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Escrito por Neo Mondo | 26 de novembro de 2025
No Tabuleiro do Embaubal, às margens do Rio Xingu, milhares de tartarugas-da-Amazônia estão vivendo mais um ciclo de reprodução - Foto: Divulgação/Norte Energia
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Ciência, proteção ambiental e o protagonismo das comunidades amazônicas transformam o Tabuleiro do Embaubal em um dos maiores berçários naturais da América do Sul
Você já parou para imaginar o som do nascimento? Não aquele primeiro choro humano, mas o suave farfalhar da areia quando centenas de vidas minúsculas se mexem ao mesmo tempo, rompendo o silêncio da madrugada amazônica. Eu confesso: me emociona só de imaginar.
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É exatamente esse espetáculo que se repete, ano após ano, no Tabuleiro do Embaubal — uma joia ecológica do Pará, onde milhares de tartarugas-da-Amazônia, tracajás e pitiús entregam seu futuro às praias do Rio Xingu. Elas chegam entre agosto e dezembro, num ritual ancestral que desafia o tempo, os predadores e as mudanças climáticas.
Entre setembro e novembro, a natureza fica perfeitamente alinhada: o calor da areia, o recuo das águas e a proteção das praias formam o cenário ideal para a incubação. E quando outubro chega ao fim… é pura poesia! Surgem, então, os filhotes — minúsculos, persistentes, determinados a alcançar o rio antes mesmo de saborearem a ideia de existir.
É a Amazônia lembrando ao mundo que ainda há esperança.
Essa história linda não acontece por acaso. Há 14 anos, o Programa de Conservação e Manejo de Quelônios atua como guardião silencioso dessa jornada. Liderado pela Norte Energia, com apoio do Ideflor-Bio, Ibama, Semas e inúmeras secretarias municipais, o projeto cuida de tudo o que faz diferença:
E esse último ponto merece destaque. Porque quando o rio educa e a floresta fala, quem mais ensina é quem sempre foi guardião da natureza: o povo amazônico.
“Cada ninho protegido e cada filhote devolvido ao rio representam um avanço na sobrevivência dos quelônios e no equilíbrio dos ecossistemas”,
— diz Adriana Malvasio, referência nacional em quelônios.
E os números não deixam dúvidas do impacto:
De 2009 até agora:
➡️ Mais de 6,5 milhões de filhotes devolvidos à natureza
➡️ Só entre 2024 e 2025: 308.567 filhotes ganharam o Xingu
➡️ Na temporada atual: 4.000 ninhos já identificados ✨
Tudo isso mesmo com estiagens severas e desafios climáticos crescentes.
As tartarugas são engenheiras ecológicas. Elas:
Mas, talvez, o mais poderoso seja o que elas representam.
Na Amazônia, elas simbolizam longevidade, memória, continuidade. São avós da floresta.
Elas carregam histórias que atravessam gerações.
Agora, são as crianças que escrevem os próximos capítulos — cuidando dos ninhos e plantando o futuro com as próprias mãos.
Criado em 2016, o Refúgio de Vida Silvestre Tabuleiro do Embaubal ocupa uma área de 4.033 hectares — praias, igapós, várzeas — um mosaico natural que abraça espécies ameaçadas e endêmicas.
Roberto Silva, gerente de Meios Físico e Biótico da Norte Energia, explica:
“A cada ciclo reprodutivo, reafirmamos nosso compromisso de conciliar o desenvolvimento energético com a conservação da biodiversidade, fortalecendo o protagonismo das comunidades locais.”
Conciliar desenvolvimento e natureza.
Parece simples. Não é.
Mas aqui está funcionando.
Porque quando a ciência se alia à cultura e ao cuidado tradicional, o resultado é extraordinário.

Toda vez que uma tartaruguinha cruza a faixa de areia até tocar as águas do Xingu, a Amazônia envia um recado ao planeta:
Ainda dá tempo.
Ainda podemos proteger.
Ainda podemos nos comprometer com aquilo que realmente importa:
a vida — em todas as suas formas.
Esse berçário gigante, pulsante e cheio de esperança, é prova de que o futuro não está distante. Ele está correndo para o rio, agora mesmo. E cabe a nós abrir caminho.
Eu, daqui, sigo emocionado, torcendo por cada filhote que mergulha.
Porque quando uma tartaruga nasce, renasce também um pedacinho da humanidade que insiste em respirar.
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