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El Niño caminha para ser o mais forte desde 1950, e o Projeto Mantas do Brasil aposta em mergulhadores e pescadores para seguir a raia-manta

Escrito por Neo Mondo | 17 de setembro de 2026

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El Niño muito forte pode mudar a oferta de plâncton de que dependem as raias-manta, animais identificados pelas manchas do ventre, únicas em cada indivíduo - Foto: Divulgação/Mantas do Brasil

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

No Dia Mundial da Raia-Manta, a NOAA calcula 75% de chance de um evento histórico até dezembro. Em Santos, o projeto do Instituto Laje Viva amplia monitoramento, ciência cidadã e educação ambiental

A raia-manta chega ao seu dia mundial, nesta quinta-feira (17), com um aviso vindo do Pacífico. Em 10 de setembro, o Centro de Previsão Climática da NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, elevou para mais de 90% a chance de o El Niño atingir intensidade muito forte até o início de 2027 e calculou em 75% a probabilidade de o evento superar, entre outubro e dezembro, todos os registrados desde 1950. No litoral brasileiro, quem acompanha a espécie de perto é o Projeto Mantas do Brasil, iniciativa do Instituto Laje Viva sediada em Santos (SP), que usa a data para reforçar o monitoramento científico e a educação ambiental.

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O boletim dá a medida da anomalia. A superfície do mar no Pacífico equatorial leste já passa de 3 °C acima da média. O índice Niño-3.4, referência para classificar o fenômeno, marcou +1,8 °C em agosto. A NOAA publica a próxima atualização em 8 de outubro.

O efeito biológico apareceu antes do pico. O satélite PACE, da NASA, em órbita desde fevereiro de 2024, comparou junho de 2026 com junho de 2025, um ano neutro, e registrou concentração de clorofila bem menor no Pacífico equatorial central, ao norte da Nova Zelândia. Menos clorofila significa menos fitoplâncton. Com os ventos alísios enfraquecidos, a camada de água quente se aprofunda e bloqueia a subida da água fria e rica em nutrientes que sustenta a base da cadeia alimentar. É o primeiro El Niño completo que o PACE acompanha.

Essa base alimentar é o ponto que liga o fenômeno à pesquisa de Letícia Schabiuk Cruz, oceanógrafa e coordenadora executiva do projeto. No mestrado na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), em Ilhéus (BA), ela cruzou avistamentos de cinco espécies do gênero Mobula, reunidos em bases como GBIF, OBIS e registros da Marinha do Brasil, com temperatura da água, profundidade, correntes e distância da costa. Qualidade da água, correntes e oferta de alimento surgiram como os fatores que mais pesam na definição de onde as mantas aparecem.

A literatura internacional mostra que a resposta das mantas ao El Niño não segue uma direção só. Na Ilha do Coco, na Costa Rica, 27.527 mergulhos feitos entre 1993 e 2013 registraram queda de cerca de 89% na abundância relativa da raia-manta gigante, e os anos de maior presença coincidiram com menor atividade do El Niño, segundo revisão publicada em 2024 pelo serviço de pesca da NOAA. Os autores do levantamento original atribuíram a queda principalmente à pesca fora do parque nacional. No arquipélago mexicano de Revillagigedo, a pesquisadora Madalena Pereira Cabral observou o movimento inverso: em anos de El Niño, mais mantas se concentraram na área protegida, possivelmente porque havia menos alimento no restante do Pacífico.

A observação do PACE vale para o Pacífico. No Brasil, o El Niño age sobretudo pela atmosfera. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê chuva acima da média em áreas do Sul e abaixo da média no centro-norte, e condiciona a intensidade desses efeitos às temperaturas do Atlântico Tropical e do Atlântico Sul.

Para um animal que filtra plâncton e se reproduz devagar, uma mudança prolongada na oferta de comida pesa sobre a recuperação da população. As raias da família Mobulidae têm, em geral, um filhote por gestação a cada dois ou três anos, maturidade tardia e crescimento lento, segundo o Ministério do Meio Ambiente. Em 2020, a IUCN, a União Internacional para a Conservação da Natureza, mudou a classificação das raias-manta de vulneráveis para ameaçadas de extinção.

