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A escola flutuante que atraca no Rio: 450 toneladas, 11 mil milhas de autonomia e uma tripulação sem marinheiros profissionais

Escrito por Neo Mondo | 15 de agosto de 2026

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Escola flutuante: a Nave Santa Maria fundeada com as velas recolhidas, 450 toneladas e dois mastros de brigantina sobre um casco projetado para o Ártico - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

O veleiro-escola da Fundação Secutor, com sonar 3D, telex e um motor de 1964, fica aberto à visitação no Espaço Cultural da Marinha durante a Rio Ocean Week. O comandante Simone Sacco conta como recrutou motoristas de ônibus e skatistas para a melhor tripulação do mundo

A Nave Santa Maria chega ao Rio de Janeiro com 50 metros de comprimento, 450 toneladas de deslocamento e uma tripulação em que quase ninguém veio de escola náutica. O veleiro de bandeira panamenha fica atracado no Espaço Cultural da Marinha, aberto à visitação durante a Rio Ocean Week 2026, que acontece de 17 a 20 de setembro no Museu do Amanhã, sob o tema "Poluição Marinha: Diagnósticos e Soluções". Quem comanda a embarcação é o italiano Simone Sacco, que reuniu a bordo ex-motoristas de ônibus, skatistas e uma tatuadora hoje certificada como soldadora naval.

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O navio foi construído em 1964 nos estaleiros holandeses Jonker & Stans como um pesqueiro ártico motorizado, ainda que sobre um projeto de casco de brigantina à vela. Sacco o encontrou em 2015 sem mastros. A restauração levou quatro anos no pequeno porto de Den Oever, no norte da Holanda, com apoio da Luyt Machinefabriek, estaleiros locais, voluntários e doações de materiais de empresas europeias, entre elas o ferro-velho naval Smedegaarden, na Dinamarca. Sacco descreve a obra como o maior retrofit já executado em uma embarcação à vela.

Quem opera o navio é a Fundação Secutor, sediada em Milão, com recursos próprios. A embarcação recruta jovens de 16 a 35 anos sem cobrar nada e funciona como escola flutuante, laboratório de pesquisa e set de filmagem ao mesmo tempo. A bordo há biólogos, uma sala de pós-produção audiovisual, seis computadores em rede, sonares 3D e CHIRP, drones marítimos, telex, rádio goniômetro e um motor Werkspoor original de oito cilindros. A autonomia declarada é de 11 mil milhas náuticas.

No Brasil, a Santa Maria assinou cooperação de longo prazo com o Instituto Oceanográfico da USP e coleta DNA do borrifo de baleias com drones, técnica já consolidada por grupos brasileiros de pesquisa no Banco dos Abrolhos. Com a Marinha do Brasil, mapeia o fundo da região da Ilha Fiscal e troca tecnologia de mergulho. A conversa a seguir aconteceu a bordo, no Rio.

Comandante, a Nave Santa Maria é operada por uma fundação privada e não cobra nada dos tripulantes. Por que esse formato?

O propósito desta embarcação é ser um navio explorador, de pesquisa e de treinamento. Somos a única embarcação privada no mundo que faz isso dessa forma. A ideia começou a tomar forma em 2010, quando senti a necessidade de compartilhar meu conhecimento. Eu queria dar aos jovens a oportunidade de serem livres e de verem o mundo de outro ponto de vista. A única solução era trazê-los a bordo. O navio os desconecta da terra, limpa a mente e os afasta de coisas perigosas, como as drogas e o condicionamento extremo das redes sociais. Levo jovens de 16 a 35 anos e faço isso de graça porque quero dar oportunidade a qualquer um. O dinheiro tem que ser respeitado, mas não é o ponto central. O ponto é a liberdade e a felicidade.

O senhor divide essa visão com Laura Dekker, que se tornou a pessoa mais jovem a dar a volta ao mundo sozinha. Como surgiu a parceria?

Conheci Laura em 2021. Depois do encontro, tive certeza de que tinha encontrado uma quase clone de mim mesmo, com os mesmos ideais, o mesmo caráter e a mesma visão. Desde então, nossos destinos se ligaram, tanto que unimos forças e também nossas famílias. Laura é minha inspiração. Ela faz um trabalho semelhante com os mais jovens em outra embarcação nossa, o brigue Guppy, e assume o comando da Santa Maria na minha ausência.

