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Escrito por Neo Mondo | 14 de fevereiro de 2019
Petrycia Aléxia trouxe o pequeno Felipe, de 4 anos, para participar da soltura das tartarugas. “Ele sempre conviveu com animais, mas nunca viu uma tartaruga. Eu queria que ele conhecesse mais e começasse a ver as coisas maravilhosas que temos na nossa terra. Com o tempo, ele pode não ver mais isso, pois a tartaruga está em risco de extinção”, diz Petrycia.
Participação da comunidade Quem é mais antigo narra histórias de cardumes (como são chamados os grupos de tartarugas) enormes, 8 a 10 mil fêmeas desovando. “Eram tantas tartarugas que elas batiam no casco do barco. Quando chegava a época de pôr ovos, essas praias ficavam lotadas”, lembra José Martins, também conhecido como Seu Boroca. Por causa da abundância houve uma cultura de consumir tartarugas. “Essa é uma espécie onde fêmeas podem pesar 50 quilos e medir até 1 metro. Por ser uma grande fonte de proteína, elas são muito visadas na região”, conta a coordenadora do IPÊ, Virgínia Bernardes. “Em restaurantes de alto padrão em Santarém, uma tartarugada pode custar cerca de 1000 reais. Sem dúvidas, é uma iguaria que simboliza status”, complementa Virgínia. Hoje, a tartaruga-da-amazônia é considerada localmente ameaçada de extinção. “Nós notávamos que as pessoas de outros lugares invadiam as praias, viravam as tartarugas e roubavam seus ovos para vender em Oriximiná ou em Santarém. Na nossa infância, as tartarugas eram abundantes e hoje nós vemos cada vez menos”, explica Raimundo Dias Barbosa, coordenador das comunidades inseridas no projeto até 2011. “Então, hoje a gente quer envolver os jovens que estão cheios de saúde e disposição para cuidar das tartarugas como nós começamos a cuidar”. Esta é a razão para que os comunitários se envolvam cada vez mais no monitoramento. O número de ninhos determina, por exemplo, a quantidade de fêmeas em idade reprodutiva. “Ainda estamos buscando saber mais sobre a espécie, como por exemplo, a maturação sexual dos indivíduos e o comportamento social e o monitoramento participativo pode nos dar bons indícios da dinâmica social e biológica das tartarugas”, explica Virgínia.
Criança ajuda na soltura das pequenas tartarugas - Foto/Ramilla RodriguesPara isso, o ICMBio conta com o apoio dos moradores das comunidades quilombolas da região. O engajamento comunitário iniciou em 2003, quando as UCs receberam apoio do Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), o que possibilitou a inclusão dos voluntários. Desde 2013, a unidade está inserida no monitoramento participativo da biodiversidade (MPB) e no ano passado implementou os protocolos regionalizados, que vão permitir a comparação dos quelônios com outras UCs. Por meio do Quelônios do Rio Trombetas, são promovidas atividades de capacitação para o monitoramento da desova, que ocorre a partir de agosto. Cada um dos sete tabuleiros de desova, como são conhecidas as praias sazonais formadas no período de estiagem do Rio Trombetas, recebe duas ou três famílias responsáveis. Eles se instalam em barracas ou cabanas nas praias e ficam responsáveis por coletar ninhos sujeitos a predação e transportá-los até as chocadeiras, onde os filhotes nascerão e serão contabilizados. Eles recebem uma ficha onde coletam dados sobre os ninhos por meio da qual é possível constatar a eclosão de ovos, ovos predados, ovos não fecundados e número de filhotes vivos. Para a temporada de 2018, 27 famílias se cadastraram para acompanhar os ninhos e uma das condições para permanecer no projeto é não ser autuado por infração ambiental. Além dos voluntários, o ICMBio dispõe de agentes ambientais contratados para monitoramento permanente da área. “Com isso, também temos um incremento em outras áreas da gestão da UC, como a fiscalização”, elucida a chefe da unidade, Deborah Castro. Manoel Santos é agente ambiental do ICMBio. Proveniente da comunidade quilombola da Tapagem, ele conta que já foi um dos que consumiu tartaruga. “Eu já fui um consumidor de quelônio e sei que ainda existe um grupo minoritário que vive da predação. Esses milhares de filhotes que soltamos hoje foram conseguidos com muita luta. Eu sei que é difícil recuperar ao que era há quarenta anos atrás, mas a gente precisa pelo menos reequilibrar”, resume.
Tartaruga-da-amazônia adulta - Foto/DivulgaçãoEm simulação de mudanças climáticas, plantas da Amazônia se reestruturam para absorver nutrientes
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