Agronegócio Amazônia Destaques Economia e Negócios
Escrito por Neo Mondo | 28 de agosto de 2026
Amazônia vista do alto, uma clareira aberta a poucos metros da margem do rio revela onde a floresta cede e o modelo de financiamento público continua intacto - Foto: Bruno Kelly / Amazonia Real
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO
De cada R$ 1.000 de crédito agrícola concedido no Brasil, cerca de R$ 4 foram para as linhas socioambientais do Pronaf, agroecologia, bioeconomia e florestas. São 0,4% do total, e 4,3% do volume do próprio Pronaf, no ano-safra 2023/2024. O número abre o artigo que pesquisadores da FGV EAESP, do Instituto Juruá, do Inpa e da Universidade de Manchester publicaram nesta quinta-feira, 27 de agosto, na PLOS Climate, e sustenta a tese do texto: a Amazônia não carece de alternativas produtivas, carece de dinheiro público direcionado a elas.
Leia também: Brasil perde 14 pontos de vegetação nativa em 41 anos e fica mais exposto ao El Niño
Leia também: Desmatamento em queda recorde: o dado que não blindou o Brasil das tarifas de Trump
Do outro lado da balança, a escala é outra. Entre 2013 e 2025, mais de 90% do crédito rural brasileiro foi para médios e grandes produtores, e menos de 10% chegou a pequenos agricultores por programas como o Pronaf. Só no ano-safra 2024/2025, foram US$ 148,75 bilhões para a produção em larga escala contra US$ 15,32 bilhões para a agricultura familiar. A assimetria não se limita ao crédito. O Novo PAC destinou US$ 13,29 bilhões a infraestrutura de transporte voltada ao escoamento de commodities, sem previsão de recursos para territórios tradicionais ou cadeias da sociobiodiversidade. Na pesquisa agropecuária, a Embrapa recebeu US$ 951,85 milhões em 2024, enquanto a Anater, responsável pela assistência técnica à agricultura familiar, ficou com US$ 14,22 milhões, o equivalente a 1,5% do orçamento da primeira.
A contradição aparece quando se cruza esse desenho com as emissões. Em 2023, o agronegócio respondeu diretamente por 27,5% dos gases de efeito estufa emitidos pelo Brasil, e a mudança de uso da terra puxada pela expansão agrícola somou outros 46,2%, mais de 70% do total nacional. Os setores que mais recebem recursos públicos são os que mais degradam.
Enquanto isso, os modelos comunitários acumulam evidência. Um estudo publicado na Nature Sustainability em setembro de 2025 mediu o alcance real do maior arranjo de manejo pesqueiro comunitário da Amazônia, num trecho de 1.200 quilômetros do rio Juruá, no Amazonas. O arranjo nasceu pequeno e assim continua no papel: 13 lagos, com média de 47 hectares cada. A vigilância exercida pelos moradores, porém, não para na margem do lago. A área efetivamente protegida chega a 11.188 hectares em média, 36 vezes maior que a área manejada, a um custo de US$ 0,95 por hectare ao ano, integralmente bancado por famílias de baixa renda. É proteção territorial em escala industrial, financiada por quem tem menos.
O ganho social também está medido. Em trabalho publicado no PNAS em 2021, a mesma linha de pesquisa mostrou que viver dentro de uma unidade de conservação de uso sustentável era o maior preditor de riqueza domiciliar, à frente de transferências de renda e do tamanho da família, e que apenas 5% dos adultos residentes nessas áreas manifestavam intenção de migrar para as cidades.
"Se não mudarmos o modelo de financiamento, para dar mais apoio às cadeias sustentáveis, não conseguiremos resolver os problemas de desenvolvimento social e econômico da Amazônia e zerar o desmatamento", diz José Antonio Puppim de Oliveira, professor titular da FGV EAESP e um dos autores. O artigo aponta que essas iniciativas sobrevivem de cooperação internacional, filantropia e trabalho mal remunerado, o que corrói sua viabilidade de longo prazo e afasta os mais jovens do setor.
O ciclo de crédito em vigor repete o padrão descrito no estudo. O Plano Safra 2026/2027 reservou R$ 525,1 bilhões à agricultura empresarial, contra R$ 85,2 bilhões para as operações do Pronaf. Há taxas melhores para quem produz na floresta: 1% ao ano para sistemas agroecológicos, produção orgânica e produtos da sociobiodiversidade. O gargalo está no acesso. No primeiro semestre do plano anterior, o Norte registrou 57,8 mil operações do Pronaf, e mais de 85% delas foram para a pecuária, segundo o Observatório das Economias da Sociobiodiversidade. Ou seja: mesmo o crédito desenhado para a agricultura familiar chega à Amazônia financiando boi.
A queda do desmatamento não alterou esse arranjo. O Inpe divulgou em 7 de agosto que os alertas do Deter na Amazônia somaram 2.874,38 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026, contra 4.495 km² no ciclo anterior, queda de 36,87% e o menor nível da série iniciada em 2016. Ane Alencar, do Ipam, atribui o resultado a fiscalização mais atuante, embargos remotos, restrição de crédito a desmatadores e repasses a municípios. A lista descreve um sistema de freio, não de propulsão. Cada item corta a rentabilidade de derrubar a floresta, nenhum aumenta a de mantê-la em pé. É a diferença entre encarecer o desmatamento e financiar o que vem depois dele, e explica por que a curva pode voltar a subir sempre que a fiscalização afrouxar.
O mesmo vale para o principal legado financeiro da COP30, realizada em Belém em novembro de 2025. Os pesquisadores tratam a Tropical Forest Forever Facility como mecanismo complementar, e não estruturalmente transformador: com retorno projetado de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões por ano, sua escala é pequena diante dos subsídios domésticos que seguem empurrando a fronteira agrícola. A captação confirma a leitura. O aporte norueguês de US$ 3 bilhões está condicionado a que o fundo reúna ao menos US$ 10 bilhões até dezembro, e o único país a confirmar contribuição desde a COP30 foi Luxemburgo, com 50 milhões de euros anunciados em 5 de junho.
Resta a aritmética política. Dos 513 deputados federais, 324, ou 63%, integram a Frente Parlamentar da Agropecuária. Quatro são indígenas. "Enquanto o Congresso Nacional, responsável por aprovar o orçamento federal e por criar e alterar as leis e as instituições do país, continuar direcionando grande parte dos recursos públicos para setores já consolidados, dificilmente o Brasil conseguirá avançar de políticas públicas pontuais para políticas estruturantes", afirma Michel Xocaira Paes, pesquisador da FGV EAESP e primeiro autor do artigo.
*Com informações da Agência Bori.
A carne passou na auditoria: 133 mil bois irregulares e o elo que o MPF ainda não vê