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Rio Ocean Week 2026 discute poluição marinha na margem de uma baía que despeja 216 mil toneladas de plástico por ano

Escrito por Neo Mondo | 1 de setembro de 2026

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Rio Ocean Week 2026 no Museu do Amanhã, na Praça Mauá, sede do maior festival de cultura oceânica da América Latina - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

De 17 a 20 de setembro, o Museu do Amanhã reúne mais de 50 painéis, 70 palestrantes e 30 instituições sob o tema "Poluição Marinha: Diagnósticos e Soluções", sete dias antes de os negociadores do tratado global do plástico voltarem a se sentar à mesa, em Bangcoc

O Museu do Amanhã fica na Praça Mauá, de frente para a Baía de Guanabara. Segundo o estudo Blue Keepers, conduzido pelo Pacto Global da ONU no Brasil com o Instituto Oceanográfico da USP, a bacia da Guanabara pode enviar ao mar cerca de 216 mil toneladas de plástico por ano, o que a coloca entre as três rotas mais críticas do país, ao lado das fozes do São Francisco e do Amazonas. É nessa margem que a Rio Ocean Week 2026 vai discutir poluição marinha durante quatro dias. O objeto de estudo está do lado de fora da janela.

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A segunda edição do festival acontece de 17 a 20 de setembro, com entrada gratuita, sob o tema "Poluição Marinha: Diagnósticos e Soluções". São mais de 50 painéis e atividades, 70 palestrantes brasileiros e estrangeiros e mais de 30 instituições de conservação marinha e de pesquisa. O evento é uma iniciativa da MidiaMar Comunicação e da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, vinculada à USP por meio do Instituto Oceanográfico e do Instituto de Estudos Avançados. O Neo Mondo é mídia oficial da Rio Ocean Week 2026.

"A Rio Ocean Week nasceu para aproximar o oceano das pessoas e transformar conhecimento em engajamento e ação", afirma Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano.

Os painéis Ideias Azuis dividem o tema em três frentes: resíduos sólidos, saneamento básico e poluição química e silenciosa. A divisão é didática, mas a ciência publicada nos últimos doze meses mostra que as três se encontram no mesmo ponto, e esse ponto costuma ser a foz de um rio urbano.

Comece pelo esgoto. Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico com ano-base 2024, compilados pelo Instituto Trata Brasil, mostram que cerca de 90 milhões de brasileiros, ou 43,3% da população, não têm coleta de esgoto. Apenas 51,8% do esgoto gerado no país recebe tratamento. O Marco Legal do Saneamento fixou 90% de coleta e tratamento até 2033. Faltam sete anos.

Agora a química. Em março de 2026, a Nature Geoscience publicou a maior varredura já feita de compostos sintéticos na matéria orgânica dissolvida do mar. O estudo, liderado por Jarmo Kalinski e Daniel Petras, da Universidade da Califórnia em Riverside, reuniu 21 bancos de dados públicos com 2.315 amostras de água coletadas nos oceanos Pacífico, Índico e Atlântico Norte ao longo de uma década. Os pesquisadores identificaram 248 compostos de origem humana, com contribuição mediana de 2% do sinal químico detectado. Em áreas costeiras, a mediana chegou a 20%. Em fozes de rios que recebem esgoto sem tratamento ou com tratamento deficiente, passou de 50%.

Metade do sinal químico da água. Não de contaminantes exóticos, mas de pesticidas, fármacos e, sobretudo, compostos industriais como ftalatos, organofosforados e polialquileno glicóis, usados em plásticos, lubrificantes e produtos de consumo. Petras observa que parte dessas moléculas se situa na fronteira entre a química orgânica tradicional e os nanoplásticos, o que dissolve a separação prática entre poluição química e poluição plástica. As duas mesas dos Ideias Azuis discutem, no fundo, a mesma água.

