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Brasil perde 14 pontos de vegetação nativa em 41 anos e fica mais exposto ao El Niño

Escrito por Neo Mondo | 12 de agosto de 2026

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Brasil mapeado ano a ano desde 1985: a Coleção 11 do MapBiomas cobre 41 anos de cobertura e uso da terra, com 33 classes e quatro estreias - Imagem: MapBiomas/Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas, apresenta os dados da Coleção 11. Vídeo: MapBiomas/Divulgação

O MapBiomas lançou nesta quarta-feira, 12 de agosto, a Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil. A série cobre 41 anos, de 1985 a 2025, e mostra a vegetação nativa recuando de 79% para 65% do território nacional. A agropecuária fez o percurso inverso, de 18% para 32%. O dado que reorganiza a leitura, porém, veio do cruzamento com o módulo MapBiomas Atmosfera: nos três eventos recentes de El Niño forte, a maior redução de chuvas do país aconteceu nas áreas de agropecuária da Amazônia, 178 milímetros abaixo da média climatológica. O próximo teste já começou. Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas, associa a desaceleração recente do desmatamento a um ritmo menor de transformação da paisagem, mas observa que "muitas regiões do Brasil já passaram por mudanças profundas nas últimas quatro décadas", com efeito direto sobre a resposta a extremos climáticos como o El Niño iniciado em 2026.

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O método do cruzamento é específico. A equipe comparou a série histórica de cobertura e uso da terra com as anomalias de precipitação entre setembro e novembro durante os El Niños de 1997/98, 2015/16 e 2023/24, tomando como referência a média climatológica de 1991 a 2020 em anos sem evento forte. É nesse trimestre que os extremos de chuva se manifestam com mais força no Brasil. Os dados de precipitação vêm do GPCC e do GPM, integrados ao MapBiomas Atmosfera.

O resultado tem geografia. A Amazônia registrou o maior déficit de chuva entre os biomas nos três eventos, e a maior perda concentrou-se onde a floresta já havia dado lugar a pasto e lavoura: a referência de precipitação para as áreas de agropecuária no bioma é de 375 milímetros no trimestre, contra 425 milímetros nas áreas de vegetação nativa. No Cerrado e na porção norte da Mata Atlântica, a seca se acentua a cada novo El Niño, e aí a perda maior recai sobre as áreas de vegetação nativa. Na Caatinga, os três eventos produziram redução superior a 50% em relação à média climatológica do bioma. No Pantanal, 2024 foi o ano mais seco da série mapeada. No Sul, o sinal se inverte: o Pampa e a Mata Atlântica meridional receberam excesso de chuva, e no último El Niño choveu o dobro no Pampa.

Excesso também cobra preço. Em dois dos três eventos analisados, o volume extra no Pampa foi maior nas áreas agropecuárias do que nas de vegetação nativa. Eduardo Vélez, da equipe do Pampa no MapBiomas, aponta que essa chuva concentrada "provoca, em muitos casos, perdas nas lavouras e erosão dos solos agrícolas", quadro agravado pela retirada da vegetação que segurava o solo e favorecia a infiltração.

O mapa que serve de base a essa leitura mudou de forma desigual. A Formação Florestal segue como a principal cobertura natural do país, com 359,5 milhões de hectares em 2025, ou 42,3% do território, e também foi a que mais perdeu área em números absolutos: 65 milhões de hectares em 41 anos, queda de 15%. A Formação Savânica perdeu 46 milhões de hectares, o que representa 30% do que existia em 1985 e a maior perda proporcional entre as coberturas nativas. A Formação Campestre recuou 6,3 milhões de hectares, e os campos alagados e áreas pantanosas, outros 3,2 milhões.

Do outro lado da conta, a agropecuária passou de 150,2 milhões para 273,3 milhões de hectares. A pastagem responde por 60,6% desse total, com 165,6 milhões de hectares, e incorporou 61,6 milhões desde 1985, embora esteja praticamente estável desde 2006, com crescimento anual abaixo de 1,5 milhão de hectares. A agricultura subiu de 18,6 milhões para 66,5 milhões de hectares, expansão de 258%. A soja explica a maior parte desse movimento: saiu de 4,5 milhões para 44,2 milhões de hectares e ocupa hoje 66,5% de toda a área agrícola brasileira. A cana passou de 2,2 milhões para 11,1 milhões. A silvicultura, de 1,9 milhão para 9,9 milhões, crescimento de 427%.

