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A carne passou na auditoria: 133 mil bois irregulares e o elo que o MPF ainda não vê

Escrito por Neo Mondo | 25 de agosto de 2026

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Carne e floresta dividem a mesma cerca: de um lado a mata em pé, do outro o pasto onde o gado avança, a linha exata que a auditoria do TAC nem sempre consegue enxergar - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

O Ministério Público Federal divulgou em 20 de agosto, na sede da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso, em Cuiabá, os resultados do 3º Ciclo Unificado de Auditorias do TAC da Carne, o acordo firmado desde 2009 entre o MPF e os frigoríficos que operam na Amazônia Legal. Os grandes nomes passaram. JBS, Minerva, Frigol e a MBRF, antiga Marfrig, apareceram sem irregularidades ou muito perto dos 100% de conformidade no cômputo geral. O setor comemorou, e a leitura que circulou foi a de um sistema que finalmente funciona. Os números, lidos por inteiro, contam uma história menos redonda.

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A auditoria examinou os documentos de 1.779.823 animais comprados entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024 no Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. Desses, 7,5% — o equivalente a 133.751 cabeças — apresentavam evidências de irregularidades: desmatamento ilegal, invasão de terras públicas, embargo ambiental, sobreposição a unidades de conservação ou a terras indígenas, trabalho análogo à escravidão. Não são casos difusos espalhados por pequenos abatedouros. São 133 mil animais que entraram na cadeia econômica da carne na Amazônia, auditados, contados, e ainda assim irregulares. A conformidade quase perfeita das grandes empresas e esse volume de gado problemático coexistem no mesmo relatório porque medem coisas diferentes.

O limite está no desenho da checagem. A auditoria alcança apenas os fornecedores diretos, as fazendas de engorda que vendem o boi diretamente ao frigorífico. O que fica de fora é o elo onde a ilegalidade se dissolve: o comércio de lavagem de gado. O mecanismo é conhecido e eficiente. O animal nasce e é criado numa área com desmatamento ilegal ou dentro de uma unidade de conservação, é transferido para uma fazenda regularizada semanas antes do abate, e chega ao frigorífico com documentação limpa, como se toda a sua vida tivesse transcorrido em terra legal. A auditoria vê a última fazenda, a legal. Não vê a primeira, a ilegal. O boi passa, o dado fecha, e a floresta que foi derrubada para criá-lo não aparece em lugar nenhum da planilha.

A escala desse ponto cego apareceu no mesmo mês, em outro documento. Uma auditoria à parte, também baseada em cruzamento de dados públicos, apontou que o frigorífico Irmãos Gonçalves, o maior de Rondônia e o sexto maior da Amazônia Legal, pode ter abatido 260 mil cabeças criadas em fazendas com desmatamento, trabalho escravo ou indícios de lavagem de gado. Mais de um terço das transações da empresa apresentava algum tipo de inconsistência. O Irmãos Gonçalves já havia sido condenado pela Justiça em 2024, ao lado do Distriboi e de três pessoas físicas, ao pagamento de R$ 4,2 milhões por desmatamento ilegal e criação de gado dentro da Reserva Extrativista Jaci-Paraná. A comparação entre os dois documentos é instrutiva. Onde a auditoria oficial do TAC examina o fornecedor direto e encontra conformidade, o cruzamento automatizado que persegue a origem do animal encontra um passivo que a primeira metodologia não foi construída para enxergar.

O próprio MPF reconhece a fronteira e sinaliza para onde pretende avançar. Para os próximos ciclos, o órgão planeja expandir o cruzamento automático de dados até alcançar os fornecedores indiretos, notificando as empresas sobre as inconsistências detectadas ao longo de toda a cadeia. É a admissão, em linguagem institucional, de que o sistema atual audita a superfície e deixa o subsolo intocado. Enquanto esse alcance não chega, a conformidade divulgada mede o rigor do frigorífico sobre a última transação, não a legalidade da vida inteira do animal.

Para quem lê a pecuária como fator de risco — investidor, comprador internacional, formulador de política de crédito rural —, a distinção entre o que a auditoria afirma e o que ela consegue verificar deixou de ser detalhe técnico. Compradores europeus e asiáticos que condicionam contratos à origem livre de desmatamento não se satisfazem com a conformidade do elo direto, porque é justamente no elo indireto que o risco reputacional e regulatório se acumula. A cada ciclo em que o método não alcança os indiretos, os 7,5% de irregularidade nos diretos funcionam como piso, não como teto: é o mínimo que a auditoria consegue ver, com o restante protegido pela transferência que apaga o rastro. O número que a indústria exibe é verdadeiro. O que ele não cobre é o que ainda define o tamanho real do problema.

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