Dia Internacional da Biodiversidade 2026

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Dia internacional da
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O Cerrado que o noticiário ignora

Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026

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Cerrado em silêncio. Enquanto os holofotes se voltam para outros biomas, uma das maiores riquezas naturais do Brasil continua desaparecendo diante dos nossos olhos - Veado-catingueiro - Foto: André Dib

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Em 2023, o Cerrado registrou 9.281 km² de vegetação nativa destruída, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) — mais do dobro do desmatamento medido na Amazônia no mesmo período. O número não provocou mobilização equivalente, não gerou negociações diplomáticas equivalentes, nem mobilizou fundos de proteção equivalentes. Passou. E o bioma seguiu perdendo o que ainda tem, na velocidade de quem sabe que não será visto.

A Amazônia concentra a atenção, os recursos de monitoramento e a maior parte da mobilização da opinião pública nacional e internacional. Há razões legítimas para isso — a Amazônia é o maior sistema florestal tropical do planeta, e seu papel no equilíbrio climático global é insubstituível. Mas essa centralidade narrativa tem um custo: o silêncio sobre o bioma mais ameaçado do Brasil em termos proporcionais.

O Cerrado já perdeu mais da metade de sua cobertura vegetal original. Em extensão absoluta, isso representa a destruição de uma área superior ao território somado da Alemanha, da França e da Espanha. A taxa de conversão anual — terras transformadas em pastagem, soja e cana — permaneceu elevada ao longo da última década, mesmo nos anos em que o desmatamento amazônico recuou.

O paradoxo não é acidental. A pressão sobre o Cerrado aumenta parcialmente porque ele não tem a visibilidade política da Amazônia — e porque o Código Florestal brasileiro exige a preservação de apenas 20% da vegetação nativa em propriedades rurais dentro do bioma, contra 80% na Amazônia Legal. Essa assimetria regulatória cria um gradiente: à medida que a fiscalização e a pressão política sobre o desmatamento amazônico aumentam, parte do avanço agrícola se desloca para o Cerrado.

Em termos de biodiversidade, o que está em jogo é de magnitude equivalente ao que se perde na Amazônia — e em alguns aspectos, ainda mais grave. O Cerrado é um dos 36 hotspots de biodiversidade identificados pela organização não-governamental Conservação Internacional: abriga mais de 11.600 espécies de plantas nativas, das quais cerca de 4.400 são endêmicas — existem apenas ali —, além de 935 espécies de aves, 299 de mamíferos, 236 de répteis e mais de 1.200 de peixes, segundo o Ministério do Meio Ambiente e pesquisas do Instituto Botânico de São Paulo. A flora endêmica do Cerrado inclui espécies com propriedades farmacológicas e alimentares que ainda não foram sistematicamente estudadas. A destruição avança mais rápido do que a ciência consegue catalogar.

O bioma também é a maior caixa d'água do Brasil. O Cerrado abriga as nascentes das três maiores bacias hidrográficas sul-americanas: São Francisco, Tocantins-Araguaia e Paraná. A destruição da vegetação não afeta apenas a biodiversidade local — compromete também o abastecimento de água de populações que vivem a centenas de quilômetros das áreas desmatadas e a produtividade agrícola das bacias que dependem da regularidade desses sistemas hídricos.

A invisibilidade política do Cerrado tem raízes históricas. O bioma foi progressivamente associado, no imaginário público, à vocação agrícola do Brasil — a expansão da soja, do milho e da carne bovina que transformou o país em potência alimentar global. Esse enquadramento apagou do debate o que existia antes, o que se perdeu e o que ainda resiste nas chapadas, veredas, matas de galeria e campos rupestres que subsistem no interior do bioma.

As comunidades que habitam e dependem do Cerrado — geraizeiros, vazanteiros, quilombolas e povos indígenas — têm sido sistematicamente marginalizadas nas políticas de gestão territorial da região. A disputa por terra produz conflitos documentados pela Comissão Pastoral da Terra em estados como Maranhão, Piauí e Tocantins — a fronteira mais ativa de expansão agropecuária sobre vegetação nativa —, com violência que raramente alcança o noticiário nacional.

O Cerrado não pede para ser tratado como a Amazônia. Pede para ser tratado como o que é: um bioma de biodiversidade extraordinária, de função hídrica estratégica e de riqueza cultural que está sendo destruído na velocidade de um país que ainda não percebeu a necessidade de preservá-lo.

Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

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