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Artigo
POR – ELLEN CARBONARI*, ESPECIAL PARA NEO MONDO
Empreender, no dicionário, refere-se a pôr em execução, realizar; não por acaso o maior mantra de qualquer empreendedor é o clássico “vai lá e faz”. Colocar algo em ação é como romper com a barreira do som para quem está desenvolvendo um negócio – pelo menos com as vozes internas que nos deixam muitas vezes na inércia. Não raramente, os imprevistos do dia a dia, seja com clientes, funcionários ou fornecedores, roubam energia e desviam o foco do empreendedor daquilo que é essencial. Então, como priorizar esforços baseando-se no conceito de prosperidade e manter-se neles?
Se empreender é colocar em ação uma ideia de solução ou investigar mais a fundo uma oportunidade, o que vem logo depois? Assim, separei algumas reflexões que podem auxiliar novos e experientes empreendedores a seguir adiante, seja quem está com uma ideia, pensando em inovar no seu negócio tradicional ou ainda dentro de uma organização já consolidada.
1. Propósito: aquilo que se quer alcançar
Porque esse negócio existe ou faz sentido existir? Esta reflexão deve estar na base do desenvolvimento de um novo negócio ou no redesenho de todo modelo atual. Mais do que um sonho, empreendedores que possuem uma intenção de transformação bem definida tendem a apresentar maior resiliência ao longo do caminho porque compreendem com profundidade o problema que buscam resolver. Apesar dos tropeços, ele conectam-se em outros níveis com a intencionalidade do seu fazer e tendem a perseverar no caminho.
Os negócios com propósito, ou organizações que estão buscando alinhar suas estratégias à impacto socioambiental positivo, estão ganhando destaque no mercado. Isso acontece dentro de um contexto em que crescem os debates internacionais que destacam os negócios e corporações como organismos vivos em relação com outras entidades do mercado, como o setor público, a sociedade civil e a academia, todas sendo importantes tomadoras de decisão sobre o futuro. A revolução no mundo das finanças, apontando para os investimentos atrelados às práticas sociais, ambientais e de governança das organizações, também aponta para oportunidades de mercado para novos negócios que podem auxiliar grandes corporações a inovar para um impacto socioambiental positivo.
Ao empreender, é necessário delimitar com profundidade o problema que se quer resolver e neste processo engajar outros atores – como potenciais clientes, parceiros e investidores – que auxiliem no processo de compreensão do mercado no qual seu negócio está inserido. Atenção especial ao dia a dia do indivíduo que sofre com o problema; este indivíduo pode ser um potencial comprador ou potencial beneficiário. Esta estratégia de desenvolvimento de negócios é conhecida como Customer Development, ou Desenvolvimento de clientes, metodologia desenvolvida pelo empreendedor em série, professor e acadêmico Steve Blank, a qual consiste na constante interação com potenciais consumidores para coleta de evidências que irão validar ou invalidar as hipóteses da equipe empreendedora. Este método reduz as incertezas de investimento enquanto fornece novas e mais qualificadas informações para tomada de decisão.
Na vanguarda da inovação, a autora Ann Mei Chang, especialista em inovação social, valida o modelo de teste e validação constantes, mas guiados pela visão de transformação causada pelo negócio, ou seja, o propósito transformacional da equipe fundadora; esta clareza sobre porque se faz o que se faz auxilia stakeholders a criar soluções de mercado efetivas para problemas socioambientais complexos.
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2. Visite suas crenças sobre dinheiro e prosperidade
Dinheiro é um instrumento socialmente construído, e um tabu no núcleo familiar brasileiro. A forma como cada mãe e pai desenvolveu sua vida financeira irá impactar a vida adulta de um indivíduo – e não seria diferente com a vida empreendedora, especialmente entre aqueles com propósito ou sociais que tendem a ter crenças limitantes sobre os resultados financeiros de seus negócios.
Gosto especialmente da definição de prosperidade versus riqueza para nos auxiliar nessa reflexão. Prosperidade é, para além de geração de riqueza para si, ser capaz de estar em um estado de geração de bem-estar (saúde, disposição, vitalidade), bem-viver (realização pessoal, profissional e financeira) e bem-querer (família, amigos, contribuição para a sociedade) para todos. Este estado mental contribui para pensar em rede, em soluções ampliadas e em como gerar valor compartilhado para toda a cadeia no qual o negócio está inserido.
