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Escrito por Neo Mondo | 13 de janeiro de 2026
Enquanto algumas redes tratam a educação ambiental como algo pontual, outras provam que ela pode — e deve — estar no centro do currículo, conectada ao cotidiano, ao território e às escolhas de futuro - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Quando ensinar a cuidar do planeta vira exceção, o que estamos, de fato, formando nas salas de aula?
Há números que informam. Outros, que incomodam. E há aqueles que fazem a gente parar, respirar fundo e pensar: como chegamos até aqui?
O dado é desses. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, responsável pelo Censo Escolar 2024, cerca de um terço das mais de 179 mil escolas públicas e privadas do Brasil não desenvolveu nenhuma atividade de educação ambiental ou climática em 2024.
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Não é um detalhe burocrático. É um sinal de alerta.
Num país atravessado por secas extremas, enchentes históricas, queimadas recordes e crises hídricas recorrentes, deixar de falar sobre meio ambiente na escola não é neutralidade pedagógica. É escolha. E toda escolha educacional molda o futuro.
A educação ambiental está prevista desde a Constituição de 1988 e regulamentada pela Lei nº 9.795/1999, que instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA). Desde 2024, passou a incorporar oficialmente temas como mudanças climáticas e riscos de desastres socioambientais.
No papel, o Brasil está alinhado com o mundo.
Na prática, ainda patina.
O retrato regional escancara desigualdades e contradições. O Sudeste, região mais rica do país, apresentou o pior índice: 42% das escolas não realizaram nenhuma ação ambiental. O Norte vem logo atrás, com 39%.
E o caso de São Paulo chama atenção: mais da metade das escolas paulistas (51%) declarou não ter trabalhado o tema em 2024. Um número difícil de digerir, especialmente para um estado que se coloca como protagonista em inovação, economia verde e transição energética.
A frase é direta. E necessária.
Ela vem de Paulo Boggiani, professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, que resume um problema antigo: tratar a educação ambiental como algo decorativo, pontual, quase folclórico.
Segundo ele, os baixos índices refletem uma deficiência estrutural da educação brasileira, especialmente na formação e valorização dos professores. Sem capacitação, tempo pedagógico e apoio institucional, o tema vira enfeite de calendário — aparece no Dia da Árvore, some no resto do ano.
E isso cobra um preço alto.
Enquanto algumas escolas ignoram o tema, outras reinventam o aprender.
Nem tudo é ausência. Há exceções que mostram caminhos possíveis.
O Paraná lidera o ranking nacional: 95% das escolas desenvolveram ações de educação ambiental. A chave? Um currículo integrado, transversal, conectado ao cotidiano do estudante — e não isolado em uma disciplina estanque.
Outros estados aparecem com bons resultados: Tocantins, Santa Catarina, Espírito Santo, Rondônia, Pernambuco, Sergipe e Ceará.
No Ceará, a política pública ganhou forma simbólica e concreta com o Selo Escola Sustentável, criado em 2017. Em 2025, o Centro de Educação de Jovens e Adultos Guilherme Gouveia, em Granja, recebeu nota máxima e prêmio financeiro por práticas que vão da coleta seletiva ao uso de energia solar, da compostagem à reutilização da água.
Ali, a sustentabilidade não é discurso. É método.
Zara Figueiredo, secretária do Ministério da Educação, aponta um fator-chave: a paralisação da Política Nacional de Educação Ambiental no governo anterior. Segundo ela, a retomada recente envolve formação de professores, protocolos de adaptação climática e integração curricular.
Mas o tempo da política raramente acompanha o tempo da crise climática.
E aqui surge o ponto mais sensível — e talvez mais incômodo — dessa história: cada ano sem educação ambiental é uma geração menos preparada para lidar com o mundo que já chegou.

Talvez o maior risco não seja apenas a ausência de projetos ambientais nas escolas.
É a formação de um analfabetismo climático coletivo — jovens que sabem usar inteligência artificial, mas não entendem por que a cidade alaga; que dominam redes sociais, mas não reconhecem os sinais de colapso ambiental ao redor.
Educação ambiental não é só sobre árvores, reciclagem ou economia de água.
É sobre pensamento crítico, cidadania, justiça social, saúde pública, economia e democracia.
Ignorar isso na escola é formar adultos despreparados para decidir — como eleitores, profissionais e líderes — sobre o futuro comum.
Ao final, fica uma sensação estranha. Não de falta de exemplos, nem de ausência de caminhos. Mas de urgência mal compreendida.
Num mundo em ebulição climática, educar para o meio ambiente não deveria ser exceção, prêmio ou selo.
Deveria ser base. Alicerce. Ponto de partida.
Porque, gostemos ou não, o planeta já entrou na sala de aula.
A pergunta é: quem vai explicar o que está acontecendo?
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