O Brasil proibiu em 13 de março de 2013, por instrução normativa conjunta dos ministérios da Pesca e do Meio Ambiente, a pesca direcionada, a retenção a bordo, o transbordo, o desembarque, o transporte e a venda de todas as raias da família. A norma não impede a captura acidental. Em 20 de abril deste ano, a assistente de pesquisa Luiza Gomes encontrou no Parcel Dom Pedro, em Itanhaém (SP), uma fêmea de Mobula birostris com 5 a 6 metros de envergadura e sem a cauda, lesão que provavelmente resultou de contato com equipamento de pesca. Batizada de Moana, ela abriu a temporada de avistamentos no litoral paulista. Pescadores da região haviam avisado a equipe sobre ao menos três aparições de raia-manta na mesma área nos dias anteriores.

Letícia descreve o problema sem rodeio. "É um animal oceânico, raro, difícil de encontrar e, devido ao status de conservação cada vez mais crítico, está cada vez mais próximo de extinção. Como ela tem uma área de vida muito grande e não respeita fronteiras, o monitoramento se torna complicado. Mesmo com leis que proíbam a captura, o transbordo e o comércio de todas as espécies do gênero, não existe fiscalização, e os animais acabam presos em redes de forma incidental e acidental. Isso traz prejuízo não só para as mantas, mas também para os pescadores."

O monitoramento ficou mais complexo em julho de 2025. Uma equipe liderada por Nayara Bucair, da Universidade de São Paulo, descreveu na revista Environmental Biology of Fishes a Mobula yarae, terceira espécie de raia-manta conhecida no mundo, com ocorrência do leste dos Estados Unidos ao Brasil. O nome homenageia Yara, entidade das águas da mitologia indígena brasileira. A descrição usou imagens do acervo do Projeto Mantas do Brasil e se apoiou em parte na fotoidentificação que Ana Paula Balboni Coelho começou a fazer em águas brasileiras em 2001. Segundo a Marine Megafauna Foundation, a nova espécie vive mais perto da costa, cai em redes de emalhe e arrasto, e já teve exemplares recuperados na pesca artesanal brasileira.

O projeto atua há 15 anos, com convênio da Petrobras pelo programa Petrobras Socioambiental, e tem no Parque Estadual Marinho da Laje de Santos um de seus principais pontos de observação. A equipe identifica cada indivíduo pelas manchas do ventre, únicas como impressão digital, estuda rotas migratórias e maturidade sexual e alimenta o Banco Brasileiro de Mantas (BBM), base pública de registros históricos. O Programa Cidadão Cientista já capacitou mais de 2.000 mergulhadores para registrar avistamentos. Com a Redemar Brasil, a parceria RedeMantas atende resgates e capturas acidentais ao longo da costa.

Com a boca aberta, a raia-manta filtra plâncton e pequenos organismos da água, a mesma base alimentar que o satélite PACE, da NASA, viu encolher no Pacífico em 2026 - Foto: Divulgação/Mantas do Brasil

Em 3 de julho, o projeto inaugurou em Santos o Espaço Mantas do Brasil, que reúne pela primeira vez centro de visitantes e sede administrativa. Até então, a instituição funcionava em pequenos escritórios. As visitas são gratuitas, guiadas por monitores e feitas com agendamento. O público encontra um mural da raia-manta em tamanho real, pintado por Alexandre Huber, cinema imersivo, mergulho com óculos de realidade virtual e exemplares taxidermizados. "A nova sede permitirá reunir toda a estrutura do projeto em um único local, além de possibilitar sua expansão nos próximos anos", afirmou Paula Romano, coordenadora-geral.

A formação de gente nova segue em paralelo. O Coletivo Jovem Mantas 2026 ofereceu 10 vagas para voluntários de 18 a 29 anos, com 125 horas de formação e imersão presencial em Santos. No sábado (19), a equipe participa do Clean Up Day na Praia da Aparecida, das 8h às 13h.

Letícia lembra que o tamanho do animal assusta mais do que deveria. "Elas são grandes e podem até assustar, mas são animais indefesos. Não possuem ferrão." O próximo passo, diz, é criar uma rede nacional para proteger as raias gigantes, com mantas e outras espécies de grande porte, e ampliar a ciência cidadã. "É impossível a equipe do projeto cobrir toda a costa sozinha. Os mergulhadores e pescadores são os nossos olhos."

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