O terceiro eixo, os resíduos sólidos, já chegou onde ninguém esperava encontrá-lo cedo. O primeiro levantamento científico de lixo em mar profundo brasileiro, publicado no Marine Pollution Bulletin por pesquisadores do Instituto Oceanográfico da USP, encontrou detritos em 28 dos 31 pontos amostrados no talude de São Paulo e Santa Catarina, entre 200 e 1.500 metros de profundidade. Em alguns locais, havia mais resíduo do que peixe e invertebrado. Em 2026, o mesmo grupo, dentro do projeto Deep-Ocean apoiado pela FAPESP, encontrou fibras plásticas e poluentes orgânicos persistentes em sedimentos e organismos coletados na Bacia de Santos entre 400 e 1.500 metros.

Sobre microplásticos, o festival chega em um momento de revisão metodológica que merece ser lido com atenção por quem toma decisão. Em janeiro de 2026, trinta cientistas de vinte instituições propuseram um marco comum para avaliar a confiabilidade de estudos sobre microplásticos em tecidos humanos, inspirado na forma como a ciência forense pondera evidências. No mesmo mês, um artigo publicado na Nature indicou que as concentrações atmosféricas de microplásticos podem ter sido superestimadas, possivelmente em ordens de grandeza. Nada disso desfaz a presença documentada das partículas em água, ar, sedimento e organismos. O que está em disputa é a precisão dos números, e precisão é o que separa uma política pública de um slogan.

Foi exatamente essa lacuna que levou Turra a Sopot, na Polônia, em março, como membro do comitê de orientação do IMDOS, o sistema integrado de observação de detritos marinhos que busca incluir o lixo no mar entre as variáveis essenciais do Global Ocean Observing System, vinculado à Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO. Variável essencial não é métrica opcional. É medição obrigatória e comparável entre países.

A régua política está posta e tem data. O Brasil instituiu a Estratégia Nacional Oceano sem Plástico pelo Decreto nº 12.644, de 1º de outubro de 2025, com vigência até 2030, coordenação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e acompanhamento no Conselho Nacional do Meio Ambiente, que deve definir metas e indicadores. No plano multilateral, a negociação do tratado global contra a poluição plástica foi suspensa em Genebra, em 15 de agosto de 2025, sem consenso sobre o texto, depois de dez dias de reunião com 1.400 delegados de 183 países. O chileno Julio Cordano assumiu a presidência do comitê em fevereiro de 2026. Uma reunião informal de chefes de delegação em Nairóbi, entre 30 de junho e 3 de julho, não produziu texto consolidado.

A próxima reunião presencial acontece em Bangcoc, de 27 a 30 de setembro de 2026. Sete dias depois de a Rio Ocean Week fechar as portas. A sessão decisiva, a INC-5.4, está marcada para o período de 13 a 24 de março de 2027. Três semanas depois dela, o Rio de Janeiro recebe a Conferência da Década do Oceano, coorganizada pela COI-UNESCO, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e pela Prefeitura do Rio, entre 7 e 9 de abril de 2027, com cerca de 2 mil participantes. O festival do Museu do Amanhã produzirá conteúdos e recomendações destinados a esse encontro.

Há um número que enquadra a aposta. A OCDE projeta que, sem políticas adicionais, o plástico acumulado no oceano chegará a 76 milhões de toneladas em 2040 e a 141 milhões em 2060. Em duas décadas, o mar receberá tanto plástico quanto acumulou em toda a história.

Durante os quatro dias do evento, a escuna Nave Santa Maria, trazida pela Marinha do Brasil e usada pela Secutor Foundation como escola flutuante, ficará aberta à visitação no Espaço Cultural da Marinha, na Orla Conde. Os navios oceanográficos Cruzeiro do Sul, da Marinha, e Prof. Luis Carlos, da UERJ, atracam no píer do Museu do Amanhã. As embarcações ficam a poucas centenas de metros da água que os painéis vão discutir.

SERVIÇO

Rio Ocean Week 2026
Quando: 17 a 20 de setembro
Onde: Museu do Amanhã, Praça Mauá, Rio de Janeiro
Programação e inscrições: AQUI
Entrada gratuita

Evento Carbono Neutro

Últimas cotas de patrocínio para a cobertura da Rio Ocean Week 2026, com formatos editoriais, audiovisuais e de ativação. Contato com Oscar Lopes, pelo e-mail oscar@neomondo.org.br ou pelo telefone (11) 98234-4344.

imagem da régua de patrocinadores e apoiadores da rio ocean week

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