Amazônia COPs Cultura Destaques Economia e Negócios Emergência Climática Meio Ambiente Política Saúde Segurança Sustentabilidade Tecnologia e Inovação

Pré-COP em Brasília sinaliza avanços e impasses rumo à COP30: o que ficou claro nos dois dias de debates

Escrito por Neo Mondo | 15 de outubro de 2025

Compartilhe:

Balanço dos trabalhos foi apresentado em reunião da Pré-COP em Brasília - Foto: Rafa Neddermeyer/COP30

POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DE NEO MONDO

Entre consensos pela implementação de acordos e divergências sobre financiamento e desmatamento, a reunião preparatória em Brasília revelou o tom e os desafios da COP30, que será realizada em novembro, em Belém do Pará

Nos dias 13 e 14 de outubro, Brasília se transformou no epicentro das negociações climáticas que antecedem a COP30, reunindo ministros, diplomatas e representantes de mais de 60 países no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB). A Pré-COP teve como principal objetivo preparar o terreno político e diplomático para as decisões que serão tomadas em Belém, em novembro — e, de certo modo, testar o pulso global diante de um planeta cada vez mais pressionado por eventos extremos, desigualdades e transições inacabadas.

Leia também: Dos Corredores ao Plenário: Como Regras, Tratados e a Política se Entrelaçam na COP do Clima

Leia também: Entre Brasília e Belém: o mundo chega à Pré-COP sem bússola

Se o encontro não teve o brilho dos grandes anúncios, ele ofereceu algo talvez mais importante: clareza sobre as prioridades e os pontos de atrito que marcarão as negociações daqui em diante.

Avanços concretos e sinais de cooperação

A ministra Marina Silva resumiu o espírito do encontro ao afirmar que “o mundo precisa sair do discurso e entrar na implementação”. Essa ideia norteou boa parte dos debates e reforçou o que a presidência brasileira da COP30 vem tentando construir: uma agenda de ação baseada na execução efetiva dos compromissos já assumidos.

Entre os principais consensos e avanços registrados na Pré-COP estão:

  • Compromisso pela adaptação climática: houve convergência sobre a urgência de fortalecer ações de adaptação — especialmente nos países em desenvolvimento — diante da intensificação dos desastres climáticos.
  • Financiamento climático em pauta: delegações reforçaram a necessidade de ampliar o fluxo de recursos internacionais, públicos e privados, para ações de mitigação e adaptação. O tema continua sendo o principal divisor de águas entre nações ricas e pobres.
  • Implementação do Acordo de Paris: o Brasil e outros países destacaram a importância de transformar as metas em resultados mensuráveis, priorizando transparência e governança.
  • Saúde e clima lado a lado: pela primeira vez, a saúde foi tratada como um eixo central da agenda climática. Delegações e organizações defenderam que o tema não pode mais ser “nota de rodapé” nos compromissos internacionais.
  • Participação dos povos tradicionais: o “Círculo dos Povos”, iniciativa liderada pela ministra Sonia Guajajara, foi apresentado como modelo pioneiro para garantir o protagonismo de comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais nas discussões e decisões da COP30.

Além disso, o BNDES lançou durante o evento uma plataforma pública de acompanhamento do Fundo Clima, permitindo transparência sobre os projetos financiados. Uma medida simbólica, mas essencial para reconstruir a confiança na governança climática brasileira.

Pontos de tensão e desafios à frente

Nem tudo, porém, soou em tom de consenso. Houve preocupações claras e críticas contundentes, principalmente em relação à ausência de temas estruturais:

  • Florestas em segundo plano: ambientalistas e organizações como o Greenpeace alertaram que, mesmo com a COP30 sendo sediada na Amazônia, o desmatamento não recebeu a ênfase esperada.
  • Compromissos vagos: embora vários países tenham demonstrado disposição para cooperar, poucos apresentaram metas ou prazos concretos. As chamadas “declarações de intenção” continuam dominando o cenário.
  • Descontinuidade de políticas: um levantamento apresentado durante o evento revelou que quase 300 iniciativas climáticas lançadas em COPS anteriores foram descontinuadas, o que reforça a fragilidade de parte dos compromissos internacionais.
  • Financiamento insuficiente: o discurso global sobre o Fundo de Perdas e Danos ainda carece de um plano robusto de financiamento. O impasse sobre quem paga e quanto pagar permanece o grande nó político da agenda climática.

Apesar desses entraves, a presidência da COP30, liderada por Dan Ioschpe, avaliou o encontro como “positivo e preparatório”, destacando que os diálogos em Brasília consolidaram pré-consensos que devem facilitar a construção de um documento final mais equilibrado e inclusivo em Belém.

Uma prévia do que o mundo verá em Belém

A Pré-COP foi, acima de tudo, um termômetro. Indicou onde há vontade política e onde a resistência ainda predomina.

O Brasil, na presidência da COP30, reforçou o discurso de liderança multilateral, defendendo uma transição energética justa e inclusiva, e anunciando a meta de quadruplicar a produção de combustíveis sustentáveis até 2030 — um gesto simbólico de que o país quer chegar à COP com credenciais de protagonista.

Mas o verdadeiro teste virá em Belém, quando o entusiasmo retórico precisará se converter em planos, metas, prazos e recursos.

O recado das novas gerações

Entre os momentos mais marcantes do evento, crianças e adolescentes entregaram uma carta aberta aos líderes globais, com um apelo direto e comovente: “Salvem o nosso mundo”.

O gesto, mais do que simbólico, lembrou que o debate climático não é apenas diplomático ou econômico — é também geracional e existencial. As vozes jovens presentes na Pré-COP reforçaram a urgência de transformar promessas em ações concretas, com justiça social e responsabilidade compartilhada.

foto de marina silva na Na Pre-COP
Na Pre-COP, Marina Silva destacou que o fortalecimento do financiamento à natureza é essencial para cumprir os compromissos climáticos - Foto: Rafa Neddermeyer/COP30
Reflexão final

A Pré-COP em Brasília pode não ter resolvido os impasses globais, mas trouxe um sinal encorajador: há diálogo, há vontade e há pressão crescente da sociedade civil por resultados reais.

Como bem sintetizou Marina Silva, “não existe um planeta B, e nem um tempo B”.
A contagem regressiva para Belém já começou — e o mundo espera que a COP30 seja o momento em que o discurso finalmente encontre a ação.

*Com informações

Compartilhe:


Artigos anteriores:

O Brasil quer liderar a bioeconomia global. Mas ainda não sabe o que ela é

O Brasil aprovou a sua própria bomba-relógio ambiental

Terras raras: entre Washington, Pequim e Brasília, quem controla o futuro


Artigos relacionados