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Escrito por Neo Mondo | 24 de outubro de 2025
A presidência brasileira da COP30 vem construindo, carta por carta, uma narrativa que mistura diplomacia, ciência, humanidade e propósito - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
De Belém para o mundo, a presidência brasileira da COP30 escreve a história em capítulos – e cada carta é um convite à ação, à esperança e à verdade
Há algo de profundamente simbólico em chamar esses comunicados de cartas.
Em uma era dominada por comunicados técnicos, relatórios frios e jargões diplomáticos, o Brasil – como país-sede da COP30 – decidiu escrever para o mundo com o tom de quem ainda acredita no diálogo. O gesto é poético, quase subversivo. Ao invés de decretos, cartas. Ao invés de imposições, convites.
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A presidência brasileira, liderada por André Aranha Corrêa do Lago e acompanhada pelo Campeão de Alto Nível Dan Ioschpe, publicou até agora oito cartas à comunidade internacional. Juntas, elas formam uma narrativa poderosa sobre o que o mundo precisa fazer – e sentir – antes que seja tarde.
Lidas em sequência, essas cartas parecem mais um roteiro de evolução da própria humanidade diante da crise climática: da tomada de consciência à ação; do medo à responsabilidade; da promessa à entrega.
A seguir, um resumo pessoal e reflexivo de cada uma delas – o espírito do Mutirão Global que está nascendo rumo a Belém.
A primeira carta inaugura a jornada. Um texto que carrega humildade e peso histórico: o Brasil assume a presidência da COP30 e convoca o mundo a um pacto de cooperação e corresponsabilidade.
É o prenúncio de um tempo em que a diplomacia precisa ser menos protocolo e mais propósito.
“Somos guardiões de um legado comum”, escreve Corrêa do Lago.
Tom: esperança.
Mensagem: começar é reconhecer a responsabilidade compartilhada.
A segunda carta vem como um alerta. “O tempo da diplomacia suave passou”, diz, em outras palavras.
Ela conecta os sinais do colapso planetário – oceanos aquecendo, geleiras derretendo, extremos climáticos – à necessidade de ação concreta.
Tom: impaciente, firme, direto.
Mensagem: é hora de agir, e o palco é o planeta inteiro.
Aqui, a presidência define os três pilares que guiam toda a narrativa da COP30:
A quarta carta é onde o discurso ganha forma.
Apresenta uma Agenda de Ação baseada em seis eixos temáticos que vão de energia limpa e biodiversidade a cidades resilientes e financiamento climático.
É o primeiro esboço do mutirão global — uma engrenagem colaborativa de governos, empresas e sociedade civil.
Mensagem: sair do PowerPoint e colocar o planeta de pé.
Talvez a mais bonita em tom e propósito.
Aqui, o foco se desloca dos números para os rostos.
A carta reconhece que mulheres, povos indígenas, comunidades tradicionais e jovens não são apenas vítimas – são protagonistas da transição justa.
“A ação climática começa e termina com pessoas.”
Mensagem: sem humanidade, não há solução.
A sexta carta vem com o peso do prazo.
Lembra que 80% dos países ainda não entregaram suas novas NDCs para 2035 e cobra coragem política.
Também lança a Consulta da Presidência da COP30, uma espécie de escuta global antes do encontro em Belém.
Mensagem: ou escolhemos mudar, ou seremos cobrados pela história.
Tom: realista, quase confessional.
Eis a carta do setor privado — talvez a mais pragmática de todas.
Endereçada a CEOs, investidores e empreendedores, ela transforma o discurso climático em oportunidade de negócios e inovação.
“A transição é irreversível. A ação climática é a principal oportunidade de negócios do nosso tempo.”
O texto apresenta a Agenda de Ação Climática da COP30, com seis eixos e 30 objetivos centrais, do triplo de energia renovável à inteligência artificial sustentável.
Cria também o conceito de “Celeiro de Soluções” — uma vitrine de ideias reais, escaláveis e monitoráveis.
Mensagem: a liderança climática não está nas palavras, mas nos investimentos.
Tom: inspirador, técnico e provocador.
Em tradução livre: “Belém é o novo Vale do Silício da sustentabilidade”.

A oitava é, sem dúvida, a mais filosófica e comovente de todas.
É sobre adaptação climática, mas poderia ser sobre a própria essência humana.
“A sobrevivência nunca pertenceu aos mais fortes, mas aos mais cooperativos.”
Ela alerta para o risco de um mundo dividido entre os que podem se proteger e os que serão deixados para trás.
Invoca Achille Mbembe e denuncia a necropolítica climática — a escolha silenciosa sobre quem vive e quem morre diante da omissão.
Defende que adaptação não é caridade, mas economia inteligente: cada estrada resiliente, cada escola adaptada se paga em vidas salvas e PIB preservado.
Mensagem: adaptar-se é evoluir.
Tom: ético, humano e urgente.
Síntese: a COP30 será a COP da verdade, onde a empatia será medida em políticas públicas.
Cada carta é um lembrete de que o Brasil está tentando transformar a COP30 em algo maior que uma conferência — em um pacto civilizatório.
Juntas, elas compõem uma narrativa coerente e poderosa:
Belém, coração da Amazônia, será o ponto de convergência.
O lugar onde a humanidade se olha no espelho da floresta — e decide o que quer ser daqui pra frente.
Ao reler todas essas cartas, confesso que senti uma estranha mistura de esperança e apreensão.
Esperança porque há um Brasil que quer liderar o mundo pelo exemplo.
Apreensão porque sabemos que as promessas climáticas muitas vezes evaporam no ar — e o planeta não tem tempo a perder.
Mas talvez seja isso mesmo que essas cartas tentem nos lembrar:
a palavra ainda tem poder.
E se o papel aceita tudo, cabe a nós transformar cada carta em ação — antes que o planeta não aceite mais nada.
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