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Escrito por Neo Mondo | 8 de outubro de 2025
Qual o papel essencial do agronegócio na construção de uma economia de baixo carbono? Eduardo Bastos explica - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Entrevista exclusiva com o CEO do Instituto Equilíbrio, premiado pela Câmara dos Deputados com o Prêmio Economia Verde 2025
Na capital do país, em meio à solenidade da Câmara dos Deputados, um dos nomes mais atuantes na agenda da transição climática brasileira foi reconhecido pela sua capacidade de unir ciência, inovação e diálogo em torno de um futuro possível. Eduardo Bastos, CEO do Instituto Equilíbrio, recebeu o Prêmio Economia Verde 2025, concedido pela Frente Parlamentar Mista da Economia Verde a lideranças e projetos que estão redefinindo a sustentabilidade como eixo estratégico de desenvolvimento.
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“O agronegócio tem papel essencial na construção de uma economia de baixo carbono. Nosso trabalho é justamente promover conhecimento e diálogo para acelerar esse movimento”, afirma Eduardo Bastos. À frente de um think tank que atua como ponte entre o setor produtivo, a academia e os formuladores de políticas públicas, ele representa uma nova geração de lideranças que acreditam no poder da informação qualificada para orientar o futuro.
Nesta conversa, Eduardo Bastos fala sobre a urgência de alinhar desenvolvimento e responsabilidade ambiental, o papel transformador do diálogo e os desafios que ainda permeiam o agronegócio brasileiro diante da crise climática. A seguir, ele reflete — com franqueza e otimismo — sobre como o Brasil pode consolidar seu papel de liderança global em sustentabilidade, sem abrir mão do crescimento econômico.
Eduardo, você acaba de receber o Prêmio Economia Verde, um reconhecimento que celebra lideranças capazes de transformar discurso em ação. Quando olha para sua trajetória — entre o campo, a ciência e o diálogo com políticas públicas — o que simboliza, para você, esse “equilíbrio” entre crescimento e responsabilidade?
No Instituto Equilíbrio, trabalhamos em prol de um novo modelo de desenvolvimento que equilibre de forma responsável prioridades econômicas, sociais e ambientais. O agronegócio brasileiro já provou sua força produtiva — agora, o grande desafio é mostrar que é possível crescer, reduzindo emissões, conservando recursos e gerando prosperidade para todos.
Não existe uma fórmula pronta. Ao longo da minha trajetória, percebi que o verdadeiro progresso nasce quando o campo, a ciência e as políticas públicas caminham juntos. É por meio desse diálogo intersetorial que conseguiremos transformar conhecimento em prática e propósito em resultado.
Receber este prêmio é um reconhecimento de que é possível. É possível posicionar o agro brasileiro como líder global em soluções climáticas aplicadas. É possível promover um futuro próspero e mais sustentável. Esse futuro depende da nossa capacidade de diálogo e convergência em torno de uma agenda baseada em ciência, financiamento verde e políticas públicas inovadoras com foco em mercados de baixo carbono.
O Instituto Equilíbrio se define como um think tank apartidário que atua na interseção entre o agronegócio e a agenda climática. Como é equilibrar essas duas forças, que muitas vezes são percebidas como opostas no debate público?
O ponto de equilíbrio está justamente em entender que o agronegócio e a agenda climática não são forças opostas, mas partes do mesmo desafio: garantir prosperidade e segurança alimentar hoje sem comprometer o amanhã. O Brasil tem um papel estratégico no contexto global — somos um dos poucos países capazes de produzir em escala, com eficiência e com base em práticas sustentáveis.
Soluções como irrigação de precisão, sistemas integrados lavoura-pecuária-floresta e plantio direto ganham cada vez mais relevância. Políticas públicas como o Plano ABC+ apontam caminhos promissores para a transição agroambiental. Certificações sustentáveis abrem portas para mercados exigentes em rastreabilidade e responsabilidade socioambiental. Isso nos coloca no centro da transição para uma economia verde, onde produzir bem e preservar andam juntos.
No Instituto Equilíbrio, buscamos criar pontes entre esses universos. Fazemos isso com base em dados, diálogo e independência. Acreditamos que políticas públicas sólidas e inovação no campo podem caminhar lado a lado para que o país lidere a transição para uma economia de baixo carbono. Esse é o verdadeiro sentido do nosso nome: promover equilíbrio entre produção e preservação.
Você costuma dizer que o diálogo é o “fertilizante da mudança”. Em um cenário tão polarizado, qual foi o momento em que uma boa conversa te surpreendeu e mudou completamente sua visão sobre sustentabilidade?
