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Escrito por Neo Mondo | 15 de janeiro de 2026
Capa do livro “Mudanças Climáticas no Brasil: Estado da Arte e Fronteiras do Conhecimento” - Foto: Divulgação
Por - Claudia Costa, Jornal da USP / Neo Mondo
Lançado pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, reúne destacados cientistas brasileiros, incluindo professores e pesquisadores da USP
Durante a COP30, realizada em novembro do ano passado, em Belém, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) lançou o livro Mudanças Climáticas no Brasil: Estado da Arte e Fronteiras do Conhecimento, reunindo contribuições da ciência brasileira acerca da crise climática. A obra traz renomados profissionais de institutos brasileiros e em várias áreas do conhecimento, incluindo pesquisadores e professores da USP, que apresentam um panorama das mudanças climáticas e contribuições para a mitigação e redução de seus impactos, como, por exemplo, políticas de baixo carbono, ações de adaptação urbana, além da integração entre governos, academia e sociedade civil e empresas. Dividido em dez capítulos, o livro está disponível para download gratuito neste link.
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“É impossível não considerar, como mostrado no livro, que projeções climáticas, estimam que a temperatura média anual, no Brasil, possa aumentar entre 2,5 e 4,5°C até 2100 na maior parte do país. Áreas como o semiárido nordestino e o sul da Amazônia podem sofrer secas prolongadas e severas, afetando a produção agrícola, os recursos hídricos e a saúde pública. Também é alarmante que a Ciência esteja nos dando evidências recentes de uma estreita ligação entre condições climáticas extremas e as emissões atmosféricas de carbono da Amazônia, indicando que a floresta pode estar em transição de seu papel histórico de absorvedora de CO2 para uma preocupante fonte de emissões de carbono devido à degradação e mudanças climáticas”, afirmam os organizadores no prefácio do livro.
Para eles, o Brasil, com sua biodiversidade, seu potencial científico e sua matriz energética majoritariamente renovável, não pode ser mero espectador: deve se posicionar como ator estratégico neste cenário de mudanças profundas. Dessa forma, a diversidade dos capítulos reflete uma visão holística de como essa questão deve ser abordada. “(…) A agenda climática não pode ser, apenas, a agenda dos gases de efeito de estufa. O planeta é um só e outras agendas globais devem andar em paralelo”, afirmam, definindo o livro como ambicioso já que conecta áreas que historicamente eram tratadas separadamente, como economia, agricultura, saúde e oceanografia. Em última instância, concluem, a ambição é “mostrar como transformar o conhecimento produzido por nossos cientistas em políticas públicas que o Brasil e o Planeta urgentemente necessitam”.
Florestas, oceanos e saúde pública
Entre os destaques está o capítulo sobre a Amazônia, um dos ecossistemas naturais mais produtivos do mundo, que traz entre os autores o renomado climatologista brasileiro Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Eles alertam sobre o avanço, nas últimas cinco décadas, na substituição da floresta amazônica por pastagens, exploração de madeira, plantações de soja, mineração, crescimento de cidades, etc., informando que a Amazônia brasileira já foi 21,8% desmatada. Apontam ainda outras questões como aumento das temperaturas e a crescente intensidade de eventos climáticos extremos, como secas e ondas de calor e inundações. Segundo eles, os impactos acumulativos agravam a ameaça de degradação florestal irreversível, minando os sumidouros de carbono, e podem levar essas regiões de floresta tropical a um limiar crítico e a um eventual colapso ecológico, sendo preciso priorizar pesquisas e monitoramentos que devem incluir, por exemplo, perfis de solo (umidade/temperatura, lençol freático), entre outras ações.

