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Escrito por Ana Chagas | 27 de outubro de 2025
Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
POR – ANA CHAGAS
Com a COP30 se aproximando, a presidência brasileira já assumiu um papel de destaque na condução do debate climático internacional. Sob a liderança do embaixador André Corrêa do Lago, as Cartas da Presidência vêm revelando, ao longo dos últimos meses, a visão política e diplomática que o Brasil pretende imprimir à conferência de Belém. Mais do que comunicados formais, esses textos formam um fio narrativo que orienta expectativas, mobiliza atores e sinaliza ao mundo a ambição da presidência.
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A presidência de uma COP não é uma coroa — é uma bússola. Cabe a quem a exerce definir prioridades, traduzir compromissos em movimento e mediar entre quase duzentos países com interesses, muitas vezes, divergentes. Embora o presidente seja indicado pelo país-sede, ele fala em nome de todos, e sua gestão é compartilhada com a presidência anterior, garantindo continuidade e coerência nas negociações. No caso da COP30, o Brasil sucede o Azerbaijão, que presidiu a COP29, e tem a missão de conduzir a transição entre o balanço global do Acordo de Paris e a fase de implementação efetiva das metas climáticas.
Desde a primeira carta, Corrêa do Lago buscou imprimir um tom de cooperação e propósito. O texto inaugural celebrou o simbolismo de realizar a conferência na Amazônia — território que representa tanto a vulnerabilidade quanto a potência das soluções baseadas na natureza. As cartas seguintes começaram a delinear a estratégia política da presidência, com destaque para a ideia de um “mutirão global contra as mudanças climáticas”, expressão que traduz a proposta brasileira de reunir governos, empresas e comunidades em torno de uma mesma agenda de ação.
À medida que foram sendo publicadas, as cartas evoluíram em conteúdo e tom. As primeiras tinham caráter inspirador, voltado à construção de confiança e mobilização. Em seguida, o discurso se tornou mais técnico, centrado em resultados e na necessidade de transformar promessas em implementação. A partir da metade do ano, o foco passou a incluir justiça climática, saberes tradicionais e o protagonismo das populações mais vulneráveis — um movimento que amplia a legitimidade da presidência e reforça a dimensão humana do processo.

A oitava carta, divulgada há poucos dias, marca uma inflexão. Dedicada à adaptação climática, ela abandona o tom declaratório e assume o da urgência. “A era dos alertas deu lugar à era das consequências”, escreveu o embaixador, afirmando que a adaptação deixou de ser uma etapa posterior à mitigação para se tornar uma questão de sobrevivência. É o texto mais direto e contundente de toda a série, e consolida uma presidência que fala com autoridade e clareza sobre o desafio que temos pela frente.
Essa trajetória revela uma presidência que amadurece. As primeiras cartas falavam sobre visão; as mais recentes falam sobre ação. O vocabulário tornou-se mais concreto, o apelo mais humano e o foco mais realista. Ainda assim, temas delicados, como o financiamento climático e a transição dos combustíveis fósseis, permanecem nas entrelinhas, à espera do espaço de negociação formal.
As Cartas da Presidência cumprem, portanto, um papel que vai além da diplomacia: são um gesto de transparência, uma tentativa de diálogo e um convite à mobilização global. Revelam o estilo de liderança que o Brasil pretende exercer — conciliador, mas assertivo; simbólico, mas pragmático. À medida que o mundo se volta para Belém, essas cartas ajudam a entender onde o Brasil quer colocar o peso das discussões. E talvez o maior mérito delas seja lembrar que, diante da crise climática, liderar é menos sobre discursar e mais sobre construir confiança para agir.
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