Sem sombra de dúvidas, quando me juntei ao inpEV (Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias, entidade gestora do Sistema Campo Limpo, responsável por toda a logística reversa das embalagens vazias de defensivos agrícolas no Brasil), há mais de 20 anos, e pude me aproximar da construção da PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos). Através de um diálogo entre distintos elos de um sistema produtivo, pude ajudar na criação do que hoje é o maior sistema de coleta e destinação de resíduos do agro no mundo! Foi ali que eu comecei a interagir mais em Brasília, tanto nos poderes Legislativo (para construir a lei), Executivo (para apoiar no decreto e sua implementação) quanto no Judiciário. Sentar com tanta gente aparentemente distinta me ajudou muito a construir consensos e entender que, na maioria das vezes, concordamos com quase tudo e ainda assim nos pegamos discutindo no pouco que discordamos. Construir futuro é, em essência, focar nas similaridades e respeitar as diferenças – é acordar e agir no que se tem de semelhante e aos poucos ganhar confiança para trabalhar os (poucos) temas discordantes. Uso esses aprendizados até hoje.

Há quem diga que o agronegócio brasileiro ainda resiste em assumir responsabilidades ambientais mais profundas — especialmente no tema da descarbonização. Você acredita que o setor já entendeu a urgência climática ou ainda predomina uma lógica de reação e defesa?
A urgência climática já está em pauta no ambiente do agronegócio brasileiro. Precisamos de mecanismos que nos possibilitem escala e velocidade. Muitos produtores já investem em boas práticas no uso do solo e técnicas agropecuárias que contribuem para a redução e captura de carbono, rastreabilidade e integração produtiva.
Construir um sistema saudável de descarbonização e o uso da terra se constitui em uma oportunidade de consolidar uma liderança global em soluções aplicadas. Temos uma das agriculturas mais eficientes do planeta e tecnologias que permitem reduzir emissões sem comprometer produtividade. Precisamos alinhar incentivos, ampliar o acesso a financiamento verde e fortalecer uma narrativa que mostre que o agro brasileiro pode ser protagonista da solução climática — não apenas um ator que reage ao problema.
Se o Brasil fosse uma grande fazenda rumo à neutralidade de carbono, qual seria o “cultivo” mais promissor — e qual seria aquele que você diria que ainda está improdutivo, precisando de mais investimento e inovação?
Se o Brasil fosse uma grande fazenda rumo à neutralidade de carbono, diria que o cultivo mais promissor é o da integração — integrar ciência, política pública, tecnologia e práticas produtivas. O Brasil já tem sementes muito férteis: agropecuária de baixo carbono, sistemas integrados de produção, bioenergia, florestas plantadas e uma base científica sólida. O que precisamos é garantir que tudo isso cresça de forma coordenada.
Para tornar um cultivo ainda mais promissor, precisamos investir mais em métricas adequadas à agricultura tropical e instrumentos que tragam segurança ao produtor, ao investidor e à sociedade. Quando o ambiente é estável, a inovação floresce naturalmente. Uma agropecuária de baixo carbono é uma colheita coletiva: só será possível se cada parte do sistema fizer bem a sua parte.
A transição climática envolve inevitavelmente custos, ajustes e perdas. Você acha que o agronegócio está preparado para lidar com a transparência que o mercado de carbono e as métricas ESG exigem — ou ainda há muito “green talk” e pouco “green doing”?
Toda transição envolve custos e aprendizado. O agronegócio brasileiro está em um processo de amadurecimento importante — há quem já pratique rastreabilidade e métricas ESG e há também há quem ainda esteja aprendendo o valor estratégico disso.
O ponto central não é apenas estar preparado, mas entender que as práticas da agricultura sustentável se traduzem em vantagem competitiva. O mercado e a sociedade estão premiando quem mede, divulga e melhora. O ‘green doing’ não é uma exigência externa: é o que vai garantir acesso a mercados, financiamento e reputação.
O Brasil tem potencial para ser referência global em agricultura de baixo carbono – desde que os produtores tenham acesso a financiamento e tecnologia, com base em ciência e resultados verificáveis.
Por fim, se você pudesse deixar uma mensagem para o jovem produtor rural, para o estudante ou para quem está começando agora a se engajar com o tema da sustentabilidade, qual seria a semente que você gostaria de plantar na mente dessas pessoas?
Eu diria que cada ação conta e que o futuro do agro depende da nossa capacidade de aliar produtividade à responsabilidade socioambiental. Para o jovem produtor, o estudante ou quem está começando agora, a semente que eu gostaria de plantar é a curiosidade aliada à consciência: busquem entender os impactos do que fazemos hoje, explorem novas tecnologias, inovações e práticas sustentáveis, e nunca subestimem o poder das pequenas mudanças. A sustentabilidade não é apenas uma obrigação, é uma oportunidade de construir um agro mais resiliente, competitivo e conectado com as demandas do mundo.
Ao final da entrevista, fica claro que o conceito de “equilíbrio” vai muito além do nome do instituto que lidera. Ele traduz uma filosofia de trabalho e de vida: a crença de que o diálogo e o conhecimento são os insumos mais poderosos da transformação sustentável.
Enquanto o mundo busca respostas para conciliar produtividade e preservação, Eduardo Bastos aposta na ciência, na cooperação e na educação como pilares de uma nova economia verde. “Unir inovação e propósito é o grande desafio do nosso tempo — e também a nossa maior oportunidade”, reflete.
Mais do que uma entrevista, esta é uma conversa sobre o futuro — aquele que já começou a ser plantado, e que, se depender de lideranças como Bastos, promete florescer com consciência, prosperidade e propósito.

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