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A maravilhosa obra do acaso

Escrito por Daniel Medeiros | 18 de maio de 2026

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Maravilhosa: entre o acaso cósmico e a fragilidade da vida, a Terra segue como um milagre improvável flutuando no silêncio do universo - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DANIEL MEDEIROS*

O biólogo Stephen Jay Gould conta que, no tempo profundo da origem da vida na Terra, se cortássemos 15 minutos desse "filme", o resultado poderia ser completamente diferente do que presenciamos. Querer achar um percentual dessa mudança para mensurar sua importância é tão difícil que é melhor nem tentar: 15 minutos em 3,5 bilhões de anos!

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O que o pesquisador estadunidense queria destacar é que não houve um plano de sequência predeterminado para o desenrolar da vida, mas um maravilhoso emaranhado de acasos que foram traçando veredas — que depois foram se juntando ou se separando —, dando origem a caminhos por meio dos quais a vida foi escoando e se reinventando, dependente de circunstâncias às vezes as mais prosaicas ou bizarras, como a história (dessa vez contada por Carl Sagan) do caranguejo que se tornou dominante em uma baía na costa de uma ilha do Japão porque possuía incrustações em sua carapaça que lembravam o rosto de um menino — e que foi tomado pela população local como a reencarnação de um jovem príncipe que havia morrido afogado justamente ali, naquele lugar.

É fato que aceitar que tudo o que há — o que inclui nossas vidas tão curtas diante da imensidão da Vida — seja obra do acaso, do contingente, do circunstancial, como o impacto de um meteoro sobre as terras quentes da península de Yucatán, perto de Chicxulub Puerto, e que determinou o fim de 75% das espécies do planeta, não parece algo sensato. Costumamos dizer: não é possível que tenha sido assim, sem "motivo".

Pois é.

Demócrito, o pensador grego do século V a.C., já dizia que todo movimento e transformação, toda criação e todo "desaparecimento" são frutos de um processo mecânico de agregação e desagregação dos átomos — matéria-prima comum de tudo o que existe, mas que não vemos, exceto em sua exteriorização passageira, na forma dos corpos que habitam o mundo. Como eu, como você. A morte, na perspectiva de Demócrito, não existe, pois não passa da desagregação dos átomos de sua configuração atual e do início de um novo processo de agregação em outro corpo qualquer — ou corpos, enfim —, numa valsa infinita da qual, como também dizia o grande astrônomo Carl Sagan, somos feitos da poeira do universo.

Por que a geometria angular da molécula da água é diferente da imensa maioria dos líquidos? Como seria a vida na Terra se a molécula de água, diante da diminuição da temperatura, se comportasse como outros líquidos? Por que essa pergunta é importante? Acho que você — como eu —, cidadão comum, cumpridor de seus deveres, razoavelmente informado das coisas, preocupado em achar formas de colaborar para uma vida melhor para todos, nunca fez esse tipo de pergunta. Mas ela é apenas mais um exemplo de como uma circunstância, uma pequena mudança determinada pelo acaso, pode transformar-se em algo vital para a Terra — pois é essa estrutura molecular rara da água que impede que lagos e oceanos congelem de baixo para cima, protegendo a vida aquática no inverno, garantindo alimento e oxigênio sem os quais não estaríamos aqui, conversando sobre esse assunto.

Ah, quantas obras do acaso nos fizeram chegar até aqui. Não só os acasos do universo, do mundo, das montanhas e rios — mas também as decisões que moldaram quem somos, decisões aleatórias e sem justificativa importante. Como diria o poeta: Se a certa altura eu tivesse me voltado para a esquerda, em vez de para a direita; se em certo momento eu tivesse dito não, em vez de sim; se em certas conversas eu tivesse dito as frases que só hoje elaboro; seria outro hoje, e talvez o universo inteiro fosse insensivelmente levado a ser outro também.

Pois é.

Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

foto de daniel medeiros, autor do artigo A maravilhosa obra do acaso
Daniel Medeiros, autor do artigo "A volta do negacionismo" - Foto: Divulgação

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