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Escrito por Neo Mondo | 5 de novembro de 2025
O Brasil atingiu — e, em algumas regiões, superou — o limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
O novo levantamento do MapBiomas revela um dado alarmante: o Brasil ultrapassou o teto de 1,5°C em algumas regiões. A floresta que regula o clima global e o bioma mais biodiverso do planeta estão literalmente queimando sob o peso da omissão humana
Sabe aquela sensação de estar assistindo a um filme apocalíptico, mas com a diferença de que o roteiro é real — e nós somos os protagonistas? Pois é. Foi assim que me senti ao mergulhar nos dados recém-divulgados pelo MapBiomas Atmosfera, que mostram, sem rodeios, o quanto já ultrapassamos o limite climático definido pelo Acordo de Paris.
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Em 2024, a Amazônia brasileira registrou uma temperatura 1,5°C acima da média histórica. No Pantanal, o número é ainda mais dramático: 1,8°C. Esses valores não são meras estatísticas — são sinais de que o Brasil, guardião de alguns dos ecossistemas mais vitais do planeta, está na linha de frente de uma crise que não é mais futura. É presente. É agora.
A nova plataforma do MapBiomas, lançada às vésperas da COP30, em Belém, é um daqueles marcos que misturam ciência e urgência. Utilizando imagens de satélite e modelagem de dados entre 1985 e 2024, ela mostra que a temperatura no Brasil vem subindo a uma taxa média de 0,29°C por década.
Mas nem todos os biomas esquentam da mesma forma. O Pantanal lidera o ranking, com um aquecimento de 0,47°C por década, seguido pelo Cerrado (+0,31°C). Os biomas costeiros — Mata Atlântica, Caatinga e Pampa — aquecem mais lentamente, talvez por estarem sob a influência do oceano.
Ainda assim, o padrão é claro: nenhuma região está imune.
Quando o cientista Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, revela que a Amazônia perdeu 52 milhões de hectares de vegetação nativa desde 1985, dá um nó na garganta. É uma área maior do que a Espanha. Essa devastação altera as trocas de calor e vapor d’água com a atmosfera, intensificando as temperaturas e reduzindo as chuvas.
Um estudo recente publicado na Nature Geoscience — também com base nos dados do MapBiomas — confirma: o desmatamento é responsável por 74% da redução das chuvas e 16% do aumento da temperatura na Amazônia durante a seca. Ou seja, o desmatamento não apenas destrói a floresta — ele sabota o próprio sistema climático que nos mantém vivos.
No Pantanal, o cenário é ainda mais desolador. Com 205 dias sem chuva em 2024 e precipitação 314 mm abaixo da média, o bioma virou um barril de pólvora. A combinação de calor extremo e seca recorde criou as condições perfeitas para os incêndios que devastaram milhões de hectares.
A temperatura média 1,8°C acima da normalidade é apenas a face numérica de uma tragédia que se traduz em imagens de jacarés carbonizados, tuiuiús fugindo de áreas em chamas e peixes mortos em lagoas secas.

Quando a natureza grita, o que fazemos?
Outra revelação perturbadora do MapBiomas Atmosfera é sobre a qualidade do ar. As partículas finas (MP2,5) — aquelas que penetram fundo nos pulmões — atingiram níveis alarmantes em Rondônia e Mato Grosso, com 42 e 30 µg/m³ respectivamente.
Curiosamente, os estados litorâneos do Nordeste apresentaram o ar mais limpo do país, com índices inferiores a 7 µg/m³. A explicação é simples e cruel: onde há mais fogo, há mais morte. A fumaça que cobre a Amazônia durante a estação seca é o rastro visível de um modelo de desenvolvimento que continua ignorando o óbvio.
Desde 2014, as temperaturas no Brasil permanecem acima da média histórica. O ano de 2024 foi o mais quente de todos os tempos no país — e o padrão não dá sinais de recuo. As secas mais prolongadas, as chuvas concentradas e os eventos extremos estão se tornando a nova normalidade.
O El Niño até ajuda a explicar parte dessas anomalias, mas não dá pra colocar toda a culpa nele. O problema é estrutural. É a soma de décadas de desmatamento, queimadas, expansão agrícola desordenada e negligência com políticas públicas.
Enquanto líderes mundiais se preparam para desembarcar em Belém, a pergunta que ecoa é: como negociar o futuro quando o presente já ultrapassou o limite?
O Acordo de Paris fixou 1,5°C como o teto para evitar o colapso climático global. O Brasil já chegou lá — e, em alguns lugares, foi além. Isso significa que não estamos mais discutindo metas abstratas, mas vidas reais: comunidades ribeirinhas, povos indígenas, animais, agricultores, cidades inteiras.
A plataforma MapBiomas Atmosfera surge como uma bússola em meio ao caos, oferecendo dados que podem — e devem — orientar decisões urgentes. Como diz o professor Paulo Artaxo, da USP, “a ciência está mostrando o que a política insiste em não ver”.
Escrever sobre isso me deixou inquieto. Porque, no fundo, não estamos falando só de aquecimento global — estamos falando de refrigeração moral. De uma sociedade que se acostumou ao colapso, que naturalizou o inaceitável.
Mas há uma janela, ainda que estreita. E ela se chama ação coletiva. Dados como os do MapBiomas não são sentenças — são alertas. O desafio é transformar esse alerta em atitude, antes que o termômetro da Terra nos expulse do próprio lar.
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