A geração alfa, nascida à partir de 2013 vai ingressar na pré adolescência de mãos dadas com a mais disruptiva das ferramentas já criadas pelo homem: a Inteligência Artificial – Imagem: Freepik
ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
A segunda guerra mundial deu início a uma mudança profunda no jeito de viver no mundo. A geração nascida nos 20 anos seguintes, os chamados Baby Boomers , foi impactada por um capitalismo vibrante, focado em bens de consumo não duráveis – automóveis e eletrodomésticos – que tornaram a vida mais atraente, fácil e divertida. Ao mesmo tempo, entretanto, a bipolarização gerada pela Guerra Fria e o espectro da guerra nuclear criou uma narrativa de inimigos ocultos, ameaças disfarçadas, que alimentaram o imaginário de medo que permeou este período. Entre os anos 50 e até meados dos anos 80, o propósito da vida, o que chamamos de “sucesso” estava relacionado ao trabalho e a poupança, a compra da cada própria, o automóvel , a viagem com a família, os filhos na universidade. E todos queriam testar essa receita, o que implicava em uma disputa por um cobertor curto de recursos disponíveis, acarretando em tensões sociais , raciais e de gênero que emergiram em episódios memoráveis.
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A Ciência , particularmente a cibernética, foi ditando as transformações das gerações seguintes: a geração X e os Millennials viveram a transição tecnológica, vendo o surgimento do computador, do celular, e, por fim, da internet, e todas as novas inscrições que esses recursos provocavam na vida de todos. A possibilidade de ingressar em um mundo on line, de desterritorializar o lugar do trabalho, de eliminar o espaço e comprimir o tempo quase a zero virou o mundo de cabeça pra baixo. Novos empregos surgiram e outros tantos deram adeus. Os mais velhos, pela primeira vez na História, não eram mais os detentores do saber acumulado pela experiência da repetição. Na verdade, eram. Só que esse saber já não fazia mais sentido para as novas gerações. Pelo contrário, agora era a vez de os jovens ensinarem os mais velhos. E demonstrarem a mesma irritação e impaciência que sofreram. A tradição se esgarçou e começou a romper em vários pontos: empregos de uma vida toda? Não! Casamento para sempre, mesmo que sem amor? Nem pensar. Endividar-se para comprar uma casa e ter a garantia de um teto sobre a cabeça? Para quê? A nova geração é fluida como as informações que circulam velozmente nas máquinas novas que vieram para reconfigurar o mundo. Mas ainda não era tudo. Era só o começo.
A geração Z, dos nascidos entre 1997 e 2012, foi a primeira geração nativa digital. Inteiramente cercada de ferramentas virtuais, mergulhada de cabeça no universo online, viu a realidade de uma maneira diferente de nós, baby bommers. Por isso a comunicação inter geracional tornou-se mais difícil do que nunca. O etarismo virou expressão comum e os novos usuários do mundo digital não querem mais ter profissão, formar família ou fixar-se em um só lugar. Querem, porém, que mantenham seu planeta limpo e não questionem suas formas de se enxergar, se cis, trans, bi ou fluido. Se tudo muda, o corpo também muda, e as vontades, os interesses. Para essa geração o futuro encurtou de uma forma nunca vista, virando só uma linha , quase invisível, grudada ao presente. A razão é simples: o futuro já chegou. Mas ainda havia mais surpresas. E das grandes.
A geração alfa, nascida à partir de 2013 vai ingressar na pré adolescência de mãos dadas com a mais disruptiva das ferramentas já criadas pelo homem: a Inteligência Artificial. Ideias antigas, como procurar coisas nos sites de busca, ou mais remotas ainda, como buscar informações em um livro, correm o risco de desaparecer antes que essa geração chegue a se tornar adulta. Aliás, a ideia de se tornar adulto também se transformou . Os 20 são os novos 15, e a juventude começa aos 35. Ser velho tornou-se uma admissão de fracasso e não a descrição de um fato. Sair de casa deixou de ser projeto e arranjar emprego fixo soa estranho para os ouvidos dos “z” e dos “alfa” (geração alfa).
Qual é o desafio desses tempos e desses novos humanos? Penso que é o de aprender a significar toda essa experiência que vivem e que os cerca. Lembremos que, até aqui, as instituições políticas, jurídicas, educacionais, morais ( em grande parte) são as ditadas pelos mais velhos. E sabemos que não se coadunam com os novíssimos tempos. Pelo contrário, resistem a eles, fecham a cara, renegam essas mudanças . Mas a força do novo é irresistível. E aí mora o perigo: o novo pode jogar por terra água e o bebê, documentos velhos e fotos únicas da família, músicas antigas e Democracias, velhos hábitos alimentares e marcos Civilizatórios. E tudo isso pode ocorrer antes que esses jovens sejam capazes de construir novos signos de referência para tornar sua existência uma narrativa transmissível e minimamente sustentável socialmente.
Nós mais velhos, agarramo-nos aos nossos conceitos e referenciais, como a boa e velha Filosofia e a sempre prestativa Literatura. E esses novos habitantes do mundo, onde encontrarão referenciais, paradigmas para criar as narrativas de suas vidas? Somada esta enorme dificuldade com a possível inutilidade para um mundo do trabalho cada vez mais mecanizado – o que deve acarretar na formação de exércitos intermináveis de Nem-Nems – o que farão de suas vidas? Dissolver-se-ão no mundo online? Emudecerão, por falta de vocabulário comum, a tal ponto que não serão capazes de reconhecer nenhuma mediação simbólica básica da vida comum? Será?
Esse é o desafio, senhores. Para eles, para todos nós.
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
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