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Escrito por Neo Mondo | 18 de fevereiro de 2026
Sofrimento moral: quando a consciência sabe o caminho, mas a realidade impede o cuidado que o coração do profissional de saúde gostaria de oferecer - Imagem gerada por IA - Foto: Divulgação/Neo Mondo
ARTIGO
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Por - Jociane Casellas* e Carla Corradi Perini*, especial para Neo Mondo
Há um sofrimento que não decorre apenas do excesso de trabalho ou da exposição constante à dor alheia. Ele nasce do conflito moral. Surge quando o profissional sabe o que considera certo, mas encontra barreiras que o impedem de agir. E, também, quando sequer sabe qual é o melhor caminho a seguir. É nesse território de tensão que se manifesta o sofrimento moral.
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Tradicionalmente, compreende-se o sofrimento moral como a experiência vivida quando alguém reconhece a conduta eticamente adequada, mas é impedido de realizá-la por limitações institucionais, hierárquicas ou estruturais. Protocolos rígidos, decisões administrativas, escassez de recursos e culturas organizacionais autoritárias são exemplos dessas barreiras. A consciência aponta uma direção; a realidade impõe outra.

Contudo, o sofrimento moral não se limita a esse bloqueio da ação. Ele também se manifesta na incerteza profunda, quando o profissional não sabe o que fazer. Em cenários complexos, marcados por ambiguidades clínicas e conflitos de valores, a dúvida moral pode ser tão angustiante quanto a impossibilidade de agir. Nesses casos, o sofrimento nasce da ausência de clareza: qual decisão respeita melhor a dignidade da pessoa? O que é proporcional? O que é cuidado e o que é obstinação?
A pandemia de COVID-19 tornou esse fenômeno visível. Decidir quem teria acesso a um leito de UTI, restringir visitas em momentos finais de vida, lidar com protocolos em constante mudança. Tudo isso expôs profissionais a conflitos bioéticos intensos, seja por impedimento de agir conforme suas convicções, seja pela incerteza diante de situações inéditas.
No âmbito da chamada Saúde 5.0, o cenário torna-se ainda mais desafiador. A incorporação de inteligência artificial, sistemas de apoio à decisão clínica, big data e tecnologias preditivas promete ampliar a eficiência e a precisão diagnóstica. Mas também introduz novas camadas de tensão moral. O que fazer quando o algoritmo sugere uma conduta que contraria a intuição clínica? Como equilibrar protocolos automatizados com singularidades humanas? Quem é responsável pela decisão final?
O sofrimento moral, pode emergir tanto da submissão acrítica à tecnologia quanto da insegurança diante de sua utilização.
É aqui que se torna fundamental falar de resiliência moral. Diferentemente da ideia simplista de “suportar” adversidades, a resiliência moral refere-se à capacidade de preservar a integridade moral mesmo em ambientes adversos. Trata-se de sustentar valores, refletir criticamente, buscar diálogo e encontrar caminhos possíveis, ainda que imperfeitos, diante de conflitos complexos. Ela não elimina o sofrimento, mas auxilia no seu enfrentamento. Ela depende de ambientes institucionais que favoreçam a deliberação, a escuta e o compartilhamento de responsabilidades. Comitês de bioética, espaços interdisciplinares de discussão e culturas menos hierarquizadas são instrumentos concretos para fortalecer essa capacidade.
Em um mundo tecnologicamente sofisticado, mas moralmente desafiador, não basta investir em inovação. É preciso investir em consciência. E tudo isso estamos analisando apenas sob a perspectiva do profissional de saúde; sequer adentramos, aqui, o impacto dessas transformações sobre os pacientes, igualmente atravessados por vulnerabilidades.

A Saúde 5.0 só cumprirá sua promessa se reconhecer que, por trás de cada tecnologia, há sujeitos morais vulneráveis ao sofrimento. Sem responsabilidade moral compartilhada, corremos o risco de avançar em desempenho tecnológico enquanto retrocedemos naquilo que torna o cuidado verdadeiramente humano.
*Jociane Casellas
Psicóloga, com pós-graduação em Psicologia Clínica, Psicologia Hospitalar e Psicologia Transpessoal. Especialista em Cancerologia pelo Programa de Residência Multiprofissional do HEG e em Cuidados Paliativos pela PUC Minas. Mestre em Bioética e doutoranda em Bioética pela PUCPR.
*Carla Corradi Perini
Nutricionista, mestre em Ciências Farmacêuticas pela UFPR e doutora em Ciências da Saúde pela PUCPR. Realizou pós-doutorado em Bioética no Centro de Enfermería San Juan de Dios, da Universidade de Sevilha (Espanha). É docente do Programa de Pós-graduação em Bioética da PUCPR.
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