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Escrito por Neo Mondo | 27 de agosto de 2026
Fundação Biodiversitas protege em Canudos, no norte da Bahia, o último refúgio da arara-azul-de-lear, espécie endêmica da Caatinga que saiu de cerca de 50 indivíduos livres para 2.548 no censo de 2024 - Foto: Adriano Gambarini
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
A Fundação Biodiversitas aprovou na segunda-feira (24) as demonstrações contábeis de 2025 e o relatório de gestão do mesmo ano, em reunião extraordinária do Conselho de Curadores. A sessão também definiu quem comanda a instituição até 2030. O Dr. Helton Freitas foi reconduzido à presidência do conselho, com Paulo Roberto Haddad na vice-presidência, para o mandato 2026/2030. A contadora Thais Utsch apresentou os números do exercício. O superintendente Jorge Velloso expôs o relatório de gestão e, em seguida, o planejamento estratégico para o biênio 2027-2028. O colegiado manteve a diretoria executiva: Roberto Messias Franco como diretor-presidente, Dr. Paulo Pimenta na área administrativa e financeira e Paulo Machado no planejamento e projetos.
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A pauta é administrativa. A instituição que a cumpriu, não.
Criada em 1989 em Belo Horizonte por pesquisadores ligados à UFMG e ao Centro Mineiro para Conservação da Natureza, entre eles o Prof. Ângelo Machado, Célio Valle, Hugo Werneck, Ibsen Gusmão, Ilmar Bastos, Gustavo Fonseca e Anthony Rylands, a Biodiversitas fez no Brasil algo que nenhuma outra organização havia feito: converteu o vocabulário do movimento ambientalista em método verificável. Publicou em 1990 a primeira relação de fauna brasileira ameaçada. Em 1994, lançou o Livro Vermelho dos Mamíferos Brasileiros Ameaçados de Extinção aplicando os critérios da IUCN. Em 1998, fez o mesmo para Minas Gerais. Coordenou a revisão da lista nacional realizada em 2002, oficializada pelo Ministério do Meio Ambiente por meio das Instruções Normativas nº 3, de 2003, e nº 5, de 2004. E assinou a coordenação técnica do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, publicado em 2008 com as 627 espécies então reconhecidas pelo governo, distribuídas em 1.500 páginas, mil mapas e 250 ilustrações, com financiamento do PROBIO e parceria da Conservação Internacional.
O Estado depois absorveu o método. O ICMBio publicou sua própria versão do Livro Vermelho em 2018, em sete volumes e cerca de 4.200 páginas. Em 18 de junho de 2026, o MMA atualizou a lista nacional pela Portaria nº 1.704: 790 espécies e subespécies da fauna terrestre ameaçadas, das quais 168 estão em situação crítica, incluindo 25 possivelmente extintas. Invertebrados terrestres formam o maior grupo, com 264 registros, seguidos das aves, com 242. A primeira lista nacional, de 2003, partiu da análise de cerca de 1.800 espécies. A de agora resultou de 15 oficinas técnicas com mais de 200 especialistas, sobre uma base de mais de 15 mil espécies monitoradas.
Há uma simetria pouco notada nessa linha do tempo. Em abril de 2003, na sede do Ibama, em Brasília, a equipe da Biodiversitas se reuniu com técnicos do órgão e com o então secretário de Biodiversidade e Florestas, João Paulo Capobianco, para decidir a publicação da lista saída do workshop. Vinte e três anos depois, Capobianco assinou a atualização como ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima. A infraestrutura de dados que uma fundação privada montou com dinheiro de projeto virou política pública permanente.
Enquanto isso, a Biodiversitas seguiu no trabalho de campo, que é onde os números param de ser abstratos. A instituição administra quatro reservas particulares em áreas prioritárias identificadas pela Aliança Brasileira para a Extinção Zero, somando mais de 3 mil hectares de Mata Atlântica e Caatinga. Em Simonésia, Minas Gerais, o complexo Mata do Sossego protege 270 hectares onde vive o muriqui-do-norte, maior primata das Américas, criticamente em perigo, com menos de mil indivíduos livres repartidos em cerca de doze populações isoladas. Em Tombos, os 83 hectares da RPPN Ninho da Tartaruga abrigam o cágado-do-paraíba. Em Macarani, na Bahia, os 1.189 hectares da Mata do Passarinho guardam o entufado-baiano e mais de dezoito aves ameaçadas. E em Canudos, a Estação Biológica criada em 1993 a partir de 130 hectares comprados na Toca Velha, hoje com 1.477 hectares, tornou-se o caso de recuperação de espécie mais documentado do país: quando a estação nasceu, contavam-se cerca de 50 araras-azuis-de-lear na natureza. O censo de 2024 registrou 2.548.

Esse resultado não veio de cercas. Veio de convivência. Os licurizais que alimentam a arara estão em zonas rurais desprotegidas, fora de qualquer perímetro de conservação, e o choque em redes de distribuição hoje mata mais araras-azuis-de-lear do que qualquer outra causa. Quem monitora ninhos, avisa sobre aves feridas e denuncia captura é o morador do Raso da Catarina. A Bahia transformou a de-lear em símbolo oficial do turismo de observação de aves, e o projeto Jardins da Arara de Lear já recebeu visitantes de mais de 40 nacionalidades, num sertão que a maioria dos brasileiros não localiza no mapa. É a esse arranjo que a fundação se refere ao afirmar, no comunicado sobre a reunião, que cuidar da biodiversidade e das pessoas é a razão de existir da Biodiversitas.
O planejamento para 2027-2028 será executado contra um pano de fundo que se move na direção contrária. A Coleção 11 do MapBiomas, divulgada em agosto, mostra que a vegetação nativa caiu de 79% para 65% do território brasileiro em 41 anos, enquanto a agropecuária passou de 18% para 32%. Vinte e cinco estados e o Distrito Federal reduziram a participação de vegetação nativa no período. Reservas privadas de algumas centenas de hectares operam dentro dessa aritmética, não fora dela. E dependem de uma costura instável entre editais públicos, filantropia e patrocínio corporativo: no caso de Canudos, o financiamento veio de fontes como o PROBIO, o CNPq, a FAPESP, fundações internacionais e empresas, entre elas a Seguros Unimed, parceira desde março de 2019 e presidida pelo mesmo Dr. Helton Freitas agora reconduzido ao conselho curador.
O Prof. Ângelo Machado, que presidiu esse conselho e descreveu 98 espécies de libélulas antes de morrer, em 2020, aos 85 anos, repetia uma frase para quem quisesse ouvir sobre a fauna brasileira: "Estão destruindo tudo sem saber para o que serve."
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