O senhor evita contratar marinheiros profissionais. Por quê?

É muito curioso, mas eu não quero ter a bordo profissionais. Não quero consertar pessoas que já estão prontas; tenho que consertar pessoas que precisam de ajuda. A meta é ter a melhor tripulação do mundo começando do zero. Pego pessoas de todos os tipos de ambiente, desde escolas navais europeias até jovens resgatados das ruas. Meu chefe de máquinas era motorista de ônibus, meu piloto era skatista, temos uma soldadora naval certificada que era tatuadora. A regra é clara: disciplina militar, nada de drogas, uniforme obrigatório e limpeza em dia. Se você estiver dentro das regras, não me importo se tem piercings ou cabelo azul.

E como se treina alguém que nunca navegou?

A bordo, o mais velho ensina o mais novo. Faço simulações de emergência, combate a incêndio, homem ao mar. O segredo para fazer tudo funcionar é deixá-los sentir que são uma família. Há uma grande empatia e amor ao próximo. Eles vivem a bordo 24 horas por dia e o navio se torna a casa deles.

O navio nasceu como pesqueiro do Ártico. O que precisou mudar?

Este foi o maior retrofit já feito em uma embarcação à vela na história. O navio foi construído em 1964 pelo estaleiro Jonker & Stans, na Holanda, como um pesqueiro ártico motorizado, mas eles usaram o projeto de casco de uma brigantina à vela. Quando a encontrei em 2015, ela não tinha mastros. A restauração durou quatro anos, em Den Oever. Precisávamos de um navio com porão grande, motor enorme, forte capacidade em mares pesados e espaço para equipamentos modernos e antigos. A Santa Maria era a única que correspondia a isso.

A embarcação parece antiga, mas o senhor a descreve como o veleiro tecnologicamente mais avançado do mundo. Como as duas coisas convivem?

Compartilhamos o antigo e o moderno ao mesmo tempo. É como o Nautilus, do Capitão Nemo. Tudo tem que parecer antigo, mas a infraestrutura é de ponta. Temos seis computadores em rede que gerenciam desde as velas até os sonares e o sistema meteorológico. Temos sonares 3D e CHIRP, além de drones marítimos. Por outro lado, usamos equipamentos tradicionais e sistemas de comunicação antigos, como rádio goniômetro e telex, integrados a três conexões diferentes de satélite. Nosso sistema de guinchos para as velas é hidráulico, adaptado de navios de pesquisa de petróleo. Ainda operamos com o motor Werkspoor original, de oito cilindros. Essa combinação garante redundância absoluta nos sistemas e ensina navegação clássica à tripulação. Temos também uma sala de pós-produção a bordo, onde editamos todo o material que filmamos.

Quanto o navio consome?

A embarcação é extremamente eficiente. Consome 35 litros de diesel por hora a 8 nós, combinando motor e um pouco de vela. Isso chega a ser três vezes menos do que motores modernos equivalentes.

E qual é o alcance com os tanques cheios?

Onze mil milhas náuticas. A Santa Maria é a embarcação privada com o maior alcance do mundo, cerca de 5.000 milhas acima de grandes superiates.

Como o navio produz e armazena energia?

Temos painéis solares e um grande banco de baterias tradicionais de chumbo-ácido, de 140 kW. Baterias de lítio têm risco de explosão, então ficamos com as antigas. O sistema é eficiente: bastam seis horas de carga com o gerador para o navio ter energia independente por dois a cinco dias. No limite, usando apenas velas e energia solar, dá para sobreviver no mar entre dez e doze anos.

Quais foram as piores condições que a Santa Maria enfrentou?

O navio é muito forte. Com o mar pela proa, o desempenho é incrível. Li no diário de bordo antigo que já enfrentaram força 10 no Mar do Norte, navegando com o motor à ré para não virar nas ondas de dez metros. No nosso caso, o pior tempo também foi no Mar do Norte. O problema grave é o mar de través. Sem as velas para estabilizar, o navio balança como o inferno, chegando a inclinar 50 graus para cada lado em um período curto, de sete segundos. Nessas horas, você tem que amarrar tudo, inclusive a minha cadeira de comando. Na travessia do Atlântico, dois blocos do pico da vela se romperam, peças de 300 quilos a 30 metros de altura. A tripulação soldou no topo do mastro sob tempo severo.

