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Arreda! Amazônia, imprensa e a disputa por narrativas na COP30

Escrito por Neo Mondo | 7 de agosto de 2025

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Cidade de Belém do Pará - Foto: Divulgação

Por - Ivana Oliveira*, Sócia diretora da Jambo Soluções em Comunicação/ Profª Drª PPGCLC-Universidade da Amazônia

ARREDA!! ARREDA!! ARREDA!! ARREDA!! ARREDA!!

Esse canto é um grito de torcidas por aqui. As vozes nos estádios pressionam e intimidam, afirmando a posse de um território ou a expansão dele em cima do adversário.

“Arreda!” canta uma conquista.

E é sobre isso que quero falar. Vai arredando que a COP30 vai ser aqui na Amazônia, sim! Apesar da mídia sudestina que insiste em reforçar aquele discurso neocolonizador de que estamos invadindo um espaço onde não devemos estar.

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Nos últimos meses, a COP30, marcada para acontecer em 2025 em Belém do Pará, tem sido alvo de uma cobertura jornalística marcada por um tom recorrente: o da dúvida. A capital paraense é um vexame nacional: “Não tem hotel”, “não tem estrutura”, “não tem condições”. Mas quando a COP foi em Dubai (2023) e no Azerbaijão (2024) ninguém bateu tanto nessa tecla. E olha que os desafios lá também existiam, mas ficaram bem longe das manchetes. É pra comparar? No luxo de Dubai quase não teve espaço pra sociedade civil. Hospedagens caríssimas, repressão a manifestações e uma COP dominada por corporações. Já em Baku, capital do Azerbaijão, as limitações logísticas sérias e um histórico autoritarismo não incomodaram a ponto de se cogitar cancelar o evento. Onde ficou a lupa jornalística apontada com tanta ênfase para Belém?

Arreda! Aqui vai ser bem diferente!

Temos uma população engajada, movimentos indígenas, quilombolas, juventude periférica e pesquisadores dispostos a participar… e o discurso é que “não dá pra acontecer aqui”?

O que está acontecendo não é apenas uma cobertura jornalística mal conduzida. É a repetição de um padrão histórico: olhar para a Amazônia com desconfiança, como se ela não fosse capaz, como se a região dependesse eternamente do olhar, da validação e da autorização do centro do país para existir, decidir e realizar. E nós? Nós temos que nos conformar com nosso lugar na plateia, caladinhos.

O discurso da “falta de estrutura”, que nunca foi negada, não é neutro. Ele ecoa um preconceito antigo, revestido de modernidade: a ideia de que o Norte do Brasil não é lugar de protagonismo. É como se a Amazônia só servisse como cenário de fundo para os debates climáticos, mas nunca como território legítimo de decisão.

Arreda! Esse protagonismo está atrasado!

Por que a Amazônia é colocada em constante prova de merecimento? Por que se cobra tanto de uma região que nunca recebeu os investimentos estruturais que capitais do Sul e Sudeste tiveram por décadas? Quando dizem que “a Amazônia não está pronta”, seria mais honesto dizer: nunca quiseram que ela estivesse.

Claro que é legítimo noticiar gargalos logísticos e problemas de planejamento. O jornalismo precisa cumprir sua função crítica. Mas quando isso se torna o único ângulo, e quando essa crítica é desproporcional, ela deixa de ser jornalismo e passa a ser reforço de estigma. Falar da COP30 em Belém não pode se resumir a uma lista de problemas. Tem que falar da oportunidade histórica de colocar os povos amazônidas no centro do debate climático, valorizar o que o território tem a oferecer, apresentar como os saberes ancestrais vivem aqui, quais as soluções de base comunitária, como temos diversidade biológica e cultural, e sim, capacidade de organização.

“Vocês não estão prontos” é uma frase disfarçada de técnica. É a imprensa reportando a Amazônia sempre como se fosse uma emergência, um atraso, um problema a ser resolvido de fora pra dentro.

Arreda! Porque o problema não está aqui!

A imprensa tem um papel fundamental na construção da imagem pública da COP30. E precisa assumir esse papel com responsabilidade. É hora de sair do lugar comum, parar de comparar Belém com capitais do Sudeste e reconhecer o que está em jogo: não é sobre logística, é sobre justiça.

Mas não se trata de estar pronto. O que temos que discutir é quem foi impedido de se preparar. Quem negou por décadas os investimentos em saneamento, transporte, moradia, tecnologia e educação para a Amazônia? Quem manteve a região sob a égide do isolamento, do silenciamento, do apagamento, sem ouvir suas demandas reais, enquanto extraía riquezas e decidia à distância?

Arreda! A Amazônia é imprescindível como sujeito!

A injustiça climática começa aqui: no direito de participar presencialmente dos fóruns que decidem o próprio futuro. O resto do mundo reconhece a Amazônia como essencial no enfrentamento da crise ambiental. Mas dentro do Brasil, ainda somos um apêndice. Quando a gente entende o que a COP30 representa, entende também por que ela tem que ser aqui e não “apesar” da gente.

Belém não precisa de permissão. Não precisa provar que merece a COP30. A COP é que precisa provar que está à altura do momento histórico que representa.

Realizar esta COP na Amazônia é um ato político, pedagógico e simbólico. É reconhecer que o centro do mundo precisa mudar de lugar – e que isso incomoda muita gente.

Incomoda ver uma cidade nortista recebendo líderes globais. Incomoda ver o povo amazônida ocupando os palcos. Incomoda ver vozes indígenas e periféricas ganhando espaço.

Arreda porque é exatamente isso que tem que acontecer aqui e agora!

Arreda! Arreda! Porque agora esse espaço também é nosso.

FOTO DE IVANA OLIVEIRA, AUTORA DO ARTIGO Arreda! Amazônia, imprensa e a disputa por narrativas na COP30
Ivana Oliveira - Foto: Divulgação

Jornalista amazônida com mais de 30 anos de experiência na região e sócia da Jambo Soluções em Comunicação (PA). Doutora em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA/PPGDSTU/UFPA). Professora, há 27 anos, do Programa de Pós Graduação em Comunicação, Linguagens e Cultura (PPGCLC/UNAMA) e dos cursos de Jornalismo e Publicidade da Universidade da Amazônia (UNAMA). Integrante dos Grupos de Pesquisas: Sociedade e Representações da/na Amazônia Soci-Amazônia (UNAMA| CNPq). Mídia e Violência: percepções e representações na Amazônia (UFPA | CNPq) e Narrativas Contemporâneas na Amazônia Paraense (NARRAMAZÔNIA | UFPA | UNAMA); e Grupo de Estudos em Educação, Cultura e Meio Ambiente – GEAM (UFPA).

*Artigo originalmente publicado no site da ABERJE

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