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Escrito por Neo Mondo | 8 de outubro de 2026
Um quarto da vegetação nativa perdida no Cerrado desde 1985 estava a até 500 metros de rios, segundo a Coleção 11 do MapBiomas, que retrata o bioma do lobo-guará e das chapadas abertas em mapas anuais de 1985 a 2025 - Foto: Divulgação/MapBiomas
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Coleção 11 do MapBiomas mostra pasto e lavoura em 18% da faixa que a lei reserva às margens dos rios
Entre 1985 e 2025, o Cerrado perdeu 13,9 milhões de hectares de vegetação nativa a até 500 metros de rios, córregos e outros cursos d'água. A área equivale a 26,9% de toda a vegetação nativa que o bioma perdeu no período. O número faz parte da Coleção 11 do MapBiomas, divulgada nesta quinta-feira (8). A coleção traz mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil de 1985 a 2025. A equipe do Cerrado, coordenada pelo IPAM, cruzou esses mapas com toda a rede de drenagem do bioma, de qualquer largura, para medir o que aconteceu nas margens ao longo de quatro décadas.
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Mais perto da água, a perda continua. Na faixa de até 30 metros dos rios, a vegetação nativa encolheu 13,9% no período. Em 2025, pasto e lavoura ocupam juntos 18,2% dessa faixa. Trinta metros é a largura mínima de Área de Preservação Permanente (APP) que o Código Florestal exige para cursos d'água com menos de 10 metros de largura. Para áreas já ocupadas antes de 2008, a lei de 2012 aceita uma recomposição bem menor, conforme o tamanho do imóvel: 5 metros nos menores e 8 metros nos imóveis entre um e dois módulos fiscais.
"A vegetação próxima aos rios ajuda a proteger o solo, reduzir a erosão e evitar que sedimentos cheguem aos cursos d'água", diz Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM e integrante da equipe Cerrado do MapBiomas. Segundo ela, a perda dessa cobertura pode aumentar o assoreamento, piorar a qualidade e a disponibilidade da água e deixar a paisagem mais vulnerável a secas e chuvas intensas.
A conta tem um detalhe. Em 2025, 36,5 milhões de hectares de vegetação nativa ainda estão a até 500 metros dos rios, o que representa 36,7% de tudo o que resta no Cerrado. Somadas as perdas, a faixa tinha cerca de 50,4 milhões de hectares em 1985. Ela perdeu perto de 28% desse total, contra 34% no bioma inteiro (cálculo do Neo Mondo a partir dos números do MapBiomas). A beira do rio resistiu um pouco mais que o resto da paisagem, mas não ficou fora da conversão.
O Cerrado abriga nascentes de seis grandes bacias hidrográficas do país, e a perda se concentra em duas delas. No Alto Tocantins, a vegetação nativa na faixa de 500 metros caiu de 9,7 milhões para 6,8 milhões de hectares. No Araguaia, foi de 7,8 milhões para 5,1 milhões. Juntas, as duas bacias somam cerca de 5,7 milhões de hectares de redução, 41% de toda a perda registrada nas margens do bioma. O Médio São Francisco, que leva água ao semiárido nordestino, passou de 4,9 milhões para 3,8 milhões de hectares.
A pesquisa hidrológica ajuda a medir o peso dessa perda. Em 2023, o geógrafo Yuri Salmona, do Instituto Cerrados, publicou na revista Sustainability uma análise de vazões em 81 bacias do Cerrado. O estudo atribuiu ao desmatamento uma queda média de 8,7% no fluxo dos rios e às mudanças climáticas outra de 6,7%. Mantido o ritmo de desmatamento, a projeção é de uma redução de 23.653 m³/s até 2050, ou 33,9% da vazão da região estudada. A explicação está embaixo da terra: segundo Salmona, de 80% a 90% da água dos rios do bioma vem do lençol subterrâneo, recarregado por uma vegetação de raízes que funcionam como esponja e liberam a água aos poucos na estiagem.
O efeito, porém, não aponta sempre na mesma direção. Um estudo publicado em 2018 na Geophysical Research Letters analisou 324 bacias no arco do desmatamento, entre 1950 e 2013, e concluiu que a derrubada da vegetação aumentou a vazão mínima da estação seca entre 4 e 10 pontos percentuais. Segundo os autores, esse aumento mascara a redução de vazão causada pelo clima. Uma pesquisa com participação do IPAM, divulgada em fevereiro de 2026, mediu o problema em campo na transição entre Cerrado e Amazônia. Bacias pequenas mais desmatadas chegaram a registrar o dobro de vazão anual em relação às mais preservadas, com mais risco de enchente na chuva e menos água na seca. O estudo indica que manter ao menos 50% de vegetação nativa nas áreas mais inclinadas estabiliza o fluxo ao longo do ano. O rio desmatado não fica necessariamente mais vazio. Ele perde o controle do próprio tempo.
