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O Brasil partido em sete milhões de pedaços

Escrito por Neo Mondo | 13 de maio de 2026

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Brasil: área desmatada da Floresta Amazônica - Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Pela primeira vez, o MapBiomas calculou a quantidade de fragmentos de vegetação nativa no Brasil. O número triplicou em 38 anos — e o que ele revela sobre a saúde dos ecossistemas brasileiros vai além do desmatamento

Em 1986, a vegetação nativa do Brasil estava distribuída em cerca de 2,7 milhões de fragmentos. Em 2023, esse número chegou a 7,1 milhões. Não houve crescimento de floresta. Houve fratura.

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Os dados são do módulo de Degradação do MapBiomas, atualizado em 2025 com uma funcionalidade inédita: pela primeira vez, pesquisadores conseguiram contabilizar, a partir de meio hectare, todos os fragmentos de vegetação nativa do território nacional — florestas, savanas, campos, áreas pantanosas. O crescimento de 260% no número de fragmentos em menos de quatro décadas é, em si, um retrato da fragmentação como processo ativo e acelerado de deterioração ecológica.

A distinção entre desmatamento e degradação é real — e operacional. No desmatamento, a vegetação desaparece e a terra muda de uso. Na degradação, a vegetação permanece — mas sob pressão contínua de fatores que reduzem sua resiliência, sua biodiversidade e sua capacidade de autorregulação. Fragmentar é degradar de outra maneira: silenciosamente, sem o corte visível ao satélite, mas com consequências que se acumulam ao longo do tempo e do território.

"Quanto menor for o tamanho dos fragmentos de vegetação nativa, maior será a suscetibilidade à degradação", afirma Dhemerson Conciani, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e coordenador do módulo de degradação do MapBiomas. "Cada vez que o tamanho de um fragmento diminui, mais problemas aparecem: aumenta o risco de extinções locais, diminui a chance de recolonização por indivíduos vindos de outros fragmentos vizinhos e maior é a proporção do efeito de borda. Em suma, esses fragmentos vão perdendo a diversidade de espécies."

Em 1986, um fragmento de vegetação nativa tinha, em média, 241 hectares; em 2023, esse número caiu para 77 hectares — redução de 68% no período. A Amazônia ilustra com mais força essa tendência: o fragmento médio passou de 2.727 hectares para 492 hectares, queda de 82%. O Pantanal perdeu 80% do tamanho médio dos fragmentos, que recuaram de 1.394 para 278 hectares. São biomas que ainda guardam extensas coberturas nativas, mas que exibem, com crescente nitidez, os sinais de uma paisagem que se parte.

A ciência internacional chegou, em março de 2025, a uma conclusão que resolve um debate de meio século. Um estudo publicado na revista Nature, liderado pelo ecólogo Thiago Gonçalves-Souza e com dados de mais de quatro mil táxons, demonstrou que a fragmentação reduz a biodiversidade em todas as escalas — e que o aumento na variedade de espécies entre fragmentos distintos não compensa a perda total na paisagem. "Fragmentação é prejudicial", disse Nate Sanders, professor da Universidade de Michigan e coautor do estudo. A conclusão endossa o que o MapBiomas, com precisão cartográfica inédita, agora documenta em território brasileiro.

O Pantanal e a Amazônia foram os biomas com maior aumento proporcional de fragmentação entre 1986 e 2023 — 350% e 332%, respectivamente. O Pampa registrou alta de 285%, o Cerrado de 172%. Mata Atlântica e Caatinga, biomas historicamente mais pressionados, apresentaram crescimento menor em termos relativos — 68% e 90% — mas partem de bases já profundamente alteradas. A Mata Atlântica retém hoje aproximadamente 12% de sua cobertura original. Em proporção à vegetação nativa remanescente, é o bioma mais exposto à degradação: até 72% dessa vegetação — o equivalente a 23,4 milhões de hectares — está sob a influência de ao menos um vetor de degradação mapeado.

A natureza dos processos difere entre os biomas. No Cerrado, o aumento no número de fragmentos está associado diretamente ao avanço do desmatamento sobre grandes remanescentes, que se partem em porções menores. Na Mata Atlântica, parte do crescimento no número de fragmentos pode ser atribuída ao sentido oposto: o surgimento de múltiplas áreas de vegetação secundária, resultado de processos de recuperação espontânea ou induzida. São realidades distintas que os números globais, por si sós, não discriminam.

Até 24% da vegetação nativa do Brasil — 134 milhões de hectares — está exposta a pelo menos um vetor de degradação segundo o módulo atualizado. Esses vetores não operam de forma isolada: uma queimada abre clareiras na borda do fragmento, a borda exposta resseca e aquece, o microclima alterado favorece novas ignições, e o fragmento — já menor — perde mais uma camada de interior protegido. Fragmentação, fogo, borda e distúrbio de dossel são faces do mesmo processo de enfraquecimento progressivo. O Cerrado concentra a maior área absoluta afetada: até 42,6 milhões de hectares, o equivalente a 42% de sua vegetação remanescente. O Pampa vem em segundo lugar proporcional, com até 47% de sua vegetação exposta a algum dos fatores mapeados.

Na Amazônia Legal, o MapBiomas mapeou pela primeira vez os distúrbios de dossel — alterações na camada superior da floresta causadas por fatores como seca, vento, incêndio ou extração madeireira que abrem clareiras e rompem a continuidade do ecossistema. Entre 1988 e 2024, ao menos 7% da cobertura florestal da Amazônia Legal registrou algum sinal de distúrbio de dossel por pelo menos um mês. O equivalente a 24,9 milhões de hectares. O corte seletivo responde por parte significativa desses registros: 9,7 milhões de hectares com indícios da atividade foram identificados no mesmo período, e 83,5% dessa área concentra-se no Mato Grosso e no Pará.

A degradação, ao contrário do desmatamento, é reversível — pelo menos em parte. "A importância desse monitoramento se justifica pelo fato de que a degradação de um remanescente de vegetação nativa muitas vezes pode ser minimizada ou revertida. Porém, se as causas da degradação não forem interrompidas, a capacidade de recuperação biológica natural das áreas afetadas pode ficar muito comprometida", alerta Eduardo Vélez, pesquisador do MapBiomas na equipe do Pampa. A janela existe, mas ela não permanece aberta indefinidamente.

O Brasil tem como meta restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, compromisso assumido no âmbito do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e reafirmado no Acordo de Paris, no Desafio de Bonn e na Iniciativa 20X20. A pergunta que os dados do MapBiomas tornam mais precisa é: restaurar onde, e com que grau de prioridade? Os 7,1 milhões de fragmentos mapeados não são equivalentes entre si. Aqueles menores que 250 hectares — que abrangem até 5% da vegetação nativa do país, ou 26,7 milhões de hectares — são os mais vulneráveis. Na Mata Atlântica, esse limite atinge 28% de toda a vegetação remanescente.

A ferramenta que o MapBiomas construiu é, antes de tudo, um instrumento de priorização. Permite análises por país, estado, município, bacia hidrográfica e áreas protegidas. Permite confrontar metas com a realidade que os satélites agora revelam com resolução de 30 metros. Permite, acima de tudo, retirar do debate ambiental brasileiro o conforto das médias nacionais e substituí-lo pela evidência de que o território se parte — e que cada fragmento que diminui carrega consigo uma fatia de biodiversidade que não se recupera sozinha.

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