Como funcionam as pesquisas científicas e as parcerias no Brasil?

A ciência deve ser compartilhada. Se você não compartilha o conhecimento, acaba estudando a mesma coisa que os outros e não sai do lugar. Temos biólogos a bordo e realizamos pesquisas sobre mamíferos marinhos. Atualmente conduzimos o projeto SACE, South Atlantic Corridor Investigation, que é a maior pesquisa hidrofônica já feita, começando nas Canárias e terminando em Madagascar. No Brasil, assinamos uma cooperação de longo prazo com o Instituto Oceanográfico da USP. Coletamos DNA do borrifo das baleias usando drones marítimos e enviamos para os laboratórios deles. Também cooperamos com a Marinha do Brasil, usando nossos sonares para mapear o fundo da região da Ilha Fiscal.

O senhor mencionou uma troca tecnológica com a Marinha na área de mergulho. Do que se trata?

Os equipamentos foram feitos sob especificações próprias para o navio, em amarelo e preto, e incluem jaquetas menores e um sistema de tanque duplo reverso. Esse sistema é mais simples, mais barato e funciona dez vezes melhor do que configurações tradicionais complexas. Pela eficiência, estamos compartilhando a tecnologia com a Marinha do Brasil em um intercâmbio de experiências e tecnologias de mergulho e investigação submarina. A Marinha nos dá suporte logístico e técnico não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. É uma das mais dedicadas à proteção e ao estudo do meio ambiente marinho, e compartilhamos com eles todos os dados oceanográficos e batimétricos coletados nas missões.

Quais são os próximos passos depois do Rio?

Estamos esperando a Laura chegar com o Guppy. No fim de outubro começaremos a descer lentamente para o sul do Brasil, com paradas no Uruguai e na Argentina. No Natal, devemos chegar à região da Terra do Fogo ou às Ilhas Malvinas. O Guppy segue para a Península Antártica, enquanto eu fico esperando com parte da tripulação, fazendo pesquisas e mergulhos. Depois a Santa Maria continua para leste, passando pelas ilhas antárticas até a África do Sul, e o Guppy vai para oeste, rumo ao Chile e à Nova Zelândia. Da África do Sul, contornamos o Cabo em direção a Madagascar.

E o deslocamento em terra, nas escalas?

A Santa Maria carrega duas motocicletas e um Smart, guardados no compartimento de carga e içados por guindaste quando chegamos aos portos. É o Smart que mais viaja no mundo e será o primeiro carro desse modelo a chegar à Antártica.

O que está previsto para Madagascar?

Ficaremos lá por dois ou três anos para estabelecer uma base em terra e o Projeto Nemo. Faremos um habitat marinho subaquático permanente a dez metros de profundidade, sustentado por oxigênio produzido por algas e plantas subaquáticas. A tecnologia já existe. Quero criar o primeiro lugar no mundo com gestão privada e pública que seja totalmente acessível, formando uma geração de jovens especializados em exploração e ciência. O mundo é muito grande, há muitas histórias para contar e coisas curiosas nunca estudadas. Somos como esponjas, precisamos apenas aprender a ver.

foto do veleiro Nave santa Maria, remete a matéria A escola flutuante que atraca no Rio: 450 toneladas, 11 mil milhas de autonomia e uma tripulação sem marinheiros profissionais
Escola flutuante em águas cariocas: a Nave Santa Maria fundeada na Baía de Guanabara, diante de um Pão de Açúcar tomado pelas nuvens - Foto: Divulgação

A Santa Maria deixa o Rio no fim de outubro. Até lá, o público pode subir a bordo no Espaço Cultural da Marinha, no Boulevard Olímpico, a poucos minutos a pé do Museu do Amanhã, onde a Rio Ocean Week reúne mais de 70 palestrantes e cerca de 30 instituições de conservação marinha e institutos de pesquisa entre 17 e 20 de setembro. O Neo Mondo é mídia oficial do evento e acompanha a programação nos quatro dias.

O festival é organizado pela MidiaMar Comunicação e pela Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, vinculada à USP por meio do Instituto Oceanográfico e do Instituto de Estudos Avançados. As recomendações produzidas nesta segunda edição serão levadas à Conferência da Década do Oceano, que o Rio de Janeiro sedia de 7 a 9 de abril de 2027, com cerca de 2 mil participantes previstos e coorganização da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e da Prefeitura do Rio.

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