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Escrito por Neo Mondo | 14 de agosto de 2025
Presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago e a diretora executiva da COP30, Ana Toni, durante reunião em julho, em Brasília - Foto: Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil/PR
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
André Corrêa do Lago constrói uma narrativa que evolui de valores compartilhados à ação concreta, da economia verde ao protagonismo das populações mais vulneráveis
Em 10 de março de 2025, ao lançar a primeira de uma série de cartas à comunidade internacional, o presidente-designado da COP30 fez um chamado urgente e inspirador: unir o mundo em torno de valores humanos universais — esperança, generosidade, resiliência e solidariedade.
Ele resgatou o conceito brasileiro de “mutirão global”, evocando a tradição de comunidades que se organizam coletivamente para transformar desafios em vitórias. O convite foi dirigido a todos: governos, cientistas, empresas e sociedade civil.
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Mais do que retórica, a carta deu sentido à urgência histórica: celebrar 20 anos do Protocolo de Quioto e 10 anos do Acordo de Paris como marcos que reforçam a necessidade de cooperação. Escolher o Brasil — e a Amazônia — como palco desse chamado é simbólico: um território que é, ao mesmo tempo, patrimônio natural e espaço estratégico para a agenda climática global.
As cartas seguintes reforçam a transição das palavras para resultados tangíveis. O tom se torna mais pragmático: é preciso romper com discursos excessivamente abstratos e garantir que as negociações climáticas tenham reflexo direto na vida das pessoas.
Essa mudança de postura inclui ampliar a participação de lideranças indígenas, juventudes e comunidades locais. Reconhece-se que esses grupos não apenas vivenciam os impactos da crise, mas também guardam soluções ancestrais e práticas inovadoras para enfrentá-la.
O recado é direto: a COP30 precisa ser mais que um palco diplomático — deve se tornar um ponto de inflexão, onde as decisões firmadas resultem em políticas efetivas, monitoráveis e de impacto real.
Na quarta carta, Corrêa do Lago identifica um novo obstáculo: a “negação econômica” — a resistência em acreditar que a transição climática possa ser financeiramente viável.
Agora que a ciência é praticamente consenso, o desafio é convencer governos e mercados de que descarbonizar não é apenas necessário, mas também vantajoso. Ele convoca líderes políticos e econômicos a mostrarem, com números e exemplos, que a economia verde pode gerar empregos, inovação e competitividade global.
Os Estados Unidos aparecem como exemplo ambíguo: mesmo com resistências políticas, continuam essenciais por sua capacidade de inovação tecnológica e influência econômica. Para Corrêa do Lago, é esse realismo — aliado à ambição — que pode destravar acordos e acelerar a ação climática.

A quinta carta, divulgada em agosto de 2025, tem um tom profundamente humano. “A ação climática deve começar e terminar com as pessoas”, afirma o presidente-designado.
O documento coloca no centro da agenda mulheres, jovens, povos indígenas, afrodescendentes, moradores de periferias, migrantes, idosos e pessoas com deficiência. Mais do que reconhecer vulnerabilidades, a carta propõe que esses grupos sejam protagonistas das decisões e da implementação das soluções.
Entre as ferramentas destacadas para garantir essa justiça climática estão:
| Cartas | Tema central | Evolução temática |
|---|---|---|
| 1ª (mar/25) | Valores humanos e mobilização global | Chamada visionária, simbólica e inspiradora |
| 2ª–3ª (mai/25) | Da abstração à ação concreta | Inclusão efetiva e implementação prática |
| 4ª (jun/25) | Realismo econômico sustentável | Viabilidade financeira aliada à justiça climática |
| 5ª (ago/25) | Pessoas como protagonistas | Inclusão e governança compartilhada |
A expressão vai muito além do discurso. Justiça climática é um compromisso ético e político que reconhece que quem menos contribuiu para a crise climática é quem mais sofre com seus efeitos.
Ela exige corrigir desigualdades estruturais — de gênero, raça, território e geração. Comunidades indígenas, mulheres, jovens, pessoas com deficiência e outros grupos historicamente excluídos não podem ser apenas “consultados”: precisam ser coautores das soluções.
Nesse sentido, a COP30 não é apenas uma reunião de cúpula. É uma oportunidade para redesenhar a governança climática, incorporando inclusão e participação ativa como fundamentos para decisões globais.
As cinco cartas da Presidência da COP30 compõem uma narrativa que começa com um chamado ético, amadurece para a mobilização prática, enfrenta com clareza os desafios econômicos e culmina no protagonismo humano.
Elas oferecem não apenas um roteiro para a conferência em Belém, mas um modelo de ação para o século XXI — onde saberes tradicionais, inovação tecnológica e justiça social caminham lado a lado.
Na Amazônia, palco da COP30, essa visão ganha força simbólica e política: mais que um evento diplomático, um marco de cultura, representatividade e liderança global na luta contra a crise climática.
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