Um exemplo: um grupo de empreendedores engajados com fontes de energia renováveis percebe que o custo do gás de cozinha está aumentando, afetando especialmente os custos variáveis de restaurantes de determinada região. Decide então oferecer uma solução inovadora para o local: o biogás, um combustível feito a partir da fermentação anaeróbica de matéria orgânica de origem vegetal ou animal. Neste processo, os empreendedores coletam matéria orgânica de indivíduos e dos próprios restaurantes para a produção do biocombustível. Com isso, melhoram a coleta dos moradores e restaurantes da região ao mesmo tempo que ofertam uma solução mais barata e sustentável para seus clientes.
Negócios como este produzem benefícios que excedem o contexto dos custos do restaurante. Ao conscientizar moradores, restaurantes e coletores e ao desenvolver treinamentos a respeito do biogás, provocam mudanças em toda cadeia de fornecimento. São estes negócios, que impactam para além do seu cliente final, que estão gerando novas e melhores conexões entre atores.
3. O mundo é do tamanho do seu conhecimento
São diversas as habilidades que um empreendedor precisa desenvolver, e talvez, o mais belo da experiência humana é nossa constante capacidade de aprender. A Dra. Barbara Oakley, professora de engenharia da universidade de Oakland, desenvolveu um curso que discorre sobre como aprender com alguns insights providos pelo avanço da neurociência. Por exemplo: existem dois estados mentais de aprendizagem: o focado, quando o aprendiz se debruça sobre determinado material, e o estado difuso, quando o cérebro consolida as informações absorvidas e é capaz de produzir insights a partir de conexões não óbvias. Estabelecer uma rotina de atenção e difusão de forma alternada é uma estratégia importante para aprender mais e melhor.
Depois de aprender a aprender, a lista de conhecimento a ser adquirido pelo empreendedor nunca acaba, e nem deveria. Por isso é importante incorporar na rotina hábitos que tragam novos aprendizados de forma leve e divertida: novos livros, podcasts, masterclasses e conexões com parceiros empreendedores.
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4. Fazer o essencial de forma bem-feita
Mas como organizar tantas demandas em uma agenda limitada? O autor Greg Mckeown estudou as maiores lideranças inovadoras para produzir insights valiosos. Compreender quais são as atividades essenciais a serem desenvolvidas nos auxilia a retomar a autonomia sobre nossas agendas, energia e esforços para realizar contribuições exponenciais. Após compreender o que é essencial, precisamos compreender como realizar estas atividades de forma a garantir bem-estar e eficiência.
Em seu último best-seller Mckeown destrincha a cultura do burn out em nosso mercado de trabalho, uma cultura que reforça padrões como “se é fácil não é importante”. Ao contrário do que fomos ensinados, podemos encontrar caminhos facilitados e até divertidos para resolver tarefas essenciais. O autor deixa-nos então com uma ótima provocação: “se está difícil é porque você ainda não encontrou um jeito mais eficiente de fazê-lo” e uma sugestão: transformar rotinas em rituais, ou seja, momentos em que a recompensa por realizar a atividade está mais próxima do presente. Quando ritualizamos uma tarefa, agregando a esta sentido para além da tarefa em si, tendemos a atuar em um estado de não esforço, quase meditativo, no qual desocupamos nossa mente de ruídos externos para entrar em estado de atenção plena.
5. Saiba onde quer chegar e como se manter na direção correta
Na medida em que o negócio cresce, os desafios de gestão tendem a ser um gargalo relevante. Felizmente, a cultura lean nos ensina a fazer esta gestão de forma barata e rápida. Este método de trabalho ágil é um dos conhecimentos que os startupeiros estão ensinando ao mundo corporativo. Para isso, uma boa delimitação de quais são seus objetivos e resultados chave a serem atingidos dentro de um ano e como eles se desdobram em metas trimestrais são essenciais. A metodologia de OKRs (Objective and Key Results) auxilia a organizar as pequenas vitórias para que o objetivo principal seja alcançado.
Os OKrs promovem transparência e alinhamento quanto a visão estratégica da organização e para implementá-lo é necessário compreender qual seu objetivo (onde quero ir) e que resultados-chave indicam que a trajetória está sendo mantida.
Esta organização processual da estratégia é um recurso que auxilia a colocar a atenção no não-superfluo. Outras ferramentas facilmente disponíveis podem incrementar o bem-estar da organização e da rotina empreendedora – como calendários compartilhados, ferramentas de comunicação interna de equipes, ferramentas de gestão de tarefas e de gestão do conhecimento.
Por fim, empreender, assim como viver, é compreender que a jornada é individual, no sentido de gerar constante reflexão, autoconhecimento e auto superação; mas pode ser muito mais divertida e frutífera quando compartilhada. Espero que possamos compartilhar cada vez mais na próxima esquina do seu empreender!