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Mata Atlântica tem um quarto da vegetação nativa em mata nova, e 60% do desmatamento recente caiu sobre ela

Escrito por Neo Mondo | 21 de setembro de 2026

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Mata Atlântica em relevo acidentado no sul da Bahia, onde a declividade limita o uso agrícola e favorece a permanência da floresta – Reserva no município de Camacan, sul da Bahia – Foto: Renato Augusto Martins/Wikimedia Commons

POR - REDAÇÃO NEO MONDO*

Coleção 11 do MapBiomas mostra que o bioma perdeu 9,7 milhões de hectares de floresta madura desde 1985 e ganhou 8 milhões de vegetação secundária. Entre 2021 e 2025, 700 mil hectares dessa mata jovem voltaram ao chão, e a lei permite suprimi-la em estágio inicial para qualquer finalidade

Um em cada quatro hectares de vegetação nativa que ainda existem na Mata Atlântica cresceu depois de 1985, sobre terreno que já havia sido desmatado. O número está na Coleção 11 do MapBiomas, a série de mapas anuais de cobertura e uso da terra que cobre 1985 a 2025. Em 41 anos o bioma perdeu 9,7 milhões de hectares de vegetação madura. No mesmo intervalo, mais de 8 milhões de hectares de vegetação secundária se estabeleceram em áreas que tinham perdido a cobertura nativa. A floresta não voltou ao que era. Ela rejuvenesceu.

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E essa mata nova está sendo derrubada. Entre 2021 e 2025 a Mata Atlântica perdeu 1,2 milhão de hectares de vegetação nativa: 700 mil hectares de vegetação secundária e 500 mil de vegetação madura. Sessenta por cento da supressão dos últimos cinco anos atingiu áreas que estavam em recuperação.

"Ao mesmo tempo, é essencial evitar novas perdas de vegetação nativa, tanto de vegetação madura quanto secundária, especialmente em um bioma tão fragmentado e historicamente pressionado pela ocupação humana", diz Natalia Crusco, coordenadora técnica da Mata Atlântica do MapBiomas.

O saldo das quatro décadas é negativo. Somando todos os tipos de vegetação nativa, o bioma perdeu 5 milhões de hectares desde 1985, queda de 12%. Em 2025 a vegetação nativa ocupava 32% do território e a agropecuária, 63%. Rio de Janeiro e São Paulo foram os únicos estados que não registraram perda no período. A supressão anual caiu ao longo da série: desde os anos 2000, cada bloco de cinco anos ficou abaixo de 2 milhões de hectares suprimidos. O desmatamento diminuiu. Mudou de alvo.

A ciência já havia medido a fragilidade dessas florestas jovens. Pedro Piffer e colegas mapearam 4,47 milhões de hectares de regeneração natural na Mata Atlântica entre 1985 e 2019. Dois terços resistiram até o fim da série. O restante, 1,37 milhão de hectares, foi cortado antes, com idade média de 7,9 anos. Metade de toda a regeneração mapeada tinha doze anos ou menos. Os fragmentos são pequenos, com 3 hectares em média. Os autores registraram o mecanismo econômico por trás do número: proprietários deixam trechos de terra descansando e voltam a limpá-los antes que completem dez anos, para que a nova floresta não entre no regime de proteção legal.

A Lei da Mata Atlântica, de 2006, explica a aritmética. A supressão de vegetação primária e de secundária em estágio avançado só é autorizada em caso de utilidade pública. O estágio médio admite utilidade pública e interesse social. O estágio inicial, onde está a mata de até dez anos, pode ser suprimido para qualquer finalidade, bastando que o empreendedor dê preferência a áreas já desprovidas de vegetação. A regeneração vira ativo protegido quando amadurece, e é por isso que ela é cortada antes de amadurecer.

Esse desenho acaba de ficar mais frouxo. A Lei Geral do Licenciamento Ambiental, a Lei 15.190/2025, revogou em seu artigo 66 os parágrafos 1º e 2º do artigo 14 da Lei da Mata Atlântica, que exigiam anuência prévia do Ibama para autorizações estaduais de supressão de vegetação primária ou secundária em estágios médio e avançado. Lula sancionou o texto em agosto de 2025 com 63 vetos. O Congresso derrubou 56 deles em novembro, entre eles justamente o que barrava a revogação. A lei entrou em vigor em 4 de fevereiro de 2026. Três ações diretas de inconstitucionalidade, movidas por Partido Verde, Rede, Anamma, PSOL e Apib, e uma ação declaratória de constitucionalidade da Câmara Brasileira da Indústria da Construção tramitam no Supremo Tribunal Federal sob relatoria de Alexandre de Moraes. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, apresentou em maio de 2026 parecer pela procedência parcial. O julgamento foi pautado para agosto e retirado de pauta. Não há nova data.

