Bioética Ampla Destaques Emergência Climática Meio Ambiente Sustentabilidade Tecnologia e Inovação
Escrito por Neo Mondo | 13 de abril de 2026
Bioética como ponte entre o conhecimento e o futuro que ainda podemos escolher construir - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
ARTIGO
Os artigos não representam necessariamente a posição de NEO MONDO e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo sem prévia autorização
Por - Anor Sganzerla* e Kamila Henning*, especial para Neo Mondo
Em seu nascimento, na década de 1970, a bioética global proposta por Van Rensselaer Potter (1911-2001) configura-se como uma crítica profunda ao modelo dominante de progresso e desenvolvimento, marcado por uma confiança ilimitada na ciência e na tecnologia. Tal modelo, orientado por uma racionalidade instrumental, favoreceu o uso desmedido do conhecimento científico e consolidou uma relação abusiva dos seres humanos com o mundo natural, frequentemente baseada na exploração, no domínio e na negligência das consequências a longo prazo.
Leia também: Ainda somos nós que apertamos o gatilho?
Leia também: Inteligência Artificial na medicina: o que muda com a nova resolução do CFM?
Nesse contexto, a bioética global emerge não apenas como um campo interdisciplinar, mas como um verdadeiro projeto ético-político contra-hegemônico. Potter propõe uma reconfiguração do próprio sentido de progresso, articulando ciência e valores humanos em uma perspectiva de responsabilidade ampliada, capaz de considerar a sobrevivência da vida em todas as suas formas. Trata-se de estabelecer uma “ponte para o futuro”, na qual o conhecimento científico se oriente por princípios éticos que integrem a dimensão ecológica, social e cultural da existência.
Assim sendo, a bioética global potteriana desafia as bases do paradigma moderno ao reivindicar uma nova forma de racionalidade, baseada na prudência, na responsabilidade e orientada para a preservação da totalidade da vida, em vista a uma transformação na maneira como os seres humanos compreendem seu lugar no mundo e suas obrigações para com as gerações presentes e futuras.

É precisamente nesse horizonte de transformação que a bioética global também se compreende como uma utopia viva. A inspiração de Potter para concebê-la nesses termos surge da leitura de um artigo da antropóloga Margaret Mead (1901–1978), intitulado Em direção a utopias mais vívidas em que a antropóloga lança um convite, que foi posto imediatamente em prática por Potter, de criar nas universidades as cátedras do futuro. Essas cátedras teriam como propósito fomentar uma reflexão interdisciplinar orientada para o porvir, capaz de antecipar riscos, avaliar consequências e delinear caminhos éticos diante dos desafios emergentes da ciência, da tecnologia e da organização social.
Mais do que espaços acadêmicos tradicionais, tais cátedras se configurariam como núcleos de imaginação crítica e responsabilidade prospectiva, nos quais o conhecimento não se limitaria à descrição do presente, mas se comprometeria com a construção de futuros desejáveis e sustentáveis. Nesse sentido, a proposta de Mead, retomada e ampliada por Potter, aponta para a necessidade de integrar saberes, valores e previsões, de modo a orientar a ação humana à luz de uma ética voltada não apenas ao imediato, mas à continuidade da vida no longo prazo.
No texto Movendo a cultura para utopias mais vívidas com a sobrevivência como objetivo, Potter sintetiza, de maneira programática, o núcleo da sua proposta ética da bioética global. Ao empregar a expressão “movendo a cultura”, o autor indica a necessidade de uma transformação profunda das estruturas simbólicas, dos valores e das práticas que orientam a ação humana. Trata-se, portanto, de um deslocamento que ultrapassa o plano meramente teórico, implicando uma reconfiguração da própria racionalidade que sustenta o modelo civilizatório contemporâneo.
A referência a “utopias mais vívidas” aponta para a recuperação do potencial normativo das utopias, concebidas não como idealizações abstratas ou inatingíveis, mas como horizontes concretos e mobilizadores da ação. O adjetivo “vívidas” sugere utopias dotadas de força prática, capazes de orientar decisões, inspirar projetos coletivos e conferir sentido às transformações necessárias diante das crises ecológicas e sociais.
Por fim, a expressão “com a sobrevivência como objetivo” explicita o critério ético fundamental que estrutura a proposta potteriana. A sobrevivência, entendida em termos qualitativos e de longo prazo, constitui o eixo normativo que deve orientar o desenvolvimento científico, tecnológico e cultural. Nesse sentido, Potter propõe uma reinterpretação do progresso, subordinando-o à manutenção das condições de vida no planeta e à responsabilidade para com as gerações futuras.
Assim, a bioética global, enquanto utopia viva, não se reduz a um ideal inatingível, mas se apresenta como um projeto dinâmico e normativamente orientado, que convoca a humanidade a assumir, de forma consciente, a responsabilidade pelo destino comum da vida no planeta.

E para concluir, podemos nos perguntar: por que a utopia é tão importante e necessária no projeto da bioética global de Potter? A utopia é importante e necessária porque oferece um horizonte de sentido que orienta a ação humana para além das limitações do presente. Ela permite projetar futuros desejáveis, mobilizar esperanças e valores, de modo a articular anseios individuais em projetos coletivos. Além disso, a utopia sustenta a capacidade de pensar alternativas. Sem utopias, a ação humana perde direção e finalidade. Por isso, ela é condição fundamental para a transformação ética e social. O poeta e escritor Eduardo Galeano bem compreendeu qual é o papel da utopia: a utopia serve para nos fazer caminhar.
*Anor Sganzerla
Doutor em Filosofia. Professor do Curso de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Email: anor.sganzerla@gmail.com
*Kamila Henning
Advogada especialista em Direito Médico, da Saúde e Bioética. Mestranda em Bioética na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. E-mail: kamila.henning@gmail.com
Quando o algoritmo entra no consultório: quem assina o prontuário?
Deepfakes sexuais em escolas como tecnologia de vulnerabilidade
Ainda somos nós que apertamos o gatilho?