento ilegal, lentidão na proteção de patentes, falta de reciprocidade no mercado de etanol e acordos comerciais considerados desleais com México e Índia. À primeira vista, é uma peça técnica, burocrática, do tipo que costuma se perder nos cadernos de economia. Mas há um detalhe que muda sua natureza: ela chega dias depois de o Inpe divulgar, via sistema Deter, que a Amazônia Legal perdeu 370 quilômetros quadrados de vegetação em maio, contra 960 no mesmo mês de 2025. É a maior queda mensal já registrada para o período — justamente quando a estação seca começa e o desmatamento, historicamente, acelera.
A contradição não escapou ao ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, que classificou a alegação americana como factualmente equivocada. Tampouco ao presidente Lula, que durante visita ao Observatório Regional Amazônico, em Brasília, declarou que os Estados Unidos "não sabem o trabalho que nós fazemos" para zerar o desmatamento até 2030. Mas a resposta política, por mais correta que seja nos números, esbarra em uma pergunta mais incômoda: por que um país conseguiria reduzir o desmatamento em quase dois terços e, ainda assim, ver essa conquista usada contra si?
A resposta está na arquitetura da Seção 301. Diferente de mecanismos multilaterais como a Organização Mundial do Comércio, ela não exige prova robusta nem contraditório equilibrado — permite que o governo americano construa unilateralmente uma narrativa de "práticas desleais" e a use como justificativa legal para sanções. O próprio texto do USTR, segundo análises de especialistas em comércio internacional, mistura críticas ambientais com queixas que nada têm a ver com florestas: decisões do Supremo Tribunal Federal, atuação do Banco Central, anulação de processos da Lava Jato. O desmatamento, nesse contexto, não é o motivo da tarifa. É a embalagem apresentável de uma disputa que é, em essência, política.
Essa distinção importa porque revela o verdadeiro risco para quem pensa em sustentabilidade como vetor de competitividade, não apenas como conformidade regulatória. Durante anos, o discurso corporativo brasileiro — do agronegócio às grandes tradings — apostou que reduzir desmatamento, rastrear cadeias produtivas e investir em compliance ambiental seria, mais cedo ou mais tarde, recompensado pelo mercado internacional. Em parte, isso se confirmou: o acordo Mercosul–União Europeia, que entrou em vigor de forma provisória neste ano, abriu justamente essa porta, e a ApexBrasil já promove produtores brasileiros na Europa sob a bandeira de origem socioambiental responsável. Mas o episódio do tarifaço expõe o limite desse otimismo. Quando a métrica de avaliação não é mais técnica, e sim política, nenhum dado de queda no desmatamento — por mais expressivo que seja — garante proteção. O escudo verde, que deveria blindar o Brasil de acusações, virou superfície onde qualquer narrativa pode ser projetada.
Há também uma assimetria reveladora na cronologia. Em fevereiro, dados do Deter já indicavam queda de 35% nas áreas sob alerta de desmatamento entre agosto de 2025 e janeiro de 2026. Em abril, o Imazon confirmava o menor patamar de degradação florestal em onze anos para o mês de março. Em maio, o recorde histórico. Cada um desses marcos foi anunciado, celebrado, distribuído como prova de que o controle ambiental brasileiro funciona — e, ainda assim, nenhum deles impediu que o USTR avançasse com sua investigação, iniciada exatamente nesse intervalo. A pergunta que fica não é se o Brasil está fazendo o suficiente do ponto de vista ambiental. É se existe, hoje, algum patamar de desempenho ambiental capaz de neutralizar o uso instrumental da pauta verde em disputas que, na origem, não são sobre floresta nenhuma.
Para quem decide sobre risco em comitês de investimento, mesas de ESG ou estratégias de exportação, essa constatação tem um peso prático considerável. Ela sugere que blindagem reputacional baseada exclusivamente em métricas de desmatamento — por mais reais e auditáveis que sejam — não é suficiente como proteção geopolítica. A vulnerabilidade não está nos dados, está na natureza do instrumento que os interpreta. Setores inteiros, como carne, café, madeira e suco concentrado, permanecem expostos a tarifas que pouco dialogam com seu desempenho ambiental real, porque a régua que os mede pode ser substituída por outra, política, a qualquer momento.
Resta, então, uma reflexão que ultrapassa o caso brasileiro e toca o desenho do próprio sistema de comércio internacional na era das mudanças climáticas: o que significa, de fato, recompensar um país por proteger suas florestas, se essa proteção pode ser instrumentalizada como pretexto para puni-lo de outra forma? A Amazônia que encolheu menos em maio de 2026 não mudou de natureza entre um mês e outro — continua sendo a mesma floresta, com os mesmos desafios estruturais de fiscalização, fundiários e climáticos. O que mudou foi a lente através da qual ela passou a ser olhada, e essa lente, ao que tudo indica, responde menos à ciência do que à conveniência.
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