A jornalista Eleni Gritzapis e o convidado Eduardo bastos gravando para o greenTalks – Imagem: Divulgação
Por – Eleni Gritzapis, especial para Neo Mondo
O mais novo episódio do greenTalks entrevista uma grande referência em mercado de carbono no agro brasileiro, Eduardo Brito Bastos.
Edu Bastos, como é conhecido, tem um currículo impressionante: presidente do Conselho da Climate Connection, sócio no fundo de investimentos 10B, professor associado do Cumbre Agro, líder do Comitê de Sustentabilidade da Associação Brasileira de Agribusiness (ABAG) e co-líder do fórum de Mercado de Carbono da Coalizão Brasil Florestas Clima Agricultura, além de ser conselheiro no Conselho de Agronegócio da FIESP.
O greenTaks é uma iniciativa pioneira entre a green4T e NEO MONDO para discutir o papel fundamental da tecnologia na promoção de um futuro mais sustentável.
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Confira os principais trechos da entrevista e assista a íntegra abaixo:
(greentalks) – Existe uma percepção quase generalizada no meio urbano de que a produção agrícola e a conservação ambiental são incompatíveis e de que apenas a agricultura orgânica e familiar são sustentáveis. Como podemos superar essa dicotomia?
A população, com o tempo, foi ficando cada vez mais urbana a partir da década de 70. Naturalmente, isso afasta as pessoas daquele dia a dia no campo, o que era normal para pessoas mais idosas e para muita gente que ainda mora no interior, de você ver o animal morrer, de você matar uma galinha em casa, limpá-la. Hoje em dia, a gente nem fala mais galinha, fala frango.
O próprio modelo mental vai se ajustando a uma escassez visual da comida e a alimentação passa a ser, então, uma coisa que vem do supermercado, vem da feira e não do campo. E essa falta de conexão, obviamente, traz, muitas vezes, esse olhar distinto e, definitivamente, temos o desafio de reaproximar o mundo agro da cidade, trazer o ruris para a urbis, e fazer essa integração melhor para que as pessoas entendam os desafios que é produzir alimento, fibra, energia e como fazer isso de maneira cada vez mais sustentável.
(greenTalks) – Ainda na esfera dos mitos, já faz muitos anos que os produtores rurais brasileiros vêm adotando técnicas e tecnologias para uma agropecuária de baixo carbono. Aliás, o Brasil se destaca como líder e protagonista na economia de baixo carbono, segundo um estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Conta para nós sobre o que já está sendo feito – e poucos sabem – e quais são as principais tendências para os próximos anos.
O Brasil foi o primeiro país do mundo a ter um plano nacional de descarbonização da agricultura – e ainda hoje um dos poucos que têm isso dentro de um plano governamental, o ABC – Agricultura de Baixo Carbono. A iniciativa tem como objetivo ajudar a reduzir as emissões na agricultura e aumentar a captura de carbono, por meio de tecnologias como plantio direto, por exemplo, que consiste em plantar em cima da palha, ao invés de revolver o solo com arado ou grade.
Temos hoje mais de 80% dos campos brasileiros baixo em carbono. Se compararmos com um dos maiores produtores do mundo, que é os Estados Unidos, provavelmente o nosso maior competidor, estamos falando de um país que que tem uma taxa ao redor de 30%. É muito discrepante a diferença da vanguarda do Brasil, mas obviamente não significa que a gente precisa fazer nada.
Nosso principal desafio atualmente é o Plano Nacional de Conversão de Passagens Degradadas, um decreto que foi assinado em janeiro de 2024, super recente. E ele tem como objetivo dobrar a área de grãos do País, usando 100% de áreas que já foram convertidas e que hoje são pastos degradados, sem abrir fronteiras novas. É zero desmatamento, independente se é legal ou ilegal, para ter captura de carbono e ter produção de alimento.
(greenTalks) – O mercado de carbono na agricultura brasileira tem um enorme potencial para contribuir para a mitigação das mudanças climáticas e para a diversificação da renda dos produtores rurais. No entanto, ainda há desafios a serem superados para que o setor alcance todo o seu potencial. Você sempre afirma que sem métricas claras não iremos avançar muito na agenda de carbono no agro e que precisamos de mais ciência, regulação e financiamento para uma transição mais rápida (e justa). Na sua visão, como será possível superar estes desafios no curto prazo?
Primeiro, sem dinheiro, não vamos conseguir fazer na velocidade que isso precisa ser feito. O financiamento tem o poder de fomentar a mudança. Se eu dou uma taxa de juros menor para quem faz mais certo, fomento as pessoas que estão ali pensando: será que eu planto um sistema florestal ou faço um plantio solteiro, uma cultura só? Se naquela cultura ele tem, por exemplo, uma taxa de juros de 10%, na outra ele tem de 8%, você fomenta, através de um dinheiro mais barato, essa mudança comportamental.