A importância do oceano no enfrentamento à emergência climática é abordada em Oceano e Zonas Costeiras, assinado por vários pesquisadores, referência em suas áreas, incluindo Wim Degrave, Alexander Turra, José Luiz Moutinho, Wânia Duleba e Milena Maltese Zuffo, todos da Universidade de São Paulo (USP). Eles destacam que, com mais de 8.500 quilômetros de linha de costa, o Brasil tem jurisdição sobre um total de 5,7 milhões de quilômetros quadrados de oceano, o que equivale a mais da metade do território nacional. “É a chamada Amazônia Azul, que inclui a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) de 4,5 milhões de quilômetros quadrados”, afirmam os autores. Eles apresentam a complexidade e os desafios dos oceanos na preservação do planeta através dos resultados de suas pesquisas divididas em temas como Clima e Oceano; Vulnerabilidade e Resiliência Costeira e Oceânica; Acidificação do Oceano; Biodiversidade; Recifes de Corais; Pesca e Aquicultura; Transição Energética; Cultura Oceânica, Governança Oceânica, entre outros. Além de traçar um panorama dos impactos nos oceanos, com o aumento de furacões, inundações e erosões costeiras, apontam soluções como, por exemplo, avanços das pesquisas em energias renováveis no oceano.
Outro destaque é o capítulo Mudanças Climáticas e Saúde sobre as interações entre mudanças climáticas e saúde pública, que vem se intensificando de forma alarmante, como afirmam os vários autores, Dividido em cinco partes, o primeiro texto, assinado por Bruno Caramelli (professor da Faculdade de Medicina da USP), apresenta os impactos sobre a saúde cardiovascular, que se tornam exacerbados por conta de eventos extremos como ondas de calor e frio, que induzem desidratação, hipercoagulabilidade e agravos cardiovasculares, especialmente entre populações vulneráveis. Na sequência, o texto de Mariana Veras e Paulo Saldiva (também da Faculdade de Medicina da USP) e Marie-Anne Van Sluys (professora do Instituto de Biociências da USP), contribui ao mostrar como a urbanização não planejada tem transformado o ambiente urbano em um agravante da crise climática e sanitária.
No campo das doenças infecciosas, o texto, que traz entre os autores Silvia Figueiredo Costa (pesquisadora e professora associada do Instituto de Medicina Tropical da USP), analisa o impacto das mudanças climáticas sobre doenças bacterianas de veiculação hídrica, que exige ações coordenadas entre setores. Maria Cassia Mendes-Correa e Ester Sabino (Faculdade de Medicina da USP) ampliam essa discussão abordando as arboviroses, como a dengue, cuja expansão está diretamente relacionada ao aumento da temperatura global, à urbanização desordenada e à pobreza. Por fim, o texto que inclui a autoria de Celia R. S. Garcia (professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP). evidencia que a malária, embora com mortalidade reduzida, apresenta crescimento na incidência, particularmente na Amazônia brasileira, reforçando a importância de investimentos em novas ferramentas terapêuticas e vacinas, voltadas à proteção de grupos vulneráveis.
Há também outros dois capítulos, que contam com a participação de pesquisadores da USP. O Papel Central da Água na Resiliência e Adaptação, que traz entre os autores o professor Eduardo Mario Mendiondo (Escola de Engenharia de São Carlos da USP), e destaca a ciência da Água na superfície, com foco na defesa de estratégias de adaptação, que depende do conhecimento local sobre a gestão da água.. Ous seja, a gestão dos recursos hídricos requer principalmente compreender como a água é armazenada e transportada após chegar ao continente, o que depende das condições locais (características naturais das bacias hidrográficas) e também das modificações feitas pela sociedade, como o uso da terra e a construção de estruturas hidráulicas.

Já o capítulo Mudanças Climáticas: Impactos Econômicos, que conta com participação do professor Eduardo Amaral Haddad e da pesquisadora Jaqueline Coelho Visentin, ambos da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, sintetiza os avanços científicos produzidos no âmbito da sub-rede Economia da Rede Clima e do subcomponente de economia do INCT para Mudanças Climáticas, discutindo o papel da ciência econômica nas mudanças climáticas, abordagens metodológicas e modelos analíticos, além de resultados temáticos organizados em eixos como agricultura, água, energia, emissões e desigualdades regionais, dentre outros.
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