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Instituto Oyá e Somas levam IA de ponta à escola pública de São Paulo

Escrito por Neo Mondo | 11 de setembro de 2026

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Instituto Oyá coloca inteligência artificial de ponta nas mãos de quem a desigualdade digital ainda mantém à margem - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

O Instituto Oyá e a SOMAS abriram as inscrições do Autonom.IA, programa que vai formar 30 estudantes de escola pública da região metropolitana de São Paulo no uso de inteligência artificial. As candidaturas se encerram em 27 de setembro. A aula inaugural acontece em 17 de outubro, no hub da 42 São Paulo, na Vila Madalena. A formação é gratuita, atende jovens de 14 a 18 anos e entrega a cada selecionado algo que praticamente nenhum aluno da rede pública tem hoje: uma licença individual e paga de uma plataforma de IA generativa de ponta.

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É esse o ponto que distingue o programa de dezenas de iniciativas de letramento digital em circulação no país. A coalizão subsidia integralmente, por seis meses, licenças corporativas de ferramentas como Google Gemini Pro e Claude. Os estudantes vão operar com o mesmo tipo de acesso que engenheiros de grandes empresas usam. Sem a versão gratuita, sem limite de mensagens, sem a fila de espera que separa quem experimenta a tecnologia de quem a domina.

Os números explicam por que a aposta faz sentido. A TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, mostrou que a IA generativa já faz parte da rotina de 32% dos usuários de internet no Brasil, cerca de 50 milhões de pessoas de 10 anos ou mais. A distribuição desse uso é outra história. A proporção chega a 69% na classe A e cai para 16% nas classes D e E. Entre quem tem ensino superior, 59% adotaram a ferramenta, contra 17% dos que têm ensino fundamental. Entre os que não usaram, a falta de habilidade foi o motivo mais citado justamente por quem parou no fundamental, com 65%. Fabio Storino, coordenador da pesquisa, resumiu o risco: os ganhos de produtividade e as novas formas de aprendizado podem seguir concentrados nos grupos que já acumulam mais oportunidades.

A qualidade do acesso corre no mesmo sentido. Dois terços dos usuários brasileiros de internet, 65%, conectam-se exclusivamente pelo celular, cinco pontos percentuais mais que em 2024. Entre a população preta, o índice chega a 73%. Dos 85% de brasileiros conectados, apenas 20% estão na faixa mais alta de conectividade significativa. E 64 milhões de pessoas, 39% de quem tem celular, ficaram sem pacote de dados ao menos uma vez nos três meses anteriores à pesquisa. O problema atinge sobretudo usuários de plano pré-pago, modalidade de 61% das pessoas das classes D e E que têm telefone. O Autonom.IA adota modelo híbrido e exige do participante acesso a notebook ou tablet próprio para acompanhar os módulos assíncronos. A licença de ponta resolve a ferramenta. Não resolve o aparelho nem a banda.

Dentro da escola, o quadro é de uso intenso e regra escassa. A TIC Educação 2024 apontou que sete em cada dez estudantes de ensino médio usuários de internet já recorrem a ferramentas de IA generativa para pesquisas escolares, mas só 32% dizem ter recebido alguma orientação da escola sobre como usá-las. A edição 2025, divulgada em agosto deste ano com base em entrevistas com gestores de 2.404 escolas, mostrou que a IA generativa já entrou na rotina de mais da metade dos gestores escolares, enquanto apenas 37% das escolas permitem o uso da tecnologia pelos alunos em atividades educacionais.

O Ministério da Educação escolheu outro caminho para enfrentar a mesma desigualdade. O documento orientador "Inteligência Artificial na Educação Básica", lançado em 8 de abril de 2026, em parceria com a Unesco, orienta o ensino de conceitos de IA por atividades físicas e lúdicas que dispensam computadores, a chamada IA desplugada, como forma de garantir equidade em escolas de baixa conectividade. São duas estratégias opostas diante do mesmo problema: o poder público distribui conceito sem máquina para milhões, a sociedade civil distribui máquina de fronteira para dezenas.

A metodologia do programa se apoia em uma referência anterior a qualquer chatbot. A pedagogia da autonomia, de Paulo Freire, é a espinha dorsal conceitual declarada pelas organizações. Sobre ela, o currículo empilha governança de dados, engenharia de prompts e leitura crítica de vieses algorítmicos. O desenho dialoga com o marco de competências em IA para estudantes publicado pela Unesco em 2024, que organiza doze competências em três níveis progressivos: compreender, aplicar e criar. O uso escolar mapeado pelas pesquisas brasileiras trava no segundo nível, o da pesquisa e do trabalho pronto. O Autonom.IA exige o terceiro. Em lugar de prova, cada participante precisa entregar um projeto autoral que aplique IA a um gargalo socioambiental do próprio território.

"Ao cruzar a pedagogia da autonomia com a engenharia de prompts e a ética de dados, damos a esses estudantes o poder de decodificar as vulnerabilidades de seus territórios", afirma Camila Achutti, conselheira do Instituto Oyá e cofundadora da SOMAS. Achutti também dirige a Mastertech, da qual a SOMAS é a organização sem fins lucrativos.

A seleção tem duas etapas eliminatórias e critérios explícitos. O edital exige matrícula na rede pública, idade entre 14 e 18 anos no ato da inscrição e residência com acesso viável aos encontros presenciais. Dá preferência a jovens de comunidades tradicionais indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Estabelece paridade mínima de 50% de mulheres e pessoas não binárias como critério de valorização e desempate. O material de candidatura é um vídeo vertical de até um minuto ou um texto de 500 a 1.500 caracteres. Os selecionados serão anunciados em 7 de outubro. Não há bolsa financeira: o que o programa oferece é formação, licença, certificado e entrada em uma rede de multiplicadores.

Depois da abertura em 17 de outubro, a formação virtual corre de 21 de outubro a 18 de novembro, em cinco encontros síncronos de até duas horas, às quartas-feiras. A apresentação final dos projetos acontece até 30 de dezembro. O edital em vigor prevê até 60 vagas em dois polos, com outras 30 destinadas à região metropolitana do Rio de Janeiro, cuja data de abertura segue indefinida. O piloto do programa rodou no Amazonas e registrou mais de 500 inscritos de todas as regiões do país, 150 jovens atendidos diretamente, 15 comunidades alcançadas e 10 workshops presenciais no estado.

A escala da assimetria que o programa tenta furar é global e estável. O relatório do Anthropic Economic Index publicado em setembro de 2025 mostrou que o índice de uso per capita se correlaciona fortemente com a renda dos países, com economias emergentes muito abaixo do esperado para o tamanho de suas populações: Indonésia em 0,36, Índia em 0,27 e Nigéria em 0,2 vez a participação populacional. O Brasil responde por 3,7% do uso global da plataforma. A edição seguinte do relatório, de janeiro de 2026, foi mais direta: as diferenças permanecem altamente desiguais e não há sinal de convergência entre países de uso baixo e alto.

"A assimetria no acesso às tecnologias é uma das faces mais perversas da desigualdade moderna", diz Kamila Camilo, diretora executiva do Instituto Oyá. "Queremos que esses jovens dominem a inteligência artificial para desenhar as respostas que seus próprios territórios exigem."

A aritmética do primeiro ciclo é modesta e as organizações não escondem isso: a tese de multiplicação, não a de cobertura, é o que sustenta o desenho. A rede estadual paulista registrou 1.257.489 matrículas no ensino médio em 2025, segundo o Censo Escolar. O Autonom.IA vai distribuir 30 licenças em São Paulo.

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