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A maratona invisível das COPs: a engrenagem real das Conferências do Clima

Escrito por Ana Chagas | 29 de setembro de 2025

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As COPs são muito mais do que discursos de chefes de Estado - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

POR – ANA CHAGAS

Quando falamos em Conferência das Partes da Convenção do Clima (as famosas COPs), muitas vezes imaginamos apenas chefes de Estado subindo ao púlpito para anunciar compromissos climáticos.

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Não vou me esquecer nunca do que senti ao participar de uma COP pela primeira vez: foi uma experiência tão intensa e avassaladora, que me deixava diariamente com uma sensação de não estar nos lugares certos, apesar de chegar ao final do dia sempre exausta e com os pés inchados.

Isso acontece porque a realidade desses eventos é muito mais complexa do que parece: as COPs são megacidades temporárias que chegam a reunir mais de 70 mil pessoas, como aconteceu em Dubai (COP28, 2023). Delegações oficiais, organizações internacionais, ONGs, movimentos sociais, empresas, universidades, jornalistas e cidadãos comuns circulam diariamente por espaços diferentes, cada qual com papéis bem definidos.

A Blue Zone: o coração da diplomacia climática

Organizada pela UNFCCC, a Blue Zone é a área oficial de negociações. Para entrar, é preciso credencial — e não são todas iguais. Os “party badges” dão acesso pleno às delegações dos países, que participam das salas de negociação e têm poder de voto. Já os “observer badges” permitem que ONGs, empresas, organismos multilaterais e universidades acompanhem, mas não negociem. Há ainda credenciais para imprensa e equipe técnica da ONU.

Dentro da Blue Zone, a rotina é frenética. De um lado, plenárias oficiais onde se discutem e votam textos de decisão; de outro, salas de negociação fechadas, em que especialistas de cada país tentam avançar em temas espinhosos como financiamento climático, mercados de carbono ou adaptação. Mas o coração pulsante da Blue Zone são os pavilhões: estruturas montadas por países, blocos regionais, coalizões de ONGs ou empresas, cada um com programação própria. Ali acontecem side events — debates, lançamentos de relatórios, compromissos voluntários, anúncios de investimentos.

Apenas para ilustrar, na COP27 (Egito, 2022), o pavilhão da União Europeia sediou dezenas de painéis sobre a implementação do Fit for 55 e novas diretivas de carbono. Já na COP28 (Dubai, 2023), o pavilhão do Brasil virou ponto de encontro para discutir bioeconomia e Amazônia, com presença de ministros, governadores e ONGs da floresta. Em Glasgow (COP26, 2021), foi nos pavilhões que se gestou a Declaração sobre Florestas e Uso da Terra, assinada por mais de 140 países.

Green Zone: a vitrine da sociedade civil

A Green Zone, geralmente organizada pelo país anfitrião, é o espaço mais aberto da COP. Ali se encontram estudantes, startups, governos locais, artistas, comunidades tradicionais, além de visitantes do público em geral que se inscrevem para acompanhar.

Em Dubai, a Green Zone reuniu exposições sobre hidrogênio verde, painéis de empresas de tecnologia e apresentações culturais de povos árabes. Em Glasgow, movimentos indígenas e juventude climática realizaram atividades e performances que depois reverberaram nas manchetes internacionais.

Embora não tenha peso direto nas negociações, a Green Zone cumpre um papel essencial: aproximar a agenda climática da sociedade e criar pontes entre atores que muitas vezes não estariam no mesmo espaço.

Uma rotina exaustiva (e nada turística)

Apesar de críticas recorrentes de que as COPs seriam “grandes feiras de turismo climático”, a realidade de quem participa é bem diferente. Uma jornada típica começa cedo, com reuniões marcadas às 8h, e pode se estender por 10 a 12 horas seguidas.

Negociadores passam horas fechados em salas sem janelas discutindo uma vírgula em textos de decisão. Ativistas correm de um pavilhão a outro para não perder side events estratégicos. Empresas aproveitam o intervalo de almoço para anunciar compromissos diante da imprensa.

Na COP27, as negociações sobre o fundo de perdas e danos atravessaram noites inteiras até a madrugada final. Esse ritmo intenso explica por que poucos saem da COP com tempo para “turismo”.

Muito além da diplomacia formal

As COPs são, ao mesmo tempo, palco e bastidor. São o espaço onde Estados assumem compromissos multilaterais, mas também onde ONGs expõem incoerências, empresas testam credibilidade e cientistas oferecem evidências.

Foi no espaço paralelo da COP26 que mais de 100 países assinaram o Global Methane Pledge, um compromisso de reduzir 30% das emissões de metano até 2030. Da mesma forma, em Dubai, anúncios sobre triplicar a capacidade de energias renováveis vieram de coalizões formadas fora das plenárias oficiais.

Mas por que entender essa engrenagem importa?

Compreender o funcionamento prático de uma COP é essencial para desfazer mitos. Não se trata de turismo, mas de uma arena global de disputas políticas, técnicas e econômicas que moldam os rumos da ação climática. Dentro e fora das salas de negociação, vozes se somam para influenciar o resultado final.

foto de ana chagas, autora do artigo A maratona invisível das COPs: a engrenagem real das Conferências do Clima
Ana Chagas - Foto: Divulgação

E a provocação que fica é: se a governança climática se constrói tanto nas mesas oficiais quanto nos corredores, onde você se enxerga nessa engrenagem?

Advogada com mais de 20 anos de atuação na área de sustentabilidade. É mestre em Direito Ambiental pela Université Paris 1 – Panthéon Sorbonne e sócia-líder da área Ambiental, ESG e Mudanças Climáticas do Simões Pires Advogados. Membro ativo da Rede LaClima (Latin American Climate Lawyers Initiative for Mobilizing Action), atuando como mentora do GT Corporativo e Clima, e como Conselheira Fiscal.

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