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Mulheres africanas e a luta climática: vozes que ecoam até a COP30

Escrito por Neo Mondo | 8 de setembro de 2025

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Em Adis Abeba, Dia de Gênero reforça luta de mulheres africanas por justiça climática - Foto: Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil Amazônia/PR

POR - REDAÇÃO NEO MONDO*

Nos corredores movimentados da Semana do Clima da África, em Adis Abeba, não faltam histórias que revelam como a crise climática atravessa o cotidiano das mulheres. Enquanto líderes negociam estratégias globais de mitigação e adaptação, milhões de africanas continuam gastando horas todos os dias em tarefas básicas — buscar água, recolher lenha — que se tornam cada vez mais árduas diante da degradação ambiental.

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Foi nesse cenário que o Dia de Gênero ganhou protagonismo na conferência, ressaltando a liderança feminina africana e a urgência de incluir as demandas feministas na declaração final da Cúpula do Clima da África e nos rumos da COP30, em Belém. A mensagem foi clara: não há justiça climática sem justiça de gênero.

A sobrecarga invisível

Nos países da África Subsaariana, dados do Programa Internacional de Mulheres pelo Meio Ambiente (WEP) mostram que mulheres e meninas dedicam grande parte do dia à coleta de água. Esse esforço rouba tempo de estudo, trabalho remunerado, empreendedorismo e participação política. A desigualdade se agrava porque, em média, elas gastam até cinco vezes mais horas que os homens em atividades domésticas não remuneradas.

A exclusão energética aprofunda ainda mais o abismo. Cerca de 600 milhões de africanos ainda vivem sem eletricidade — e o peso recai sobre elas. Muitas cozinham com lenha ou carvão em fogões rudimentares dentro de casa, enfrentando fumaça tóxica que causa doenças respiratórias graves. O tempo despendido na coleta de madeira é mais uma barreira ao acesso à educação e ao mercado de trabalho.

Impactos e resiliência

A África responde por menos de 4% das emissões globais, mas sofre de forma desproporcional com secas prolongadas, escassez de água, degradação florestal e insegurança alimentar. Nessas crises, as mulheres, guardiãs dos recursos naturais e da vida comunitária, estão na linha de frente — enfrentando riscos de violência, falta de cuidados básicos e oportunidades negadas.

Mesmo assim, são elas que oferecem caminhos: práticas de agricultura regenerativa, projetos de energia solar, conservação de florestas. O combate à crise climática, quando liderado por mulheres, torna-se também uma oportunidade de emancipação.

O nó do financiamento

Estudos indicam que a África precisa de US$ 250 bilhões anuais para adaptação e mitigação, mas recebe apenas uma fração desse montante. Enquanto o compromisso global de US$ 100 bilhões ainda patina, o acesso a recursos é especialmente difícil para organizações de base lideradas por mulheres.

Doris Mpoumou, representante especial da ONU Mulheres para a União Africana, resumiu o desafio: “É fundamental garantir que os mecanismos de financiamento sejam acessíveis e realmente atendam às necessidades das comunidades”.

foto mostra Ana Toni, diretora executiva da COP30 e secretária nacional de Mudança do Clima do Ministério de Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil e mulheres africanas
Protagonismo feminino africano aponta caminhos para justiça climática e igualdade - Foto: Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil Amazônia/PR

A sub-representação feminina

A desigualdade também se reflete nas negociações globais. Dados da Gender and Environment Data Alliance mostram que, na COP29, apenas 32% dos delegados africanos eram mulheres. Em 53 das 54 delegações do continente, os homens eram maioria. E só quatro países publicam estatísticas desagregadas por sexo sobre mortalidade ligada à poluição e desastres naturais.

Priscilla Achakapa, presidente do WEP, lembrou que, apesar da falta de recursos, mulheres africanas já implementam soluções inovadoras — da aquaponia à energia limpa. “As africanas devem estar presentes nas negociações não apenas como vozes consultivas, mas como líderes na formulação de políticas”, defendeu.

COP30: a chance de virar o jogo

Com a COP30 em Belém, a expectativa é de uma virada. O embaixador André Corrêa do Lago reconheceu que a agenda de gênero entrou tarde nos debates climáticos, mas destacou que agora será transversal em todas as negociações.

Ana Toni, CEO da COP30, reforçou o caráter histórico da interação entre mulheres africanas e negras brasileiras: “Essa colaboração inspira ações concretas. A COP30 deve ser centrada nas pessoas, especialmente nas mulheres, que estão na linha de frente da vulnerabilidade, mas também da mudança”.

O consenso entre as lideranças africanas é cristalino: a África não quer apenas reagir à crise climática — quer liderar o debate global e provar que desenvolvimento e igualdade podem caminhar lado a lado.

*Com informações de Leandro Molina / COP30 Brasil

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