O custo climático dessa rotatividade já tem ordem de grandeza. Thais Rosan e coautores, em artigo publicado na Communications Earth & Environment em abril de 2026, estimaram que as florestas secundárias em pé na Mata Atlântica em 2020 somavam 8,49 milhões de hectares e 385 teragramas de carbono acima do solo. Se todas fossem protegidas, o estoque subiria 35% até 2030. Se apenas as maiores de oito anos sobrevivessem, hipótese construída a partir da taxa observada de corte de matas jovens, o estoque projetado para 2030 cai 27%. Para 2050, a diferença chega a 32%. Traduzido em meta nacional: a contribuição dessas florestas para a NDC brasileira de 2030 passa de cerca de 3% para 1,4%.

O mesmo estudo mostra onde a regeneração funciona. A taxa de acúmulo de carbono nos primeiros vinte anos cai entre 43% e 69% quando se sai de uma paisagem florestal conectada para fragmentos isolados. Na região oeste e litorânea do bioma, matas jovens cercadas de floresta acumulam 3,03 megagramas de carbono por hectare ao ano, contra 0,93 nas áreas de baixa conectividade. O tempo para alcançar 95% do estoque de uma floresta madura varia na mesma proporção: 41 a 47 anos em paisagens conectadas, mais de 200 anos em fragmentos isolados. Conectividade pesou mais que clima e déficit hídrico em todas as três regiões analisadas.

A pressão sobre o solo continua vindo da lavoura. A agricultura saltou de 9,7 milhões de hectares em 1985 para 20,5 milhões em 2025, acréscimo de cerca de 11 milhões de hectares, e o bioma concentrava 31% de toda a área agrícola do país. Setenta e nove por cento dessa expansão ocorreu sobre pastagens, que encolheram cerca de 11 milhões de hectares. A soja ganhou 8,7 milhões de hectares e chegou a 11,11 milhões. A cana avançou 5 milhões e alcançou 6,15 milhões. Em 2025 a Mata Atlântica abrigava 25% da soja, 50% da cana, 68% do café e 34% do citrus mapeados no Brasil. A silvicultura quadruplicou, para 4,9 milhões de hectares, metade de tudo que o país planta; Paraná e Santa Catarina respondem por 46% disso dentro do bioma.

"A expansão e a intensificação da agropecuária são decisivas tanto para determinar o desmatamento quanto a regeneração. Após duas décadas de avanço da agricultura sobre a vegetação nativa, nos últimos anos a agricultura passou a substituir as pastagens, que passaram a ceder áreas para a vegetação secundária", afirma Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da Fundação SOS Mata Atlântica.

A cidade também cresceu. A área urbanizada do bioma aumentou 2,5 vezes em 41 anos, mais 1,3 milhão de hectares, e chegou a 2,3 milhões. Mais da metade de toda a mancha urbana brasileira, 52%, está na Mata Atlântica. Só São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba ultrapassam 30 mil hectares urbanizados; mais de 80% dos municípios do bioma têm menos de mil.

Nas ilhas costeiras, os dois movimentos aparecem lado a lado. O bioma reúne 195 ilhas, segundo o IBGE, e as dez maiores concentram 78,5% da área insular. Seis delas perderam vegetação nativa entre 1985 e 2025. Em quatro, a mancha urbana mais que dobrou: 14,5 vezes em Ilhabela, 6,4 em Itaparica, 3,6 em São Francisco e 2,4 na Ilha de Santa Catarina. Ilha das Peças, Ilha do Cardoso, Ilha do Superagui e Ilha Grande foram na direção oposta e ganharam cobertura natural, com aumento conjunto de 1,7%.

O Atlas dos Remanescentes Florestais, da Fundação SOS Mata Atlântica com o Inpe, registrou entre 2024 e 2025 o menor desflorestamento desde o início do monitoramento, em 1985: 8.658 hectares, queda de 40% sobre os 14.366 hectares do período anterior, com redução em 11 dos 17 estados do bioma. O Atlas mede floresta madura. É a parte do desmatamento que hoje responde por 40% do que se derruba na Mata Atlântica.

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