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Escrito por Neo Mondo | 17 de dezembro de 2025
Há algo profundamente simbólico nesses 60 mil filhotes que começaram a nascer no Vale do Guaporé - Foto: Frank Néry
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Com 60 mil filhotes já registrados, temporada de eclosão em Rondônia reacende o otimismo — mas deixa claro que a crise climática já mudou o ritmo da vida no rio
Há notícias que chegam como um sopro de alívio. Outras, como um convite à reflexão. A temporada de eclosão de quelônios no Vale do Guaporé, em Rondônia, faz um pouco das duas coisas ao mesmo tempo.
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Depois de um 2024 duríssimo — quando o número de filhotes de tartarugas-da-amazônia, tracajás e outros quelônios despencou cerca de 70% — o início da temporada de 2025 trouxe um dado que reacende a esperança: 60 mil filhotes já nasceram na primeira fase de contabilização, entre os dias 11 e 15 de dezembro, segundo o Ibama.
Pode parecer “só um número”. Mas, ali, no maior berçário natural de tartarugas do planeta, cada filhote que rompe o ovo e corre em direção ao rio carrega algo maior: um sinal de resistência da natureza em meio a um clima que já não segue o roteiro de antes.
O Vale do Rio Guaporé não é um lugar qualquer. Em um raio de cerca de 30 quilômetros, estão distribuídas sete praias de desova, cinco em território brasileiro e duas na Bolívia. É ali que, há décadas, milhares de tartarugas transformam a areia em promessa de futuro.
E é justamente por isso que qualquer mudança no ritmo do rio, da chuva ou da temperatura provoca efeitos em cadeia.
Em 2025, a desova veio tarde. O Rio Guaporé demorou mais a baixar, as faixas de areia apareceram em menor quantidade e fora do tempo esperado. O processo, que normalmente começa entre o fim de setembro e o início de outubro, só ganhou força por volta dos dias 21 e 22 de outubro.
O motivo? Um velho conhecido — e cada vez menos previsível: as mudanças climáticas.
Choveu mais do que o esperado. As temperaturas ficaram mais baixas no chamado tabuleiro do Guaporé. O resultado foi um atraso claro em todo o ciclo reprodutivo.
Segundo o biólogo José Carrate, do Grupo Energisa, houve um atraso médio de 15 dias no início das eclosões.
“As eclosões eram esperadas para o início de dezembro, mas só começaram na segunda quinzena. Por isso, o número de filhotes nascendo ainda está abaixo do previsto para este período”, explica.
É como se a natureza estivesse tentando se adaptar, passo a passo, a um novo relógio climático — ainda em ajuste.
Apesar dos atrasos e das interferências climáticas, quem está no território todos os dias mantém um olhar confiante.
Para José Soares, coordenador da Associação Quilombola e Ecológica do Vale do Guaporé (Ecovale), o cenário de 2025 tende a ser melhor que o de 2024. Há uma maior concentração de ninhos nos berçários monitorados, o que aumenta a chance de sobrevivência dos filhotes.
“As condições climáticas ainda interferem, causam atrasos e algumas perdas. Mas nossa expectativa é não registrar muitas perdas neste ano”, afirma.
O pico da eclosão deve acontecer nas próximas semanas, avançando até o fim de dezembro e o início de janeiro. Só então, com todos os dados analisados estatisticamente, será possível estimar com mais precisão o total de filhotes nascidos nesta temporada.
No último domingo (14), um gesto simples e poderoso marcou oficialmente o início do período de nascimento: a soltura dos filhotes resgatados nos berçários.
O evento reuniu o Ibama, a Ecovale e o Grupo Energisa — três atores que, juntos, sustentam uma engrenagem silenciosa, diária e essencial de proteção da vida no Guaporé.
Ali, cada filhote devolvido ao rio parecia dizer, sem palavras: ainda dá.

Desde 2021, o Grupo Energisa acompanha de perto os impactos das mudanças climáticas na região. O monitoramento em tempo real das chuvas e dos períodos de seca ajuda a cruzar dados climáticos com o ciclo hidrológico local — um tipo de inteligência ambiental que virou aliada da conservação.
O apoio vai além dos dados. A empresa garante energia elétrica à base da Ecovale por meio de painéis fotovoltaicos, assegurando infraestrutura para fiscais comunitários e órgãos ambientais permanecerem no território. A energia também viabiliza algo fundamental hoje: conectividade.
Com internet funcionando, qualquer alteração nas praias de desova pode ser comunicada em tempo real. Num cenário de clima instável, isso faz toda a diferença.
O que começou como projeto, em 2011, tornou-se programa por uma razão clara: funcionou.
Segundo César Luiz da Silva, superintendente estadual do Ibama, o manejo de quelônios no Guaporé é hoje essencial para garantir a estabilidade populacional das espécies.
“O programa é fundamental diante do histórico de consumo e predação humana desses animais, que em anos anteriores os levou à beira da extinção. Foi graças aos esforços conjuntos que conseguimos reverter esse cenário”, afirma.
Com 39 anos de atuação, o Projeto Quelônios do Guaporé é hoje uma das mais longevas e bem-sucedidas iniciativas de conservação da fauna amazônica — sustentada por ciência, comunidades tradicionais e parcerias institucionais.
Talvez o aspecto mais surpreendente dessa história não esteja nos 60 mil filhotes — embora eles importem, e muito. Está no que eles simbolizam.
O Vale do Guaporé funciona como um termômetro vivo da crise climática. Quando o rio atrasa. Quando a areia some. Quando os ovos esperam mais tempo para romper. Tudo isso é a tradução biológica de um planeta fora de equilíbrio.
Ao mesmo tempo, cada filhote que nasce ali mostra que a adaptação é possível quando há cuidado contínuo, ciência aplicada e presença humana comprometida.
No fundo, essa não é só uma boa notícia ambiental. É um lembrete:
cuidar do clima é cuidar do tempo da vida.
E, no Guaporé, a vida — apesar de tudo — segue insistindo em nascer.
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