Um terço do território brasileiro, 285 milhões de hectares, passou por ao menos uma mudança de classe ao longo dos 41 anos. Na comparação direta entre as pontas da série, 241 milhões de hectares aparecem com classificação diferente em 2025 em relação a 1985, e 136 milhões desses, ou 56%, correspondem a vegetação nativa convertida em agropecuária. Essa é a transição dominante na Amazônia, onde responde por 55 milhões de hectares, o equivalente a 83,6% de tudo o que mudou no bioma, e no Cerrado, com 52 milhões de hectares, ou 59,4%. Caatinga e Mata Atlântica registram as maiores áreas no sentido oposto, com 4,4 milhões e 6,2 milhões de hectares que voltaram de uso agropecuário para vegetação nativa.

O que não mudou também informa. Dos 566 milhões de hectares que atravessaram quatro décadas na mesma classe, cerca de 88% correspondem a áreas naturais, e 334,6 milhões são Formação Florestal. A estabilidade do território brasileiro está, em larga medida, no que nunca foi convertido.

Entre os biomas, Amazônia e Cerrado concentram as maiores perdas absolutas de vegetação nativa, com 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares. Em termos proporcionais, a ordem se altera: Cerrado e Pampa lideram, com quedas de 34% e 32%. Amazônia e Pantanal continuam sendo os biomas com maior proporção de cobertura nativa, ambos acima de 80%. A Mata Atlântica teve a menor redução proporcional do período, 12%, e ainda assim é o bioma com menos vegetação nativa remanescente, 32%, porque a maior parte de sua supressão ocorreu antes do alcance das imagens de satélite.

Na escala estadual, 25 estados e o Distrito Federal reduziram a participação da vegetação nativa. O Rio de Janeiro foi a única exceção, com ganho de 1%. Rondônia registrou a queda mais acentuada, de 92% para 59% do território. Maranhão passou de 91% para 61%, Mato Grosso e Tocantins, de 90% para 61%. Em 2025, Amapá e Amazonas mantinham 95% de cobertura nativa, e Roraima, 92%. Na outra ponta, Sergipe tinha 22%, e Alagoas e São Paulo, 21% cada. A agropecuária, que predominava em 46% dos municípios brasileiros em 1985, predomina agora em 59%. Em 744 municípios, a vegetação nativa deixou de ser a cobertura principal.

A Coleção 11 estreia quatro classes de mapeamento, e uma delas já nasce com série própria de perda. A savana alagada, típica das planícies de inundação do Pantanal, caiu de 1,097 milhão de hectares em 1985 para 174 mil em 2025, redução de 84%. Cerca de 833 mil hectares migraram para formação savânica e campestre, transição associada à dinâmica de seca do bioma. As marismas, áreas pantanosas de água salobra, entram em versão beta e apenas no litoral do Pampa, com 6,9 mil hectares mapeados. Também estreiam a formação herbácea ou arbustiva e os parques eólicos.

A infraestrutura de energia renovável ganhou escala visível por satélite. As usinas fotovoltaicas ocupavam 43,3 mil hectares em 2025, 38 vezes mais que em 2016, com 63% da área na Caatinga e 16,3 mil hectares apenas em Minas Gerais, que multiplicou por 133 sua área na década. Os parques eólicos somavam 28,7 mil hectares, seis vezes mais que em 2016, e 85% deles também estão na Caatinga.

A tendência recente do desmatamento é de queda. Em 2025, o Brasil registrou menos de um milhão de hectares desmatados pela primeira vez desde o início da série do MapBiomas Alerta, em 2019, resultado de uma redução de 20,6% sobre o ano anterior. O acumulado, porém, não se desfaz. Nas áreas de agropecuária da Amazônia, a referência de chuva entre setembro e novembro é de 375 milímetros. No El Niño de 2023 e 2024, faltaram 178 deles.

foto da capa da coleção 11 do mapbiomas, remete a matéria Brasil perde 14 pontos de vegetação nativa em 41 anos e fica mais exposto ao El Niño
Imagem: MapBiomas/Divugação

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