No aspecto legal, tanto no período da Colônia, Império, como na República, a postura dessa elite foi ativa e permissiva, permitindo a discriminação e o racismo, que até hoje atingem os descendentes de africanos e indígenas.
Os indicadores de exclusão registrados por inúmeras pesquisas demonstram a desigualdade econômica e de acesso aos direi tos por esses segmentos sociais, que vivem há séculos numa condição de “cidadania mutilada” (na afirmação de Milton Santos).
A Constituição de 1988 busca efetivar a construção de um Estado democrático de direito, com ênfase na cidadania plena e na dignidade da pessoa humana, mas a realidade social ainda permanece marca da por posturas subjetivas e objetivas de preconceito,racismo e discriminação.
No que se refere aos meios de comunicação de massa, desde a implantação da Industria Cultural, nos anos 50, os mesmos atuam no reforço dos estereótipos que acentuam a pseudo “supremacia” branca.
O que vemos, diariamente, na telinha? A ausência de negros e de indígenas na televisão, principalmente nas telenovelas, reforçando a tese da supremacia do homem branco /europeu, dentro da tolerância opressiva do “outro” considerado como inferior.
Vivemos hoje num mundo embebido pela lógica midiática e, como afirma Sodré:
…a mídia funciona,a nível macro,como um gênero discursivo capaz de catalisar expressões políticas e institucionais sobre as relações inter-raciais ,em geral estruturada por uma tradição intelectual elitista que, de uma maneira ou de outra, legitima desigualdade racial pela cor… (1)
E se os personagens que aparecem são sempre mostrados em situação de inferioridade,apresentando a imagem do(a) negro(a) em três l’s: lúgubre,lúdico e luxurioso,no dizer de Conceição:
O negro lúgubre está no noticiário na parte policial, ou como serviçal cabisbaixo,ou gaiato bêbado;o lúdico, em ocasiões eventuais,no Carnaval, em ambientes de alegoria, com instrumentos de batuques,muitas vezes fantasiados a maneira selvagem;luxurioso, ligado á libido,ao exagero sexual (2).
Os estereótipos negativos reafirmam o imaginário surgido no período escravocrata, os afro descendentes vistos como integrantes da classe subalterna;a quase total invisibilidade do negro em situações positivas;a cultura e religiosidade negra sempre folclorizada; a situação social mostrada é a de favelado e/ou pobre,ignorante, drogado, criminoso.
Como consequência, a autoestima dos descendentes de africanos é baixa,a ideologia do embranquecimento é introjetada em crianças e adolescentes que rejeitam suas ancestralidades milenares.
Cabe a nós brasileiros (as) lutarmos por uma sociedade mais justa, igualitária, combatendo esse imaginário perverso e injusto.
Notas
(1) SODRE, Muniz.Claros e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1999
(2)CONCEIÇÃO, Fernando. Mordendo um cachorro por dia in MUNANGA(org.) Estratégias e políticas de combate à discriminação racial. SP: EDUSP.1996
* Professora doutora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, socióloga pela FFLCH\USP, mestre pela Universidade de Uppsala, Suécia, e Professora convidada para ministrar aulas sobre Cultura Brasileira na Universidade de Estudos Estrangeiros.