A superfície de água já mostra essa mudança. Na coleção anterior do MapBiomas, a água natural do Cerrado encolheu 249 mil hectares (-27,8%) entre 1985 e 2024. Em 90,8% das bacias houve perda de superfície natural, enquanto 68,5% ganharam superfície de água artificial. Dhemerson Conciani, do IPAM, resumiu o quadro: cerca de 60% da água do bioma está hoje em reservatórios e hidrelétricas, que cresceram 93% no período, enquanto rios e córregos recuaram 28%.
No bioma como um todo, a Coleção 11 registra perda líquida de 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa, 34% do que existia em 1985. A formação savânica foi a mais atingida, com 34 milhões de hectares a menos (-41%). Hoje a vegetação nativa cobre 49,6% do Cerrado. A agropecuária mais que dobrou, de 46,7 milhões para 97,9 milhões de hectares, e ocupa 48,9% do bioma. A agricultura ganhou 24,7 milhões de hectares e chegou a 29,7 milhões. Em 2025, o Cerrado concentrou 49,2% da área de soja do Brasil.
A forma da conversão mudou com o tempo e com o mapa. Até 2005, a vegetação nativa virava principalmente pasto em todo o bioma. Entre 2015 e 2025, o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) passou a converter vegetação nativa diretamente em lavoura: 81,4% dessas transições aconteceram ali. Nos demais estados, a lavoura avançou sobre pastagens já abertas, com 78% das conversões de pasto para agricultura. O Matopiba guarda 47,7% da vegetação nativa que resta no Cerrado. A região respondeu por 37,3% da perda em 41 anos e por 65,7% dos 10,5 milhões de hectares perdidos na última década.
O ritmo diminuiu, mas o lugar das perdas continua o mesmo. O Prodes, do Inpe, mediu 7.235 km² de supressão no Cerrado entre agosto de 2024 e julho de 2025, queda de 11,49% e segundo recuo anual seguido. O Matopiba concentrou 78% da área desmatada. O Relatório Anual do Desmatamento do MapBiomas, publicado em maio, registrou 540.614 hectares desmatados no Cerrado em 2025, 54,9% de todo o desmatamento do país. A unidade de conservação com mais desmatamento foi a APA do Rio Preto, na Bahia, com 7.701 hectares e alta de 44%.
A perda acontece, em grande parte, dentro da lei e da propriedade privada. Segundo a Coleção 11, 77,7% da vegetação perdida estava em áreas privadas com registro georreferenciado. Terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação ocupam 7,5% do bioma, guardam 13,9% da vegetação nativa e perderam 500 mil hectares desde 1985. Em 2014, uma análise publicada na Science calculou que o novo Código Florestal reduziu em 58% a área que os proprietários seriam obrigados a recompor e deixou 88 milhões de hectares ainda passíveis de desmatamento legal, a maior parte no Cerrado. Um levantamento do Instituto Escolhas, com base em dados de 2017, estima em 1,84 milhão de hectares o déficit de vegetação nativa em APPs de imóveis rurais do Cerrado.
Nos municípios, a mudança aparece com nitidez. A agropecuária predomina hoje em 61% dos municípios do Cerrado, contra 41% em 1985: são 301 que deixaram de ter maioria de vegetação nativa. O número de municípios com menos de 20% de vegetação nativa subiu de 154 para 381. Os que mantêm mais de 80% caíram de 624 para 225. Entre os estados, o Piauí conserva a maior proporção (78,2%) e São Paulo, a menor (14,7%).

As áreas úmidas também encolheram. O campo alagado e as áreas pantanosas, classe que inclui boa parte das veredas, perderam 1,4 milhão de hectares (-18%), e 76,2% do que foi convertido virou pasto ou lavoura. A redução atingiu 69,2% dos municípios do bioma. Outras atividades cresceram em ritmo maior que a agricultura. A silvicultura passou de 600 mil para 3,9 milhões de hectares (+511%). A mineração cresceu 516% e chegou a 61.743 hectares, quase sete de cada dez partindo de vegetação nativa, com destaque para Nossa Senhora do Livramento e Poconé, em Mato Grosso. Das 14.215 hectares de usinas fotovoltaicas instaladas no Cerrado, 5.964 eram cobertas por vegetação nativa em 2016.
Para os pesquisadores, o recorte por rio define onde a política pública deve agir primeiro. "Avaliar as mudanças na cobertura e no uso da terra no entorno imediato dos rios, que são áreas prioritárias para a conservação, é essencial para entender a condição das nossas áreas de preservação permanente e das matas ciliares", diz Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e integrante da equipe Cerrado do MapBiomas. Segundo ele, o dado oferece "subsídios valiosos para orientar políticas de conservação dos recursos hídricos e potencializar a construção de corredores ecológicos em cada bacia".
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