E para isso também que serve a política pública. Obviamente, não é todo dinheiro público, isso é importante ter o que a gente chama de blended finance, isto é, você tem dinheiro que é público, tem dinheiro que é privado nessa ideia de fomentar a transição.
E por que ciência é importante? Porque as regras do mercado de carbono foram feitas com um olhar de clima temperado, com um olhar de um país que neva, de um olhar de um país onde as maiores emissões estão em transporte e em indústria. O Brasil é um país distinto. Não tem certo ou errado, mas a realidade é que mais da metade das nossas emissões estão ligadas ao desmatamento, 25% está ligado à agricultura e 25% em todo o restante. É mais ou menos o oposto da maioria dos países do Hemisfério Norte.
E quando olhamos esses dados internacionais, esquecemos que não podemos correlacionar, porque são realidades distintas. E isso tem um impacto, obviamente, em termos de produção. No Brasil, temos o sistema ILPF – Integração, Lavoura, Pecuária e Floresta. Em pouquíssimos lugares do mundo, você consegue fazer isso. Nos Estados Unidos, na Europa, no Japão, na China, ou você planta, ou você faz pecuária, ou você faz floresta. Nós conseguimos fazer os três ao mesmo tempo. Então, claro que isso demanda um olhar diferente de ciência para validar esses protocolos, para que a gente entre no jogo jogando igual, né? Porque, do contrário fica mais difícil jogar e muito mais difícil ganhar esse jogo.
(greenTalks) – Quais são as tendências emergentes e as oportunidades que os produtores devem estar atentos?
Eu olharia, com certeza, a agricultura regenerativa, um tema hoje cada vez mais importante. Estamos falando de bioinsumos, de plantio direto, de fixação biológica de nitrogênio, ou seja, reduzir nitrogênio químico, colocar microrganismos que vão fazer a captura, então essa é uma área super importante.
A segunda área é o mercado de carbono, que vai deslanchar cada vez mais, o mundo precisa disso. Mas mesmo para quem não acredita, o Brasil assinou um acordo um acordo vinculante na Conferência das Partes e precisa fazer, o Brasil como país acredita. Então é uma oportunidade que está dada para o mundo.
E o terceiro é a digitalização, a inteligência artificial, quer dizer, todas essas áreas ligadas a essa fronteira que está vindo para fazer tudo, desde modelos de predição de safra, de clima. Vai chover mais ou vai chover menos? Isso tem impacto no tipo de cultura, no tipo de manejo, seguro agrícola, levantar dinheiro. Vou plantar uma cultura que não é viável para aquela região? A tecnologia mostra que não deveria fazer isso. Mas se em 10 anos aquela região se transformar de tal maneira que ela vai ser viável? E aí, eu faço ou não faço? Ou eu tento segurar?
Essas ferramentas digitais vão ajudar muito a gente, já ajudam hoje, mas estamos só no começo dessa transformação e, particularmente no agro, temos um espaço gigantesco para crescer.
(greenTalks) – Como está o mercado de carbono no Brasil e no agro? Como ele está hoje em questão de cifras, de comercialização de créditos e qual é o potencial disso num futuro próximo?
Hoje praticamente não existe. O que vemos são pequenos negócios sendo feitos por alguns traders, algumas empresas do setor, grandes empresas de alimentos que têm projetos dentro da sua cadeia de valor com produtores, por exemplo, grandes empresas de café, torrefadoras, fazendo projetos com produtores na base e aí pagando um extra ou na saca. A maioria está fazendo ainda por produto, não pagando carbono direto.
Mas você já tem hoje cooperativas grandes onde o produtor está recebendo de 20% até 50% a mais no valor da saca por causa dessa agenda de carbono, chamada até agora muito mais de agricultura regenerativa até do que só “carbono”.
O interessante é quando olhamos para o futuro. O ICC (Câmara Internacional de Comércio) publicou um estudo em 2023 mostrando um potencial próximo a US$ 100 bilhões no Brasil. É muito dinheiro, é mais que o PIB de muitos estados do País. Temos um potencial dentro de agricultura – e quando falamos de agricultura é lato sensu inclui pecuária e floresta obviamente – de pelo menos 30%, 40% dentro desses US$ 100 bilhões.
Temos uma oportunidade incrível de mercado de carbono. No plano nacional de conversão de passagens degradadas, estamos falando de uma captação de US$ 120 bilhões para investir, para recuperar essas áreas e que podem gerar até US$ 500 bilhões a mais ao PIB brasileiro. Essa é a beleza do mercado de carbono, ele é uma alavanca, uma mola propulsora para uma série de outros benefícios que virão anexos a essa agenda de carbono e são nesses benefícios que estão os grandes ganhos do país, um outro potencial de ganho e, inclusive, de posicionamento mundial da agricultura brasileira.
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