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Escrito por Neo Mondo | 13 de outubro de 2025
A ausência de China e Índia na atualização de suas metas climáticas é mais do que um dado — é um silêncio que ecoa nas salas da Pré-COP em Brasília - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Gigantes silenciosos: a ausência das duas maiores economias emergentes nas negociações climáticas deixa o mundo em compasso de espera e coloca o Brasil no centro das tensões pré-COP30
A cada nova COP, renasce a esperança de que, finalmente, os grandes emissores farão o que prometem. Mas basta olhar para o presente: China e Índia, responsáveis por quase um terço das emissões globais, chegam à Pré-COP em Brasília sem novas metas. E o mundo, mais uma vez, segura o fôlego.
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O evento, que começou nesta segunda-feira (13) no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), é o último ensaio antes da COP30, em novembro, em Belém (PA). Reúne representantes de 50 países com o desafio monumental de reacender a chama da cooperação climática — justamente num momento em que o multilateralismo parece exausto.
Oficialmente, o encontro serve para preparar as negociações. Na prática, é um palco de pressões, alianças e silêncios. E, neste palco, o silêncio de Pequim e Nova Délhi fala mais alto que muitos discursos.
Até a última sexta-feira (10), 62 dos 196 países haviam atualizado suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) — compromissos formais para reduzir emissões e acelerar a transição verde. China e Índia, não.
E isso não é apenas uma ausência técnica; é um recado político.
Ambos os países são potências energéticas e industriais que ainda dependem fortemente do carvão e de combustíveis fósseis para sustentar seu crescimento. Quando hesitam em atualizar metas, o mundo percebe: a diplomacia climática entrou num impasse perigoso.
Analistas já descrevem esse cenário como um xadrez geopolítico em que todos jogam por tempo. Enquanto as nações ricas cobram mais ambição dos emergentes, os emergentes exigem o cumprimento das promessas antigas de financiamento climático e transferência tecnológica — promessas que continuam, há anos, no limbo entre o discurso e a ação.
O resultado é um jogo lento e desgastante, em que a urgência científica colide com a lentidão política.
Entre os momentos mais esperados da reunião está a apresentação do “Roadmap de Baku a Belém”, uma tentativa de costurar as transições entre as presidências da COP29 (Azerbaijão) e da COP30 (Brasil).
É simbólico — e até poético — ver o Brasil tentando servir de ponte entre mundos tão diferentes. E talvez seja justamente essa postura de mediação que o planeta espera de nós.
Na abertura, estiveram presentes nomes de peso: Geraldo Alckmin, Simon Stiell (ONU), Mukhtar Babayev (COP29), além das ministras Marina Silva e Sônia Guajajara — vozes que lembram ao mundo que não existe ação climática sem justiça social, nem futuro sustentável sem povos originários e biodiversidade protegida.
Também foi divulgado o relatório da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), que confirma: a expansão das fontes limpas é real, mas insuficiente. O copo, como sempre, está meio cheio — e evaporando rápido.
A Pré-COP é, sem dúvida, uma vitrine do protagonismo brasileiro.
O país tenta mostrar ao mundo que há um caminho possível entre ambição e inclusão, com iniciativas como a Agenda de Ação da COP30 e os Círculos de Liderança, fóruns que conectam desde ministros das finanças até lideranças indígenas. É um lembrete de que a transição ecológica não é só técnica — é cultural, econômica e profundamente ética.
Mas o otimismo encontra seus limites. Sem o comprometimento real de China, Índia e Estados Unidos (este último novamente sob a sombra do negacionismo trumpista), o tabuleiro global segue desequilibrado.
E a pergunta que ecoa entre os corredores de Brasília é quase existencial:
será que o Acordo de Paris ainda tem força moral para mover o mundo?
Ou estamos apenas prolongando o ato final de uma peça que já perdeu o enredo?

Saio dessas análises com um misto de admiração e cansaço.
Admiração pelos diplomatas, cientistas e ativistas que seguem acreditando.
Cansaço por ver o relógio climático correr enquanto os compromissos patinam.
A Pré-COP de Brasília não é só uma reunião preparatória — é um espelho.
E o reflexo é duro de encarar: um planeta que fala em “neutralidade de carbono” enquanto continua queimando carvão; que promete florestas, mas desmata; que projeta 2050, mas mal consegue lidar com 2025.
Talvez o problema não seja a falta de metas — mas a falta de vontade.
Porque metas, sem ação, são como promessas ao vento. E o vento, hoje, sopra quente demais.
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